segunda-feira, dezembro 31, 2007

O Eunuco Feminino

"Afinal, qual é o problema? Quem sabe eu não pudesse fazê-lo. Quem sabe eu não tenha um belo sorriso, bons dentes, bonitos seios, longas pernas, bunda bochechuda, voz sensual. Quem sabe eu não saiba como lidar com os homens e aumentar meu valor no mercado, de modo que as recompensas devidas ao feminino aumentem. Quem sabe, então, eu esteja enjoada da mascarada. Estou enjoada de fingir eterna juventude. Estou cansada de disfarçar minha própria inteligência, minha própria vontade, meu próprio sexo. Estou cansada de espreitar o mundo através de pestanas falsas, de modo que tudo que eu vejo está misturado com uma sombra de cabelos comprados; cansada de sobrecarregar minha cabeça com uma juba morta, incapaz de mover livremente o pescoço, apavorada com a chuva, o vento, receosa de dançar com entusiasmo excessivo para que não sue em meus cachos laqueados. Estou nauseada com o Banheiro Feminino. Estou nauseada de fingir que alguns pronunciamentos auto-importantes de homens fátuos são objeto de minha atenção exclusiva, estou cansada de ir a filmes e peças quando outra pessoa quer, e cansada de não ter opinião própria a respeito de nada. Estou cansada de ser um travesti. Recuso-me a ser a personificação de um ser feminino. Sou uma mulher, não uma castrada.

April Ashley nasceu homem. Toda a informação fornecida por genes, cromossomos, orgãos sexuais internos e externos afirmavam a mesma coisa. April era um homem. Mas ele aspirava a ser uma mulher. Ele aspirava ao estreótipo, não abraçar, mas ser. Ele desejava tecidos macios, jóias, peles, maquilagem, o amor e a proteção dos homens. Era impotente. Não podia dde modo algum gostar de mulheres, embora aceitasse particularmente bem encontros homossexuais. Não se julgava um pervertido, ou mesmo um travesti, mas uma mulher cruelmente trasnformada, por meio de um desastre, num homem. Tentou morrer, tornar-se a personificação de um ser feminino, mas finalmente descobriu um médico em Casablanca que apresentou uma alternativa mais aceitável. Ele devia ser castrado, e seu pênis usado como forro de uma fenda construida cirurgicamente, que podia ser uma vagina. Seria estéril, mas isso nunca afetou a atribuição de feminilidade. April voltou para a Inglaterra resplendente. Tratamento maciço de hormonios erradicara-lhe a barba, e formara pequenos seios: ele deixara crescer os cabelos e comprara roupas de mulher durante o tempo que trabalhara como um simulacro de mulher. Ele se tornou um modelo e começou a ilustrar o estereótipo feminino como estava perfeitamente qualificado para fazer, pois era elegante, voluptuoso, belamente tratado, e apaixonado pela própria imagem. Num dia desgraçado casou-se com o herdeiro de um par do reino, o Hon. Arhut Corbett, concretizando a mais elevada realização do sonho feminino, foi viver com ele numa vila em Marbella. O casamento nunca se consumou. A incompetência de April como mulher era a que podemos esperar de um castrato, mas não é muito diferente de todo afinal da impotência de mulheres femininas, que se submetem ao sexo sem desejo, apenas com o prazer infantil de carinho e afeição, que é sua recompensa favortia. Na medida em que o estereótipo feminino permanecer a definição do sexo feminino, April Ahsley será uma mulher, não importando a decisão legal decorrente de seu divórcio. Ela é tanto uma causalidade da polaridade dos sexos como nós somos. Desgraçada, a April Ashleu assexuada é nossa irmã e nosso símbolo."

- Germaine Greer, the female eunuch, trecho.

quarta-feira, dezembro 19, 2007

Audre Lorde em Sendo uma Feminista Lésbica Negra

Karla Hammond: Como você define ser uma lésbica?

Audre Lorde: Mulheres-identificadas fortemente onde amor entre mulheres é aberto e possível, além do físico em todos meios. Há lésbicas, Deus o sabe...se você for a círculos lésbicos nos 40 e 50 em Nova Iorque...que não eram feministas e não se chamariam a si mesmas feministas. Mas a verdadeira feminista lida com uma consciencia lésbica tenha ou não qualquer vez dormido com uma mulher. Isso realmente não pode ser definido em termos sexuais somente de qualquer forma nossa sexualidade é tão energizante então porque não aproveitar isso também? Mas isso traz pra toda a questão do que erotismo é. Há tantas formas de descrever "lesbica." Parte da consciencia lésbica é um absoluto reconhecimento do erotico em nossas vidas e, tomando um passo mais a frente, lidando com o erótico não somente nos termos sexuais . . .Enquanto irmãs Negras não gostam de ouvir isso, eu devo dizer que todas mulheres Negras são lésbicas porque nós fomos criadas nos remanescentes de uma sociedade basicamente matriarcal não importando quão oprimidas nós tenhamos sido pelo patriarcado. Todas somos dykes, incluindo nossas mommas. Vamos começar realmente a deixar passar os tabus e sensos comuns. Eles na real não importam. Estar apta a reconhecer que a função da poesia em qualquer arte é enobrecer e empoderar nós de uma forma que não é separando da nossa vivência, essa crença é África em sua origem.

Hammond, Karla. "An Interview with Audre Lorde." American Poetry Review March/April 1980: 18-21.

(...)

Hoje em dia o encobrimento em relação a hostilidade à lésbicas está sendo usada na comunidade Negra para obscurescer a verdadeira face do racismo/sexismo. Mulheres negras dividindo laços estreitos umas com as outras, politicamente ou emocionalmente, não são os inimigos dos homens Negros. Muito frequentemente, entretanto, alguns homens Negros tentam regular pelo medo aquelas mulheres Negras que são mais aliadas que inimigas. Essas táticas são expressadas como injúrias de rejeição emocional: "Sua poesia não era tão ruim mas eu não pude levar de boa todas aquelas sapatilhas." O homem Negro dizendo isso é código - alarmando toda mulher Negra presente interessada em um relacionamento com um homem - e muitas das mulheres Negras estão - que (1) se ela quiser ter seu trabalho considerado por ele ela deve evitar qualquer outra aliança que não com ele e (2) qualquer mulher que desejar manter sua amizade e/ou suporte é melhor que não seja contaminada por interesses identificados com mulheres....Tudo também muitas vezes a mensagem vem alta e clara para mulheres Negras de homens Negros: "Eu sou o único prêmio de valor a ter e não há muitos como eu, e relembre-se, eu posso sempre ir a quaquer outro lugar. Então se você me quer, é melhor permanecer em seu lugar que é sempre o de um outro, ou eu vou chamar a você 'lésbica' e vou varrer você embora." Mulheres Negras são programadas a definirem a si mesmas dentro das atenções masculinas e a competir umas com as outras por isso ao invés de reconhecer e se mover por seus próprios interesses.

A tática de encorajar hostilidade horizontal para encobrir mais questões de opressão que pressionam não é algo novo, nem limirado a relações entre mulheres. É a mesma tática usada para encorajar separação entre mulheres Negras e homens Negros. Em discussões em torno de contratação e dispensão de faculdade Negra em universidades, o encargo é frequentemente ouvido que mulheres Negras são mais facilmente contratadas que homens Negros. Por essa razão, os problemas das mulheres Negras são mais facilmente considerados que os dos homens Negros. Por esta razão,problemas das mulheres Negras de promoção e permanência não são considerados importantes uma vez que elas estão apenas "tomando os empregos dos homens Negros." Aqui novamente, energia está sendo gasta em lutar uns aos outros em cima de lamentável poucas migalhas permitidas a nós ao invés de ser usado, juntando forças para lutar por uma proporção maior de faculdade Negra. O devir poderia ser uma batalha vertical contra polícias racistas da estrutura acadêmica mesma, algo que poderia resultar em verdadeiro poder e mudança. É a estrutura no topo que deseja imodificação e esta mesma que lucra de aparentes guerras de cozinha sem fim.


