quarta-feira, janeiro 31, 2007

O Autoritarismo e a Mulher - o jogo da dominação macho-fêmea no Brasil
Maria inacia d'Avilla Neto

Cap. III - Os tabus sexuais na família patriarcal – Preconceitos e estereótipos em relação à mulher.
“O patriarca – dono absoluto de sua propriedade, de sua família e de seus escravos – se transforma, depois da libertação dos escravos, no coronel, e depois no chefe político que decide as questões através de suas preferências pessoais e suas relações de família e de amizade.”






Complexo de Virilidade/ complexo de virgindade
O “Madonismo”, a exaltação da mulher virgem, reflete-se no culto à virgem, com o qual o brasileiro sempre teve grande identificação. Em direção oposta aos modelos de virtudes que se deveriam constituir as mulheres virgens, enquanto solteiras ou devotar a seu marido, quando casadas, os homens deveriam se comportar diferentemente. A eles era permitido conhecer outras mulheres, ter amantes, mesmo casados, como prova da masculinidade. A criação de famílias duplas, que cresciam ao lado das legítimas era freqüente, e com o consentimento das esposas. O fenômeno ainda é observado hoje no Brasil, em zonas menos industrializadas.Uma pesquisa de Goldberg entre universitários brasileiros, publicada em 1975, mostra que mais de 60% “consideram a virgindade essencial ou desejável” e quase 70% consideram-na “indiferente ou prejudicial ao homem”
Para Freye o “fato do culto á Virgem chegar a sobrepujar o culto ao Cristo se deve àquele Maternalismo moral e psiquicamente compensador dos excessos do patriarcalismo em nossa formação. Excessos identificados com o despotismo ou a tirania do homem sobre a mulher, do pai sobre o filho, do senhor sobre o escravo, do branco sobre o preto.”



“Os candomblés consistem em comunidades fechadas, acessíveis somente aos iniciados (e portando, eleitos) fundindo as várias religiões do negro africano, e sobrevivências religiosas dos indígenas brasileiros, com muita coisa do catolicismo popular e do espiritismo”. "consistem em comunidades fechadas", no sentindo que não obedecem a qualquer governo comum ou regras comuns.

“Este esquema de hierarquia (o candomblé) revela, sem sombra de dúvida, que as mulheres detêm todas as funções permanentes do candomblé, enquanto aos homens se reservam apenas as temporárias e as honorárias.” diz, Edson Carneiro.

A virgindade estabeleceu-se como um valor e corresponde à honra de uma mulher. No mesmo estilo, criaram-se os mitos da mulher para um só homem e um só lar e o da natureza polígama do homem. Com um padrão de dupla moralidade que encorajava e facilitava ao homem a existência de famílias extraconjugais, a procriação de filhos bastardos, a mulher legítima era exclusivamente destinada ao senhor. A conduta da mulher foi toda ela inspirada nos padrões de madonismo, apoiada pelos dogmas e pela ação da Igreja. A existência dos problemas conjugais, que na época era resolvida com o simples pedido de confinamento da mulher em um convento passou a constituir uma preocupação efetiva só em época relativamente recente.
Mais tarde, com toda oposição da Igreja, o Brasil apoiou o divórcio em 1966, ainda que com inúmeras restrições , o adultério masculino socialmente é compreensível pela natureza polígama do homem, o adultério feminino, entretanto, é punido com severidade, tanto pela desaprovação e descriminação social, como pelo castigo físico, ou mesmo assassinato. Freye relata casos no Brasil colonial onde mulheres foram punidas com a morte; no Brasil atual, um marido que lava sua honra, e pode ganhar a absolvição, perante o julgamento oficial. Do mesmo modo, a mulher separada (ou descasada) é freqüentemente estigmatizada. O “complexo de virilidade) – como chamou Willes 0 manifesta-se aí, nitidamente, pois permanece ainda profundamente arraigado à noção de que se trata de uma mulher livre, entendendo-se , por isso, uma mulher que se acha disponível à solicitação sexual de qualquer homem.

“Complexo de virgindade” figura da mulher, pura, imaculada, que, portanto não foi tocada em seu sexo . Por outro lado, a crença no poder a mulher como feiticeira aparece, sobretudo, ligado à mestiça, de cor, e se manifesta em especial através de seu sexo, ao qual se associa à própria noção de feitiço. O sexo ou o não-sexo (negativa do sexo) aparecem como pontos de superestimarão dos valores concedidos à mulher. O fato de ser a mulher de cor quem se associa na maioria das vezes, à feiticeira encontra também um paralelo entre a distinção entre magia branca e magia negra, esta última claramente associada à feitiçaria , com poderes maléficos, através da mestiça e de seu sexo. A imagem da Virgem Mãe, contudo, em geral, associa-se à mulher branca e à negação de seu sexo. Sua força mágica reside exatamente aí. O candomblé, como forma de sincretismo religioso, em que as raízes africanas, indígenas e católicas se misturam, adotou também o nome da mãe, ou seja, a mãe-de-santo, pata a sua figura hierárquica de maior importância. De outro lado, o fato de a escrava também prestar serviços sexuais ao seu senhor gerou um curioso fenômeno: filhos de vários pais biológicos se reuniam em torno da mesma mãe-preta. Aliado à preponderância do senhor branco sobre outras mulheres que mesmo brancas eram de camadas sociais mais pobres, criou-se n homem brasileiro esse complexo de virilidade, ou “machismo”, já que ele possuía várias mulheres. Esse machismo, que assume nas grandes cidades características mais duliídas, gira ainda em torno das proezas sexuais, do número de mulheres que já conheceu, de amantes que pode manter, exacerbando o mito da sua natureza polígama, e contribuindo para um tipo um tipo cristalizado de dupla moral nas relações homens/mulheres.

Os mecanismos psicológicos de dominação ou de hierarquia homem/mulher do Brasil estão ligados às figuras primárias de autoridade, em duas direções não opostas mas coexistentes.
os aspectos patricêntricos em suas formas mais marcantes são os da autoridade política do macho;
os aspectos matricêntricos são os que revelam o poder místico imputado à mulher.