domingo, janeiro 21, 2007

- ROSA -



(retirado de: http://asassumidas.blogspot.com)

Esta poesia foi feita com muita amargura e solidariedade. Pensem nas mulheres estupradas, pensem em sua dor infinita, pensem nesta sociedade que permite esse tipo de atrocidade. Esta é uma campanha pelo direito das Mulheres que também são direitos humanos.


Fechou lentamente as pernas
A dor aguda e latejante inflamava todos os seus poros
As lágrimas não caíam, porque não entendia ainda o que acontecia
Estava jogada, como um animal imundo,
em um beco escuro
O mesmo beco escuro, o buraco fétido e mesquinho,
onde os humanos jogavam impunemente suas ignorâncias e hipocrisias
Lá estava ela, com a calcinha rasgada, fazendo parte das estatísticas
Lá estava ela, engolindo todo preconceito do mundo
como se fossem facas afiadas dilacerando-lhe a garganta já machucada
Não conseguia levantar
Seu corpo, agora, era um pedaço de carne podre e dolorida
E dentro dela, a sensação da maior solidão já sentida por alguém
Sentiu-se como o mais impotente dos seres,
pois suas mãos, tão delicadas, tentaram parar a violência tão histórica e
tão estúpida, mas não conseguiram
Sua voz queria inundar o mundo
Queria gritar que aquilo tudo era tão injusto e deprimente
Mas de sua boca oprimida, só saiam gemidos sufocados de dor
Indicando assim, que sua parca dignidade esvaía-se a cada penetração áspera e nojenta
Sentiu-se uma carcaça inútil
Fora invadida, massacrada, humilhada
O sangue escorria-lhe entre as pernas
E agora, a única certeza que possuía
era a sua semelhança com um mero buraco onde encontrava-se a inscrição: ejacule aqui.
Era, neste instante, um vazo receptor de esperma
E sentiu pena de si mesma
Foi então que conseguiu chorar
Em meio a toda aquela loucura, percebeu que tinha algo sem nome
que a feria tanto e tanto ...
Como sentir pena de si mesma, se a única culpa que tinha era ser MULHER?
Contorcia-se no chão, com medo de tocar suas feridas
Seu sexo, poucas vezes tocado por alguém (ou por ela mesma),
agora estava exposto e dilacerado pela violência do senso comum
Estava tão enjoada, tão nauseada... Vomitou
Vomitou sua própria existência
Vomitou o curso de sua vida, para sempre alterado
Vomitou a indignação de saber que nunca mais esqueceria
a cara daquele verme maldito
Fechou lentamente as pernas e tentou levantar
Estava com tanto medo e tanta vontade de chorar para sempre
Seus olhos, perdidos, vagavam sem nenhuma esperança
Ela agora, era só mais um sexo violentado, ensangüentado
jogado às margens do mundo dos Homens
Sim. Pois era o mundo dos Homens
Os homens que podiam estuprar, humilhar, machucar, gozar
levantar sorrindo e seguirem normalmente suas vidas
Vagabunda. Foi a última palavra que escutou daquele homem sem nome,
revestido de poder e brutalidade
Sentia seu corpo tão público e devastado
Tantos silêncios revestiam aquela barbaridade
Pois sabia que teria que responder perguntas como:
O que você estava vestindo? O que estava fazendo sozinha a essa hora na rua?
Será que alguém perguntaria como era o sentimento de ser considerado
um objeto destinado a proporcionar orgasmo instantâneo a um porco?
Será que alguém perguntaria como era difícil reunir os cacos de sua existência,
depois de tamanha violência?
Existência diminuída, que se esvaia juntamente com o sangue
que sujavam suas coxas
Apesar de tudo levantou-se. Começou a andar devagar
Qualquer movimento era uma grande penalidade
Vagabunda, teve o que merecia.
Foi o que escutou, daquele que ejaculou toda violência prepotente
e toda ignorância do mundo dos homens dentro de seu corpo indefeso
O que merecia? Pensou...
Mereço ser invadida, pois sou Mulher
Mereço ser estuprada, devastada, exposta pois carrego o segundo sexo
Mereço a dor de uma penetração imunda pois nasci libidinosa
Balançava a cabeça, negando seu papel secundário
Dói tanto...
Dói tanto...
Seguiu, lentamente tentando olhar para as estrelas
Porém estas, estarrecidas com o horrível festival, esquivaram-se
Estava sozinha , estava frágil
Infelizmente, estava historicizada
Prosseguiu em linha reta, sem perspectiva, sem vontade ou glória
Prosseguiu seca ,sem gosto
Não esperava, não ansiava
Apenas seguia o curso daquela idiotice
Haveria alguma ajuda? Algum porto seguro?
Seus pés doloridos e injustiçados diziam: Prossiga!
Era ela, e toda sua força, ressurgindo do fim
Seguiu. Não em busca de um caminho, mais apenas de um breve repouso
Estava só, e quase ninguém a abraçaria sinceramente
Foi. Estuprada e calejada
Cuspindo no caminho que lhe destinaram
Foi. Querendo apenas que uma brisa leve
varresse aquele cheiro nojento de poder e punição
Estava cansada. E na próxima semana completaria 18 anos...

JAS


'Oh, God, who does not exist, you hate women, otherwise you'd have made them different. And Jesus, who snubbed your mother, you hate them more. Roaming around all that time with a bunch of men, fishing; and sermons-on-the-mount. Abandoning women. I thought of all the women who had it, and didn't even know when the big moment was, and others saying their rosary with the beads held over the side of the bed, and others saying, "Stop, stop, you dirty old dog," and others yelling desperately to be jacked right up to their middles, and it often leading to nothing, and them getting up out of bed and riding a poor door knob and kissing the wooden face of a door and urging with foul language, then crying, wiping the knob, and it all adding up to nothing either. - EDNA O'BRIEN, Girls in Their Married Bliss '

2 comentários:

Anónimo disse...

o blog de vocês é simplesmente maravilhoso, me delicio com tudo aqui..

estão de parabéns!

Patriarkill♀Grrrl disse...

obrigada pela força! Se der sempre passe por aqui e indique pros demais, vamos difundir a revolução feminista!