(Lorde, Audre. "Arranhando a superfície: Algumas Notas nas Barreiras para Mulheres e Amor." Sister Outsider: Essays and Speeches. Freedom, CA: Crossing Press, 1984. 45-52.)
Não há Hierarquias de Opressão, por Audre Lorde
[There Is No Hierarchy of Oppressions by Audre Lorde]


Eu nasci Negra, e mulher. Eu estou tentando me tornar a pessoa mais forte. Eu posso voltar a viver a vida que me foi dada e ajudar em mudança efetiva em torno de um futuro vivível para essa terra e para minhas crianças. Como uma Negra, lésbica, feminista, socialista, poeta, mãe de duas crianças incluindo um garoto e membra de um casal interacial, eu usualmente acho a mim mesma parte de algum grupo no qual a marjoritariedade define-me como desviante, difícil, inferior ou apenas sendo ´errada´. Pela minha pertença em todos esses grupos eu aprendi que opressão e intolerância da diferença vem de todas formas e tamanhos e cores e sexualidades: e dentre aquelas de nós que dividem os objetivos da libertação e um futuro trabalhável para nossas crianças, onde possa não existir hierarquias de opressão. Eu aprendi que sexismo (a crença em superioridade inerente de um sexo sobre todos outros e então seu direito a dominância) e heterosexismo (a crença na superioridade inerente de um modelo de amor sobre todos outros e então seu direito a dominância) ambos nascidos da mesma fonte como racismo - a crença em superioridade inerente de uma raça sobre todas outras e então seu direito a dominância.

“Oh - diz uma voz da comunidade Negra: - mas ser negro é NORMAL!” Bem, eu e muitas pessoas Negras da minha idade podem lembrar amargamente os dias quando não costumava ser!

Eu simplesmente não acredito que um aspecto de mim pode possivelmente lucrar da opressão de qualquer outra parte de minha identidade. Eu sei que meu povo não pode possivelmente lucrar da opressão de qualquer outro grupo que deseje o direito a existência pacífica. Ao invés disso, nós diminuimos nós mesmas por negarmos a outros o que nós vertemos sangue para obter para nossas crianças. E aquelas crianças precisam aprender que elas não tem que se tornar iguais umas as outras de forma a trabalhar juntos por um futuro que elas irão compartilhar.


Os ataques crescentes sobre lésbicas e homens gays são apenas uma introdução aos crescentes ataques sobre pessoas Negras, para onde quer que seja manifestos de opressão em si mesmos nesse país, Pessoas negras são vítimas potenciais. E esse é o estandarte do cinismo da direita encorajar membros de grupos oprimidos a agir uns contra os outros, e por tanto tempo a gente é dividido por causa de nossas identidades particulares nós não podemos juntar-nos todos juntos numa ação política efetiva.


Dentro da comunidade lésbica eu sou Negra, e dentro da comunidade Negra eu sou lésbica. Qualquer ataque contra pessoas Negras é uma questão lésbica e gay porque eu e centenas de outras mulheres Negras somos partes da comunidade lésbica. Qualquer ataque contra lésbicas e gays é uma questão Negra, porque centenas de lésbicas e homens gays são Negros. Não há hierarquias de opressão.


Não é acidental que o Ato de Proteção à Família, que é virulentamente anti-mulher e anti-Negro, é também anti-Gay. Como pessoa Negra, eu sei quem meus inimigos são, e quando o Ku Klux Klan vai à corte em Detroit e tenta e força o Conselho de Educação de remover livros o Klan acredita “induzir a homosexualidade,” quando eu sei que eu não posso me dar o luxo de lutar apenas uma forma de opressão somente. Eu não tenho como acreditar que liberdade de intolerância é direito de apenas um grupo particular. E eu não posso escolher entre as frentes em que eu devo batalhar essas forças da discriminação, onde quer que elas apareçam pra me destruir. E quando elas aparecem para me destruir, não durará muito para que depois eles aparecerem pra destruir você.


(Audre Lorde, ativista, poeta e escritora, faleceu em 1992 após 14 anos de luta contra seu câncer de mama, é uma referência maior de uma feminista negra radical e lésbica radical negra. Leia mais no artigo intitulado Transformação do Silêncio em Linguagem e Ação)

terça-feira, dezembro 11, 2007

Tribadismo: A Arte do friccionamento



Tribadismo: A Arte do friccionamento. Uma antigua prática lesbiana por Valeria Flores* publicado em 23 de outubro de 2003 em safo piensa lista

Pouco conhecemos, ou quase nada, acerca de como viviam as mulheres que tinham relações erótico/sexuais/afetivas com outras mulheres, em épocas em que a sexualidade das pessoas não indicava uma sexualidade sexual determinada.

Judith Brown[i] concebe que “as dificuldades conceituais que os comtemporâneos tinham com respeito a sexualidade lesbiana se refletem na carência de uma terminologia adequada. A sexualidade lesbiana não existia; portanto, tampouco existiam lesbianas. Uma vez que a palavra “lesbiana” aparece uma vez no século XVI na obra de Brantome, não foi de uso corrente até o XIX, e inclusive então foi aplicada antes a certos atos em lugar de uma categoria de pessoas. Ao carecer de um vocabulário e de conceitos precisos, se utilizou uma larga lista de palavras e circunlocuções pra descrever o que as mulheres, ao parecer, faziam: masturbação mútua, contaminação, fornicação, sodomia, corrupção mútua, coito, copulação, vício mútuo, profanação e atos impuros de uma mulher com outra. E no caso de chaamres de algum modo àquelas que faziuam essas terríveis coisas se chamavam ‘fricatrices’, isto é, mulheres que friccionavam umas com as outras ou “tribadistas”[tribades], o equivalente grego a esta mesma ação.

Tribadismo significa “ela que roça” e faz referência a uma prática sexual entre duas mulheres em que elas se apoiam os corpos e pactuam peitos com peitos, vulva com vulva, e começam a contorsear-se, esfregando-se mutuamente os clitóris até chegar ao orgasmo simultâneo.

No nosso país (Argentina) no século XX, podemos observar a partir de alguns documentos, o temor da expansão do tribadismo. Jorge Salessi, em seu estudo original sobre como operou a homosexualidade na constituição do estado nacionl argentino, diz acerca da homosexualidade feminina, “...nas formas de representação de uma homossexualidade das mulheres, por exemplo, se faz evidente a propagação exagerada de um pânico homossexual, uma ansiedade cultural produzida, promovida e utilizada para controlar e estigmatizar populações consideradas perigosas pela cultura patriarcal e burguesa hegemônica”.

O autor aprofunda em como a educação nacionalista [iv] cumpriu um papel fundamental em combater o erotismo entre mulheres, chamando os naquela época de tribadismo, uranismo e/ou fetiquismo. Segundo Salessi "tribadismo", significava práticas sexuais entre mulheres, ademais de "hábitos" ou comportamentos definidos como incorretos para seu sexo biológico. Esses costumes ou prácticas sexuais eram, segundo os pedagogos e criminólogos argentinos, aprendidas especialmente no meio insalubre das escolas e colégios de monjas.

Por exemplo, em José Ingenieros[v] se revela uma aguda preocupação pela homosexualidade feminina. Ele argumenta que “a homosexualidade se bem não era tão comum na mulher, o era entre mujeres de certa educação”. Ingenieros escreveu: “...a inversão se observa menos frequentemente nas mulheres; a educação e o meio são pouco propícios ao desenvolvimento do 'tribadismo', sendo menos raro entre mulheres independentes de toda trava social (artistas, intelectuais, etc). Nas jovens se observa muitas raras vezes, uma vez que a inversão sentimental ou romântica é muito frequentemente nos colégios e internatos femininos

Em 1910, Ingenieros ofereceu a historia de una mulher que "no convento onde foi educada contraiu hábitos de tribadismo que persistiram ao sair dali: era uma maria-macha completa, tratava a suas condiscípulas como se ela fosse um homem e se dedicava a enamorá-las ou seduzí-las, para que se submetem-se a suas práticas tribadistas”. Explica Salessi que a única dessas práticas a que aludiu este criminólogo foi a do "onanismo recíproco" porém sem especificar como se masturbavam essas mulheres entre si. A reticência destes homens da ciência a descrever práticas sexuais entre mulheres (especialmente a comparar-la com a riqueza de detalhes com que descreveram as práticas sexuais entre homens) foi uma característica recorrente do discurso desta ciência sexual argentina. Uma vez mais, as relações eróticas entre mujeres nem sequer foram enunciadas, destinando-as ao campo do impensável, do indizivel.

