quarta-feira, janeiro 17, 2007

A Vênus Rebelada de Rodin


Duas obras célebres, na boca do povo:


Vênus de Milo e O Pensador de Rodin.


Este, alegoria concreta da humanidade: 'O Homem'



O homem e o mundo


Concebido num ato que lhe é peculiar


de humanidade-homem: Pensar.


Pensando, pelo resto de seus dias


Pensando com seus músculos,


sua carne fielmente reproduzida na escultura


na Grande escultura-obra divina do ser-Homem.



E a Vênus


Vênus do Milo, mas de Atenas


Mãe da humanidade a tal cidade.


Vênus que, raptada pelos romanos


que lhe amputaram os braços e a alma.



Rodin também amputava suas figuras


assim que terminadas


afim de enfatizar aquilo que preferia


ocultando as partes expressivas acessórias.


Dilapidando a figura-humana.



Vênus, O porta-voz da feminilidade


Mesmo com os braços amputados


Sobreviveu seu principal:



Seu rosto dócil, levemente virado


Pois a luz é reservada para o corpo estático,


troglodita, materno, opulento e próspero


curvilíneo, pudico.


O pano caído pelas ancas


conta-nos da timidez de sua castidade tacitamente


inferida de sua condição.



Mas a bela Venus é também deficiente:


seus braços na condenam à eterna imanência


O pano pelas ancas que lhe desvela-cede sua vulnerabilidade


Para sempre incapacitada.


Talvez a única coisa que quisesse


fosse puxar aquele pano e cobrir seu corpo vergonhado



ser egoísta. Queria ser egoísta.



Apesar disso, a amamos.


E não seria ela a Vênus que queremos


se não fosse pela tal deficiência-eficiência



Queremo-na assim mesmo: dócil


o rosto que ostenta o olhar amável, sereno


A deusa das Mulheres!


A Deusa da Feminilidade


Nossa representante!


Onde projetamos nosso ideal de Ser.



Eu, porém, projeto-me em outra anamolia


ainda não aceita, tal como o é a consagrada Vênus:


é a Vênus de Rodin


Pensando, pensando


Com seus seios, com sua vulva, com


Seu coração e seu corpo


Pensamento-corpo-fertilidade-Vida


Fugida do Atêlie


Ladra dos instrumentos do 'Mestre'


Procurada pela Lei


Criminosa da arte


Insurreitora das massas de mulheres pelo mundo


Que mudou seu sobrenome


Que amaldiçoou seu 'mestre-criador' homem


Que sobrevive subvertendo a feminilidade


A não-Amada, a desprezada, a grande-Puta, a desertora


Vênus das Mulheres.


(...)



janaína rossi



julho 2002, alterado em janeiro de 2007.



(abaixo, 'A pensadora profunda' de Camille Claudel)

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