“No Livro de maneiras, escrito na modernidade precoce, o bispo Etienne de Fougere argumenta que o coito entre mulheres é tão absurdo como abominpavel, outorgando por exemplo de semelhante estupidez o ato de tentar pescar com vara sem ter a vara (o que leva a sentenciar que o ato sexual entre lesbianas não é mais que um esforço inútil, desgaste de energias, ação desnecessária, etc.)” . Esse sem-sentido pode explicar-se parcialmente pelo contexto dentro do qual o "sexual" ha adquirido "sentido”.
O estatuto ontológico de sexo se planta através do duo penis-penetração; portanto, a ausência de tal par nos remete a que a razão de ser do ato "sexual" desaparece em quanto tal. Que estatuto se lhe poderia adjudicar à atividade sexual entre lesbianas?
Se o sexo se tem entendido enquanto equivalente do par penis-penetração, a pergunta que aparece é: que poderiam fazer as lesbianas para que tais atos adquiram o estatuto de "sexuais"
? Uma forma de começar a desarmar esta pergunta pode consistir em pensar a seguinte fórmula: "Penetrar versus Atritar". Tanto a penetração como a descarga do sêmem tem tido bastante relevância em diversas tradições religiosas e seculares, pelo que se tem entendido que o atritamento entre lesbianas é uma “copulação falida". Isto nos leva a revisar a assimetria fundamental que se depreende de outro duo: atividade-passividade, em que a atividade/penetração está associada com o masculino enquanto que a passividade/penetrada ao feminino. As práticas lesbianas como o tribadismo descolocam este sistema categorial, o desloca, e a lesbiana acaba fora da ordem do discurso. Se pensamos a penetração em termos extra-"pênicos” abrimos interrogantes, como por exemplo, como administrar entre lesbianas o par atividade-passividade sem remeter ao masculino ‘penetrar’ nem ao feminino ‘penetrada’?, ou qual é o estatuto ontológico que se haveria de outorgar a um dildo cuja "masculinidade" (se atributo for adjudicavel) não pertencesse nem a um nem a outra?

Rastrear na história de silêncios as pistas das relações entre mulheres, da paixão entre mulheres, das formas que se tiveram designado o erotismo entre mulheres, entre as que se encontra o tribadismo, é uma convocatória a redescobrir a dimensão histórica de nosso desejo, suas lutas por sobrevivência e pervivência. É necessário compreender que a proliferação dos prazeres e a difusão de uma economia erótica não-falocêntrica afeta o sistema heteropatriarcal, ele que está intimamente ligado ao capitalismo, cuja base controlada é a família tradicional. O lesbianismo ataca essa base econômica e ademais desestabiliza o controle demográfico, base de suas previsões sociais. Por isso que o oculta e nega, apesar da ignorância a que é submetido o desejo lésbico, há que celebrar que segue palpitando no corpo de muitas mulheres. As mulheres que tiveram expressado sua paixão por outras mulheres, através das épocas, tiveram lutado e foram mortas antes que negar essa paixão. A síntese do lesbianismo e feminismo (dos movimentos teórico/políticos centrados e impulsionados por mulheres), intenta-se revelar e acabar com o mistério e silêncio que rodeia o lesbianismo. Esta análise é uma pequena incisão contra essa esfera do silêncio e segredos que apresenta a impossibilidade de adjudicar um espaço discursivo às relações sexuais entre mulheres. E faço próprias as palavras da feminista afroamericana Cheryl Clarke, “dedico esta obra a todas as mulheres ocultadas pela história cujo sofrimento e triunfo tem feito possível que eu possa decidir meu nome em voz alta. “

NOTAS

[i] Brown, Judith (1989). Afetos vergonhosos Sor Benedetta: entre santa e lesbiana. Ed.Crítica, Barcelona.

[ii] Salessi, Jorge. (2000). médicos, maleantes y maricas. Beatriz Viterbo Editora. Rosario.

[iii]A noção de pánico homosexual é citada por Salessi, a quem a retoma de Eve Sedgwick em Epistemologia do armário. Sedgwick explica que especialmente na segunda metade do século desenove, a produção e
utilizaçã do pânico homosexual serviu para a perseguição de uma nascente minoria de homens que se identificavan a si mesmos como homosexuais mas também, e especialmente para regular os laços homosociaies entre todos los homens, laços que estruturam toda a cultura, o ao menos toda a cultura pública e heterosexual.

[v] Médico e escritor argentino, 1877-1925.
[vi] “Um passeio por afora do discurso: que fazem as lesbianas na cama?”. Susana Draper. Extraído da internet.

[vii] "Um ato de resistência" por Cheryl Clarke, extraído de la Recopilación sobre lesbianismo y homosexualidad masculina, realizada por Jorge Horacio Raices Montero.
* Valeria Flores <valeriaflores@ciudad.com.ar>
Feminista Lesbiana
Colectiva feminista La Revuelta
Neuquén - Argentina


DISCUSSÃO:
Eu entendo que a negação da sexualidade da mulher cosntitui uma das formas de violência contra ela conforme adrienne rich lista em seu artigo compulsory heterosexuality and lesbian existence. A negação lésbica na história se cosntitui numa estratégia de política de femicidio simbólico, no campo discursivo de acesso de um fenômeno a configuração real, discurso como verbalização e oficialização, reconhecimento e visibilidade, debate. O Não-reconhecimento da sexualidade na mulher ou na lesbiana é uma forma de alienar nossos corpos de nossas buscas de autonomia, é colocar esse corpo sob a validação societal por meio do intercurso, só o intercurso ou uma agencia externa nos define enquanto sexuais, só é sexo e sexualidade se pressupor heterosexualidade ou sua mímica nisso entrando dildos e penetração (não que considere penetração sempre imitação eu mesma não entendia dedada como penetração mas quando vi que muitas lésbicas sentiam dor e não curtiam comecei a pensar sobre as implicações de se compreender dedada como penetração e imposição heterocentrica ou pelo menos hábito influenciado pelo heterocentrismo quando tantas mulheres nao se adaptam a ela...e eu mesma comecei a ver que dedada virou parte do conjunto de estimulos e não a finalidade ou o meio predominante de chegar a orgasmo e várias mulheres tem dificuldade apesar de ser um estimulo ótimo) essas tentativas de cópia dos postulados sexuais normativos onde mulheres não andam se adaptando podem constituir-se numa investida de cidadania primária sexual em que lesbianas e gays se engajam, tentando entrar de alguma forma no estatuto de sexo oferecido, meio que nos fazendo cópias fracas do sexo heterosexual. Ainda mais o sexo lesbiano, que tem toda uma descrença generalizada recaindo sobre ele...Ao mesmo tempo coloca essa coisa misógina entre mulheres, mulheres não se acreditam capazes de satisfazer um corpo feminino, não sentem serem capazes de satisfazer a si mesmas, e dada a pobreza dos modelos de sexualidade oferecidos pela sociedade, a garota fala que é heterosexual por não se interessar pela possibilidade lésbica. Isso porque lesbianidade é propagado como sexualidade quando não se trata de sexualidade embora envolva também isso e sexualidade expresse muita coisa (Wittig diria que mulheres e lesbianas são muito visíveis como seres sexuais porque fomos sempre reduzidas a sexo e função sexual, logo a extrema sexualização lésbica é uma forma de sexismo também mesmo que lésbicas da 3a onda digam que a carência de enfoque na sexualidade lésbica ou em uma sexualidade lésbica agressiva represente a negação da sexualidade da mulher, o igualitarismo como machista por dizer que mulheres são mais doces e seu sexo também, e que politizar lesbianidade é invisibilizá-la por outro lado segundo estas, mas eu considero anti feminismo dizer que o pessoal e privado não é político, sexo pra mim é muito político mas fazer sexo por si só não tá construindo uma grande revolução pra coletividade...). Então frente a tantas dificuldades, lá vão as garotas lutar com o intercurso, tentar se encaixar nisso...Eu acredito que modelo sexualidade lesbiana deveria ser considerada uma das políticas fundamentais de reeducar e recuperar o corpo feminino tão estigmatizado e violentado por séculos de história, as marcas das intervenções colonizatórias. Como essa intervenção não age também num meio tão importante quanto lesbianidade? Eu acho que lesbiandiade deve ser sempre considerado algo sério e debatido por ser uma ferramenta tão importante pra feministas, vejo lesbianidade como um projeto de vida pautado numa ética feminista, lesbianidade pra mim é uma ideologia. As imagens pornográficas atuam distorcendo a parte da lesbianidade que diz respeito a sexualidade (sexualidade é sempre fundamental na vida humana embora não queira dizer que seja compulsório quando digo fundamental, o celibato é uma postura da sexualidade diria muito revolucionária) e assim dificultando ainda mais a cidadania desse corpo. Pra isso recomendo uma olhada e lida no artigo do site KamaSutraLésbico que é um projeto educativo erótico de visibilidade e promoção de autonomia sexual de mulheres.
outras referências:
(percebi que há quem defina tribadismo como prática de friccionamento clitoral geral, mas há quem diga que isso é para roçamento de genitálias, há também o termo siscoring ou tesourinha mas no portugues já me disseram que é outra coisa)
orkut também é otimo:

domingo, novembro 25, 2007

Moradores sabiam que menina estava em cela de homens no Pará

Da rua em frente à delegacia de polícia de Abaetetuba, 130 km de Belém, tem-se visão ampla da carceragem, um galpão de 80 metros quadrados, três banheiros minúsculos e uma cela de segurança, separados da cidade livre apenas por um portão de grades enferrujadas.

Foi lá que, durante pelo menos 20 dias, uma menina de 15 anos, L., acusada de tentativa de furto, permaneceu encarcerada com mais de 30 homens, submetida a abusos sexuais, violência e estupros seguidos, que só tiveram fim no dia 15.

"Era um show isso daqui. Todo mundo sabia que a menina estava lá no meio daqueles homens todos, mas ninguém falava nada", disse uma mulher na delegacia, sexta-feira à noite.

"Antes de comer, os presos se serviam dela", lembra inflamada outra mulher, falando alto bem em frente à sala do delegado de plantão. Refere-se ao fato de os presos obrigarem a menina a praticar sexo como condição para lhe darem alimento.

"Ela gritava e pedia comida para quem passava, chamava a atenção para si, e, como ela era conhecida por aqui, não dava para ignorar", afirma outra.
Nos bastidores do governo federal, em Brasília, existe a convicção de que o caso configura-se em uma das mais graves violações dos direitos humanos, uma ofensa ao Estatuto da Criança e do Adolescente, além de ferir os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres.

O mais constrangedor, porém, é que todo esse horror foi patrocinado por instituição do Estado (a Polícia Civil) comandada pela petista Ana Júlia Carepa, governadora do Pará.

L. não poderia estar no sistema penitenciário, menos ainda sob acusação de tentativa de furto e, pior, presa entre homens. "Só se pode internar um adolescente por violência, grave ameaça ou prática reiterada de delito grave, o que não era o caso", diz a advogada Márcia Ustra Soares, 42, da subsecretaria de promoção dos direitos da Criança e do Adolescente da Presidência da República.

Os presos até que tentaram camuflar a presença daquele corpo estranho no meio de tantos homens. "Minha filha tinha cabelos lindos e encaracolados que iam até o meio das costas", diz a mãe biológica. "Cortaram o cabelo dela com um terçado [facão], para disfarçar que se tratava de uma menina. Cortaram é modo de dizer, escalpelaram a minha filha." Mas não funcionou.
L. continuou vestindo as roupas que usava ao ser presa --sainha curta e blusinha que deixava evidentes os seios adolescentes. Seu corpo mirrado, com menos de 1,40 m, tampouco permitia que ela fosse enfiada nas roupas de seus companheiros de cela.

A carceragem onde a menina ficou trancada agora está quase vazia --os homens presos que conviveram com ela foram todos removidos para penitenciárias próximas. Apenas um jovem de 19 anos, Landrisson André Santos Mauegi, acusado de tentativa de furto de uma bicicleta, estava detido no local na sexta-feira (ele foi parar lá depois da libertação de L.). A mãe de Landrisson, Maria Santos, 75, vai ao local todos os dias para levar sanduíches, cigarros e conforto ao seu caçula. Nem precisa passar pelo carcereiro. Basta esticar o braço.

Se era tão flagrante a identidade feminina e quase infantil de L., por que ninguém denunciou antes? "Medo de morrer. Aqui todo mundo tem medo", diz a tia de um dos presos transferidos. "Se a delegada põe uma menina na cela com os homens, e a juíza mantém ela lá, quem sou eu pra denunciar. Aliás, denunciar para quem?"

A delegada a que se refere a mulher é Flávia Verônica Pereira, responsável pela prisão em flagrante de L. A juíza é Clarice Maria de Andrade.
No dia 14, finalmente, o Conselho Tutelar de Abaetetuba recebeu uma denúncia. Anônima. A delegada foi afastada de suas funções no dia 20 e a juíza está sendo investigada pela Corregedoria de Justiça. A Folha tentou sem sucesso contatar ambas por telefone na sexta.

"quem sou eu pra denunciar. Aliás, denunciar para quem"
O silêncio no patriarcado é oq o mantém. Pelas milhares de irmãs estupradas, assassinadas, escravizadas, violentadas todos os dias, não abaixes mais a cabeça. O silêncio só fortalece o opressor, não caia mais nas suas mentiras que te fazem conseguir fechar os olhos.
Denuncie, expresse, inconformize-se, liberte, escreva, repudie, reaja.

Reportagem da folha

terça-feira, novembro 20, 2007

Prescrutando as fundações do Patriarcado na obra de Marques de Sade


Os textos de Sade exploraram os limites mais extremos da sexualidade, que certamente constitui uma das dimensões mais importantes da vida privada, e ainda hoje essas explorações definem os limites da consciência moderna por vários aspectos. Será uma coincidência que as principais obras de Sade tenham sido compostas entre 1785 e 1800 (com algumas outras datando dos anos que antecedem sua morte em 1814)? [*período concomitante à Revolução Francesa].



Nos primeiros anos de Donatien Alphonse François de Sade, nada nos permite antever o futuro autor de Justine, de La Philosophie dans le boundoir [A filosofia na alcova] e das Cent vingt jounées de Sodome [Cento e vinte dias de Sodoma]. O jovem Sade estudou em Louis-le-Grand, antes de ingressar no Exército real, à semelhança de muitos jovens nobres e futuros herdeiros de títulos de nobreza. Casou-se aos 23 ans e, nos meses seguintes, ficou preso em Vincennes por ordem régia, devido a "devassidão excessiva",início de uma longa carreira de libertinagem pontuada por encarceramentos. Entre 1778 e 1790, ele passou onze anos em Vincennes e na Bastilha, e depois de 1801 não tornaria a sair da prisão (entre 1803 e 1814 ficaria em Charenton).


Apesar das suas origens nobres, Sade sobreviveu à Revolução de Paris, escrevendo peças e até trabalhando como funcionário (secretário da seção de Piques), antes de permanecer vários meses recluso, em 1794, na mesma prisão em que se encontrava Laclos.


Antes de 1789, Sade era um libertino notório, mas, sob a Revolução, se tornou ainda mais audacioso em seus textos: Justine teve seis edições no decênio que se seguiu a sua publicação em 1791. O romance original de trezentas páginas se converteu em 1797 em La nouvelle Justine [A nova Justine], com 810 páginas; Juliette, publicado no mesmo ano, tinha mais de mil páginas. Aline et Valcour e La philosophie dans le boudoir foram publicados em 1795. Os jornais denunciavam Sade principalmente enquanto autor de Justine; La nouvelle Justine e Juliette. os outros dois títulos do ciclo de Justine, acarretariam sua última condenação ao cárcere, de onde nunca mais sairia em vida. A quantidade de edições e a notoriedade duradoura de Justine provam claramente que Sade não era de todo conhecido durante a Revolução. Lolotte et Fanfan (1788), o romance mais conhecido de Ducray-Duminil, o extravagante autor sentimental que pode ser comparado à romancista inglesa Ann Radcliffe, teve não menos de dez edições, mas Ducray-Duminil era o autor mais popular nesse período. Numa época em que os novos gabinetes de leitura, que começaram a se multiplicar em Paris a partir de 1795, estimulavam uma produção literárea constante (de 4 a 5 mil títulos entre 1790 e 1814, segundo estimativas) e um gosto crescente pelo romance, a obra de Sade contava com um público significativo.


A DECLARAÇÃO DOS DIREITOS DE EROS (do Homem e Cidadão*)


Jean-Jacques Lequeu (1757 - 1825), o mais inspirado dentre os arquitetos visionários de uma época que conheceu muitos deles... Lequeu teve uma intensa produção durante a Revolução, embora sempre mantendo uma posição contestadora. Perturbadora beleza do corpo feminino neste desenho, aliás bastante misterioso (Paris, Biblioteca Nacional)


Os Contes philosophiques [Contos filosóficos] de Sade minavam o ideal revolucionário, não por rejeitá-lo, mas por levar sua lógica ao extremo, chegando ao resultado repulsivo. Segundo Maurice Blanchot, "ele formula uma espécie de Declaração dos Direitos do Erotismo", onde a natureza e a razão servem aos direitos de um egoísmo absoluto. Ao longo de toda a sua obra, Sade inverte o habitual triunfo da virtude sobre o vício. Ele proclama "Sou em suas mãos apenas uma máquina que ela [a natureza] move a seu bel-prazer". Num mundo novo, de igualdade absoluta, a única coisa que importa é o poder(/*phoder), amíude brutal e cruel. O nascimento, os privilégios, as distinções de toda e qualquer espécie desapareciam frente a esse regime revolucionário e sem lei (no sentido usual do termo). A obra de Sade glorificava e ao mesmo tempo desencaminhava a liberdade, a igualdade e até mesmo a fraternidade. A liberdade consistia no direito de buscar o prazer sem consideração pela lei, pelas convenções, pelos desejos dos outros (e esta liberdade, ilimitada para alguns, significava em geral a escravidão das mulheres escolhidas). Buscava-se os prazeres na igualdade, e ninguém tinha direito a eles por nascimento; venciam apenas os mais impiedosos e os mais egoístas (quase sempre homens). Haverá exemplo mais claro de fraternidade do que os quatro amigos das Cent vingt jounées ou da "Sociedade dos Amigos do Crime" em Juliette, cujos regulamentos e rituais parodiam a maçonaria e os milhares de Sociedades de Amigos da Constituição (mais conhecidos como jacobinos) da década revolucionária?



O privado ocupa um lugar muito especial nos romances de Sade. Ele é necessário para os jogos mais extremos e mais cruéis, apresentando-se quase sempre sob a forma de uma prisão (*logo, não parece estranho que a mesma palavra que define privacidade também define privação...).


Como observa Roland Barthes, "o segredo sadiano não é senão a forma teatral da solidão". Cavernas, criptas, passagens subterrâneas, grutas figuram entre os locais prediletos do herói sadiano. O lugar supremo dos segredos e da solidão consiste naqueles castelos especialmente escolhidos por estarem apartados do mundo exterior (a sociedade). O castelo de Silling, na Floresta Negra, é a locação principal de Cent vingt jounées de Sodome; em Justine, é o castelo de Saintre-Marie-des-Bois. Há pouquíssimos detalhes sobre o extrerior desses castelos. O interior é sempre descrito em termos ligados ao encarceramento: insiste-se sobre a reclusão, mas também sobre a ordem repetitiva. Em Silling, "era preciso mandar emparedar todas as portas que davam entrada ao interior e se encerrar totalmente no local como numa cidadela sitiada[...]. O conselho foi executado, montou-se uma tal barricada que já nem se poderia reconhecer onde haviam estado as portas, e as pessoas se instalaram no interior". Uma vez dentro desse mundo isolado do exterior, esse mundo exclusivamente privado, a insistência recai sobretudo na rigidez da ordem(ou *!ordem!). A perversão não é sinônimo de anarquia: é a inversão sistemática de todos os tabus, o enfrentamento regrado e repetitivo de todos os limites, até o ponto em que o prazer exige o crime.


Nesse espaço hiperprivado, os objetos do prazer e da ordem em geral são mulheres: "Tremam, adivinhem, obedeçam, previnam e [...] talvez vocês não sejam inteiramente infelizes" (Cent Vint Jounées). Com poucas exceções, as mulheres de Sade não são livres e raramente sentem prazer de plena vontade. "Todo gozo partilhado diminui." O amor usual e heterossexual constitui uma única exceção: dá-se preferência a outros orifícios em vez da vagina. As mulheres são objeto de agressões masculinas e não têm qualquer identidade física. Juliette parece a exceção à regra, mas, para sobreviver, precisa roubar e matar incessantemente. Por uma espécie de torção tocquevilliana, a igualdade e a fraternidade entre os homens servem apenas para o despotismo total deles sobre as mulheres. Inúmeras vítimas são aristocratas, mas o homem do novo mundo sadiano restaura uma espécie de poder(*/phoder) feudal no isolamento do castelo, como uma cela.


Não podemos tomar Sade como o verdadeiro repesentante das atitudes em relação às mulheres durante a Revolução; sua obra, porém, chama a atenção para o papel desempenhado por elas enquanto figuras privadas. Nos romances de Sade, o privado é o lugar onde as mulheres (às vezes crianças, inclusive garotos) são encarceradas e torturadas para o gozo sexual dos homens. Não se tratará apenas de uma redução ao absurdo, tipicamente sadiana, da concepção dos sans-culottes e dos jacobinos sobre o lugar da mulher mantida no espaço (*ou cárcere) privado? Os revolucionários limitaram o papel das mulheres ao de mãe e irmã - dependendo, para suas identidades, dos maridos e dos irmãos; Sade as converteu em prostitutas profissionais ou em mulheres cujo papel principal é sua disposição em se deixarem acorrentar pelos homens, tendo como única identidade a de objetos sexuais. Nessas duas representações do privado, as mulheres não possuem qualquer identidade própria - pelo menos é o que desejam os personagens masculinos, pois na verdade, elas são representadas como destruidoras em potencial, como se fosse mais do que evidente que jamais aceitariam voluntariamente os papéis que lhe são designados. Se não fosse este o caso, por que os jacobinos, quando as mulheres reivindicaram o direito de desempenhar um papel público, responderam que seria o caos (*KAOS), reagindo com tanto mau humor e, ousamos dizer, tanta histeria? E por que, então, Sade teria uma tal obsessão pelo castelo fechado?


"Para impedir os ataques exteriores não muito temidos e as invasões interiores bem mais temidas" (Cent Vingt Journées).


trecho retirado do livro A História da Vida Privada vol. 3
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wikipedia em Marquis de Sade:


"Numerosos escritores e artistas, especialmente aqueles preocupados com sexualidade, tiveram ambos rebelidos e fascinados com de Sade.


Simone de Beauvoir (em seu ensaio Devemos queimar Sade?, publicado em Les Temps modernes, Dezembro 1951 e Janeiro 1952) e outros escritores tentaram localizar traços de uma filosofia de liberdade radical nos escritos de Sade, precedendo aquela do existentialismo há alguns 150 anos. Ele também foi visto como precursor da psicanalise de Sigmund Freud em seu foco em sexualidade como uma força motivo. Os surralistas admiraram ele como uns de seus predecessores, e Guillaume Apollinaire famosamente o chamou de "o espírito mais livre que já existiu".

Pierre Klossowski, em seu livro de1947 Sade Mon Prochain ("Sade meu Vizinho"), analisa a filosofia de Sade como precurssora do niilismo de Nietzsche, negando ambos os valores Cristãos e o materialismo do Iluminismo.

Um dos ensaios de Max Horkheimer e na de Theodor Adorno Dialetica do Iluminismo (1947) é entitulado "Juliette ou Iluminismo e Moralidade" e interpreta o comportamento calculista e impio de Juliette como o encorporamento da filosofia do iluminismo. Similarmente, psicanalista Jacques Lacan postulou em seu ensaio de 1966 "Kant avec Sade" que a ética de Sadeera a compleição complementar do imperativo categorico originalmente formulado por Immanuel Kant.


Em as Mulheres de Sade: Uma ideologia da Pornografia (1979), Angela Carter providenciou uma leitura feminista de Sade, vendo ele como um "pornografo moral" que criou espaços para mulheres. Similarmente, Susan Sontag defendeu ambos Sade e Georges Bataille que escreveu Histoire de l'oeil (História de um Olho) em seu ensaio, "A Imaginação Pornográfica" (1967) que como base seus trabalhos eram textos transgressivos, e argumentou que nenhum deles devia ser censurado.


Em contraste, Andrea Dworkin viu Sade como um exemplar pornógrafo odiador de mulher, suportando sua teoria que pornografia inevitavelmente leva à violência contra mulher. Um capítulo de seu livro: Men Possessing Women (Homens Possuindo Mulheres)(1979) é devotado para uma análise de Sade. Susie Bright clama que a primeira novela de Dworkin Ice and Fire(Gelo e Fogo), que é prevalente de violência e abuso, pode ser visto como um moderno re-conto de Juliette de Sade."

sábado, novembro 10, 2007

A MENTIRA DO SADOMASOQUISMO

Dez mentiras sobre sadomasoquismo por Melissa Farley — Media Watch
1.Dor é prazer; humilhação é desfrutável; bondage é libertação.
2. Sadomasoquismo é amor e confiança, não dominação e aniquilação.

3. Sadomasoquismo não é racista nem antisemitista mesmo quando a gente ´encena´ como senhores de escravos e africanos escravizados, nazistas e judeus perseguidos.

4. Sadomasoquismo é consensual; ninguém se machuca se você não quer ser machucado. Ninguém nunca morreu por ´cenas´ sadomasoquistas.

5. Sadomasoquismo é apenas sobre sexo. Isso não extende-se pro resto da relação.

6. Pornografia sadomasoquista não tem relação com a sociedade sadomasoquista em que vivemos. “Se isso te faz bem, vá em frente.” “Nós criamos nossa própria sexualidade.”
7. Lesbica “no sadomasoquismo” são feministas, devotadas a mulheres, e uma comunidade só-mulheres. Pornografia lésbica é “por mulheres e para mulheres”.

8. Uma vez que lésbicas são superiores a homens, nós podemos “jogar/atuar” com sadomasoquismo numa forma libertária que heterosexuais não podem.

9. Reatuar o abuso o cura. Sadomasoquismo restaura injúrias emocionais em assalto sexual da infância.

10. Sadomasoquismo é dissidência politica. É progressivo e até “transgressivo” naquilo que quebra as regras da ideologia sexual dominante.


Embora formulada por seus atuais advogados como uma questão de libertação sexual, direitos de uma minoria, ou mesmo terapêutico, Eu considero sadomasoquismo lésbico a ser primariamente uma questão de éticas feministas. Eu acredito que lésbicas que abraçam sadomasoquismo seja teoricamente ou em prática estão suportando o sangue nutriz do patriarcado. “Os símbolos, linguagem e estilo das lésbicas-chic sadomasoquistas são os símbolos, linguagem e estilo da supremacia masculina: violação, impiedade, intimidação, humilhação, força, ridicularização, consumismo.” (De Clarke, 1993) Escolhendo sadomasoquismo, dada nossa opressão, é um ato de profunda deserção. As idéias de que estou escrevendo agora não são novas (por favor veja as referências ao final desse artigo), mas esperançosamente elas vão ser útil sumárioque poderá ser usada por feministas pra que vejam que muito do que sadomasoquistas aclamam simplesmente não são a verdade.

Mentira #1: .Dor é prazer; humilhação é desfrutável; bondage é libertação.

Isso é uma grande mentira. Parte da razão pela qual nós estamos vulneráveis a essa mentira é de que muitas de nós fomos criadas em uma cultura em que noções religiosas de que punição é amor e sofrimento é redempção. Uma jovem conhecida que militava no time da tripulação me mostrou uma camiseta que dizia: “O que não me mata vai me fazer mais forte.” Como mulheres nós somos ensinadas que amor é devoção desprendimento de si a despeito da dor sofrida. Nós acreditamos que amor é dor porque nós continuamos nos machucando nele. Mulheres são ensinadas a não acreditarem em seu senso ou intuição. Nós somos ensinadas que dor, sofrimento e humilhação são desafios pelos quais devemos ansiar porque eles ensinam coisas importanes na vida. Depois disso, o que eles poderão fazer a nós, a que mais não podem eles nos ambientar? Nós aprendemos a “consentir” com subordinação, até nos tornarmos culturalmente subservientes a isso. Se correntes e uma coleira representam rebelião e “estar no controle,” então Madonna é nossa “rebelde” Barbie e Ted Bundy seu Ken. (from Morgan, 1993)

Mentira #2: Sadomasoquismo é amor e confiança, não dominação e aniquilação.

Sadomasoquismo tem a ver com aniquilação. Contrariamente à lenda popular de que sadomasoquismo expande a sexualidade de alguém, acredito que só restringe e em últimas consequências destrói a um ser sexual. Subordinação, humilhação, e tortura são todos sinais de deliberadamente destruir o eu. Eu recentemente li um artigo sobre a forma que o patriarca do Texas Koresh entwined “sexo, violencia, amor e medo” de forma a controlar os membros de culto. Essas técnicas não são novas; pessoas têm por muito tempo machucado umas às outras em nome do amor, religião e políticas. O sadomasoquismo lésbico de hoje em dia está todo vestido de uma nova roupagem: o figurino de uma “escolha de estilo de vida,” “minoria oprimida[/marginalizada],” “liberação sexual.” Apesar da violência que revira meu estômago, Eu aprecio a candura de Jan Brown’s que dá recorte à retórica liberal sobre os prazeres do sadomasoquismo, e atinge o chão da matéria. Num artigo de Outlook, 1990, entitulado, “Sexo, Mentiras e Penetração, uma Butch Finalmente ‘admite,” Brown escreve: “Sexo que é gentil, passivo, igualitário, não nos move. [Lembram-se quando nós] emfatizavamos a simples diferença entre fantasia e realitdade? Bem, nós mentimos. O poder não é a habilidade de controlar uma imagem violenta. Ele está na volúpia de ser sobrempoderado, forçado, machucado, usado, objetificado. Nós nos masturbamos com o estuprador, Hell’s Angel, papai, o nazi, o policial. Nós sonhamos com o sangue de alguém nas nossas mãos, com risos e choros por piedade. Algumas vezes, nós queremos nos abdicar nas mãos do enforcador. Nós queremos ter liberdade pra ignorar o ‘não’ ou ter nosso próprio ‘não’ ignorado.”


Mentira #3: Sadomasoquismo não é racista nem anti semitistamesmo que nós “atuemos” como proprietários de escravos e africanos escravizados, nazis vs judeus perseguidos.

Meu silêncio sobre sadomasoquismo lésbico terminou quando eu vi duas sadomasoquistas antisemitistas num festival de mulheres. Uma das mulheres que vestia um yarmulke estava caminhando como um cachorro numa coleira em seu pescoço por uma mulher em “couros” nazistas. Quando eu protestei, a mulher em couro polidamente ouviu e concordou em remover sua própria insignia nazista e yarmulke do seu cativo. Eu tive a impressão de que ela nunca sequer considerou as implicações políticas, isto é, o anti semitismo, da “cena” que ela estava atuando. Identificar-se como/com um/a nazi (seu uniforme) em qualquer contexto, é se identificar não somente como um sadista sexualmente dominante, mas também como alguém que odeia judeus, alguém que quer que judeus sofram e sejam aniquilados. Ao mascarar-se como um judeu, (vestindo um yarmulke), preso à uma correia, não somente é se identificar como masoquista sexualmente submissivo. É também abraçar a humilhação e a tortura dos judeus sob nazi e antisemitismo: o judeu é aquele que se machuca, e aqui, veja como ela gosta disso. Alguns jornais gays liberais “censuram” anúncios da KKK, mas ainda publicam anúncios pessoais para leitores procurando por negros, ou latinos ou asiáticos escravos sexuais. Racismo parece ser mais aceitável a eles se este é erotizado. De alguma forma, se erotizada, a humilhação, sadismo e tortura do racismo e anti semitismo se torna aceitável. Tortura sempre tem um componente sexual para isso. Se uma feminista radical está para desafiar o mesmo jornal na questão do sadomasoquismo, nós seremos chamadas de “censuradoras.” Toda a questão de censura é usada pra intimidar-nos e silenciar diálogo crítico sobre sadomasoquismo.


Mentira #4: Sadomasoquismo é consensual; ninguém se machuca se você não quer ser machucado. Ninguém nunca morreu por ´cenas´ sadomasoquistas.

“Esse é o foco no desejo do bottom (o abaixo) que distingue sadomasoquismo de assalto.” (Califia, 1992) É alguma vez OK consentir com a própria humilhação e vitimização de alguém? Eu não creio. Só porque nós “consentimos” à dominação ou abuso, não significa que esta não é opressiva. “Têve uma mulher que fugiu de um assalto sexual pelo seu pai e acabou fazendo proprama por uma sobrevivência consentido? Têve uma mulher que aprendeu lições sexuais do incesto consentido com uma sexualidade na qual ela não obtém nenhum prazer uma vez que ela não possui poder?” (Cole, 1989) Teve um sobrevivente de abuso ritual, tendo passado por sua própria Inquisição na infância, consentido quando ela re-actua tortura sexual na idade adulta o que gatilha suas memórias como uma adulta? A habilidade de palavras pra machucar não deveria ser subestimada. A injúria do estupro é trazida denovo pelas palavras, armas, que nos definem como objetos e que nos dizem que nós merecemos qualquer coisa que tomamos. O auto-ódio das mulheres resulta tanto de assaltos verbais como de físicos. Alguma forma de abuso verbal está envolvida na maior parte das cenas sadomasoquistas. Quando essas palavras viciosas são transportadas pra um contexto de excitação sexual, elas possuem um impacto poderoso. Palavras sexuais sadistas contribuem para a auto-depreciação da mulher. Sadistas falam da boca pra fora de consenso, ignoram os sistemas poderosos que criam desigualdade e tornam consenso significativo impossível. Nessa cultura nós não temos experiência de relacionamentos de poder igual. “Não é o reconhecimento de todo o sadomasoquismo que ainda há em nossas psiques que conflitua com feminismo, o que nós temos problema é a falta de vontade de refletir seus significados políticos.“ ( Fritz, 1983) Violência extrema algumas vezes ocorre durante “jogos” sadomasoquistas. Eu fui informada de muitas instâncias onde palavras de “segurança” foram ignoradas durante “cena” sadomasoquista. Eu também soube que mulheres já morreram durante atividades sadomasoquistas e que essas mortes somente são abafadas - elas não são amplamente reconhecidas.
Mentira #5: Sadomasoquismo é apenas sobre sexo. Isso não extende-se pro resto da relação.

Sadomasoquismo tem tudo a ver com sexismo, racismo e classe no mundo real. É muito relacionado à auto-hostilidade internalizada. Um membro Samois escreveu:” Para ser um bom bottom [masoquista], para agradar minha amante, é um sentimento muito poderoso. As lições que aprendi na minha cama, elas podem levar a outros aspectos da minha vida e ver como isso me faz poderosa…para aproveitar cada momento do que eu estou fazendo.” (Linden et al., 1982) Eu vejo lésbicas abraçando a hierarquia de dominancia/submissão que feministas gastaram suas vidas todas tentando eliminar nas relações heterosexuais. Assim como o racismo e anti-semitismo são erotizados no sadomasoquismo, a dominação e sexismo em si mesmo são erotizados nas relações sadomasoquistas. A relacionamento sexual sadista estabelece o tom pro resto da relação. Submetendo e desistindo durante um desacordo, por exemplo, se torna um ato sexual. E violência física real pode e de fato ocorre como natural extensão de desigualdade na relação sexual. Bater em alguém é usualmente um ato sadista. Assédio e estupro ocorrem em relacionamentos lésbicos - e eles são normalizados pelos modelos sexualmente dados. O sarcasmo coercitivo e dominante do sadista é algumas vezes forçado pra dentro de nossas comunidades. Em 1988, eu postei uma notícia para uma oficina chamada “Os efeitos das práticas sexuais sadistas/violentas em não-partipitantes: um grupo suporte; fechado para participantes sadomasoquistas e advogadores.” Assim que um pequeno grupo de nós sentou no chão e começou a conversar, seis ou sete mulheres com chicotes vieram e ficaram, de braços cruzados, atrás de nós. Elas não disseram nada; a intenção de intimidar estava clara. Outro exemplo dos efeitos pervasivos do sadomasoquismo numa comunidade ocorreram em 1990, quando os organizadores de um largo festival de mulheres escreveram sobre como atividade sadomasoquista de algumas mulheres inflingia no direito de outras mulheres de “se moverem livremente e seguramente sem medo e horror.”


Mentira #6: Pornografia sadomasoquista não tem relação com a sociedade sadomasoquista em que vivemos. “Se isso te faz bem, vá em frente.” “Nós criamos nossa própria sexualidade.”

Nós internalizamos fantasias sadomasoquistas porque esta é a sexualidade que nos foi empurrada pelas gargantas desde o dia em que nascemos. Como mulheres fomos criadas pra sermos os “bottoms:” lésbicas “bottoms” tendem a exceder “tops” [sadistas] de 10 pra 1. “O que te faz bem” é largamente construido pela opressão social: racismo, sexismo, classismo. Nós nascemos com uma sexualidade inata onde nenhum desses elementos são aprendidos ou manipulados. Mesmo que muitos liberais,advogadores pro-pornografia neguem qualquer relação entre sadomasoquismo e a violência no resto da cultura. Já não é mais possível discontar os efeitos causais da pornografia na violência contra mulher. Diana Russell recentemente publicou um sumário de pesquisa sobre as formas em que pornografia foi mostrada pra causar prejuízo à mulheres. (Russell, 1993) Eu acredito que seu argumento pode ser aplicado a pornografia lésbica exatamente da mesma forma: pornografia, seja hetero ou lésbica, promove desigualdade e erotiza os relacionamentos desiguais. Atualmente, assim como nossos hábitos de comer, sexualidade é completamente condicionável. Quando nós ensaiamos abuso sadista na fantasia, pornografia, e jogos sexuais, nós legitimamos sua autoridade em nossas mentes, e podemos acabar ajudando outras autoridades nas nossas vidas a manter-nos em sujeição de outras formas. Sadomasoquismo está por toda parte nessa cultura - só dê uma boa olhada ao seu lugar de trabalho, sua família, sua igreja.


Mentira #7: Lesbica “no sadomasoquismo” são feministas, devotadas a mulheres, e uma comunidade só-mulheres. Pornografia lésbica é “por mulheres e para mulheres”.

Pat Califía disse que preferia estar fixada numa ilha deserta com um garoto masoquista do que com uma lésbica baunilha.

Bottoms são vistos como “genericos, trocáveis, e substituíveis.” (Califia, 1992) Califia está comprometida com a regra do sadista, não com qualquer preferência sexual particular.” Sexo definido como uma commodity/mercadoria [sadomasoquismo] leva ao mercado onde o gênero de uma prostituta e cliente é irrelevante comparado ao tipo e custos dos serviços providos.” (Clarke, 1993) Enquanto lésbicas que estão “no sadomasoquismo”definem a si mesmas como lésbicas, suas práticas sadomasoquistas são bisexuais. Eu não tenho nenhuma crítica política à bissexualidade - o que eu estou criticando é a postura sadomasoquista como sendo a de lésbicas devotadas da comunidade de mulheres. Pornografia pseudolésbica, isso é, fotos de mulheres que estão imitando comportamentos ´lesbians’, tem sindo um elemento favirecido na pornografia masculina heterosexual desde que esta foi primeiramente publicada. Ela vende. Apesar do fato de que esta é muitas vezes promovida como sendo autorada e distribuida por e para mulheres, pornografia “lésbica” vende vorazmente à homens heteros.


Mentira #8: Uma vez que lésbicas são superiores a homens, nós podemos “performar” com sadomasoquismo numa forma libertária que heterosexuais estão impedidos.

Eu não penso que mulheres são biologicamente superiores a homens. De fato, eu vejo essa noção como perigosa e reacionária: “Anatomia é destino” não é exatamente uma idéia feminista. Atitudes e comportamentos sadistas e masoquistas entre lésbicas, de fato, são bom exemplo de como nós internalizamos idéias abusivas assim como todo mundo faz. Nós estamos seduzidas pela dominação masculina - porque nós vemos que é ali que poder reside. A gente ainda se ilude se pensarmos que é possível “encenar” o estuprador sem se tornar o estuprador.


Mentira #9: Reatuar o abuso o cura. Sadomasoquismo restaura injúrias emocionais em assalto sexual da infância.

Isso é uma mentira e realmente me perturba. Uma grande porcentagem de mulheres “no sadomasoquismo” tem histórias de assalto sexual na infância, do que aquelas que não são participantes em sadomasoquismo. Mesmo assim, sadomasoquismo obscurece a verdadeira dor e abuso de mulheres.Como pode você dizer que a diferença entre “real” e “fingido” quando alguém tem flashbacks e se torna a criança denovo no meio da tortura sexual “consensual”? Algumas sentem um desejo intenso, até mesmo compulsivo em torno de aniquilação sexual que é expressa em atividade sadomasoquista que espelha o abuso sofrido quando crianças. A noção de que atuar o abuso é terapêutico e o elimina vem da teoria da catarse: faça isso uma vez, traga isso pra fora seu sistema, então você vai sair dele. Não há evidência de que a catarse trabalhe como uma solução para conflito social ou psicológico, ainda assim essa teoria é usada pra racionalizar a disseminação de pornografia. Pornografia não parece ter servido como uma panela de pressão libertária para homens, fazendo assim com que mulheres se libertem do estupro. Ao contrário, pornografia parece ter funcionado como uma propaganda pro-estupro. Catarse sadomasoquista não parece recuperar o abuso de qualquer forma: uma mulher escreveu “depois de dezesete anos de[abuso sexual infantil], as lésbicas que conheci apenas queriam que eu fizesse mais do mesmo. Eu tive pesadelos e prejuízo de ambos.” (Anonima, 1990) Sadomasoquismo é a repetição, não a terapia, de abuso sexual infantil. Alguns sugeriram que sadomasoquismo pode atualmente ser psicologicamente viciante. Eu ouvi de mulheres descrevendo a si mesmas como estando “em recuperação do sadomasoquismo,” da mesma forma que elas falam de adicção alcóolica. Talvez a adicção física a certos tipos de traumas começa com complexas reações físicas para prolongar o abuso na infância que é então revivido nos relacionamentos sadomasoquistas adultos.


Mentira #10. Sadomasoquismo é dissidência politica. É progressivo e até “transgressivo” naquilo que quebra as regras da ideologia sexual dominante.

A postura de sadistas e masoquistas como “transgressiva” pode estar confundindo aqueles que não são familiar a teoria feminista. Por definição, o objetivo último do feminismo é acabar com sadomasoquismo. Nosso sistema é sadomasoquista ao seu extremo, como celebrar isso pode ser qualquer forma de rebelião verdadeira? (Fritz, 1983). Os valores políticos do sadismo são ofensivamente antifeministas, totalitários e direitistas. Sadomasoquismo é negócio como sempre; relações de poder como sempre; raça, gênero e classe como sempre. Sadomasoquismo é uma versão ritual de dominância e submissão. Sadomasoquismo não é um desvio criativo da norma comportamental heterosexual. É a exata definição qualitativa das relações entre homens e mulheres. Sadismo é a extenção lógica do comportamento que surge do poder masculino. ( Wagner, 1982 ) Nós vivemos num mundo misoginista, e mulheres tem tão pouco poder político, que é fácil fantasiar sobre absoluto poder pessoal do que com organização política por mudança. (Clarke, 1993). Muitas jovens lésbicas recentemente disseram pra mim que suas fantasias com sadomasoquismo eram sua “salvação” num mundo onde elas não vêem qualquer possibilidade de obter poder real. Dykes sadomasoquistas jogam-atuam poder e prestígio num mundo que destrói qualquer esforço de organizar por poder real. O jogo-performance ajuda-nos a esquecer o quanto a gente é odiada e prejudicada. E esquecer é que é o real perigo.

(para contatar a autora escreva: mfarley@prostitutionresearch.com)

Referencias:
Anonymous, letter to Lesbian Connection, January-February 1990, Vol. 12, Issue 4, page 11.
Atkinson, Ti-Grace. Amazon Odyssey, 1974.
Brown, Jan. “Sex, Lies, and Penetration, a Butch Finally ‘Fesses Up,” Outlook, 1990.
Califia,Pat. “The Limits of the S/M Relationship,” in Outlook, Winter, 1992, pages 16-21.
Clarke, De. “Consuming Passions: some thoughts on history, sex, and free enterprise,”
in Unleashing Feminism: critiquing Lesbian Sadomasochism in the Gay Nineties,” (Irene Reti, ed.), 1993, HerBooks, Santa Cruz, CA.
Cole, Susan. Pornography and the Sex Crisis, 1989.
Dworkin, Andrea. Pornography: Men Possessing Women, New York, Putnam’s, 1979.
Dworkin, Andrea. Woman Hating, New York, E.P. Dutton, 1974.
Fritz, Leah. “Is there Sex after Sadomasochism?” Village Voice, Nov. 1, 1983, pages 24-25.
Linden, Robin R.; Pagano, Darlene R.; Russell, Diana E.H.; Star, Susan
Leigh (eds.) Against Sadomasochism, a Radical Feminist Analysis, 1982.
Millett, Kate. Sexual Politics, New York, Doubleday, 1970.
Morgan, Robin, Editorial, Ms., May-June, 1993, Vol. III, Number 6
Morgan, Robin. The Demon Lover: on the Sexuality of Terrorism, 1989
Reti, Irene. “Remember the Fire: Lesbian Sadomasochism in a post-Nazi
Holocaust World”, in Unleashing Feminism: critiquing Lesbian
Sadomasochism in the gay nineties, (Irene Reti, ed.), HerBooks,
Santa Cruz, CA.
Russell, Diana E. H. Against Pornography: the Evidence of Harm, Russell
Publications, 2018 Shattuck Ave., Berkeley, CA, 94704, 1993.
Wagner, Sally Roesch, in Linden, et al, Against Sadomasochism, 1982.






(tradução por Janaína/Patriarkill/Veggie)

QUESTIONÁRIO DE UM BDSMer


1) É o meu fetiche um reflexo ou alimentado por atitudes opressivas (sexismo, racismo, homofobia, ableism, etc) que eu carrego?

2) Estou eu usando meu fetiche para ganhar acesso a dinâminas de poder que eu normalmente não tocaria porque são agressivas? Se sim, estou eu usando meu fetiche para subverter estas formas de poder?

3) Mais importante, que efeito meu fetiche tem no mundo? BDSM é (entre outras coisas) um set de ferramentas para lidar com poder. Estou eu usando estas ferramentas em uma maneira que resiste formas de opressão, ou estou usando as usando para oprimir?