terça-feira, fevereiro 06, 2007

Sexismo da Linguagem: dominação radical do Patriarcado

Expulsar o Sexismo da Linguagem obrigará a incluir mais termos mistos.
Impõe-se finalmente a idéia de que a linguagem deve evitar fórmulas sexistas. A solução seria sempre duplicar o gênero quando um orador dá boas-vindas a todos e todas ou se dirige a senhores e senhoras? Quatro especialistas dão sua opinião.

Maricel Chavarría em Barcelona - Jornal La Vanguardia


Os/as companheiros e companheiras que aqui estão reunidos e reunidas. Em campanha eleitoral proliferam os discursos cheios de duplas formas para pedir votos de umas e outros. O que confirma certa torpeza nessa vontade incipiente de corrigir o sexismo em uma língua que historicamente exclui a mulher.

O meio educacional foi dos primeiros que quiseram evidenciar a presença das mulheres e das meninas: a associação de pais passou a ser associação de mães e pais, sem que ninguém reclamasse. No administrativo, o tripartite rebatizou os corpos de funcionários ou inspetores como funcionalismo e inspeção. A questão é: que futuro espera a fórmula homem/mulher? E a possibilidade de utilizar termos genéricos?

"La Vanguardia" recolheu opiniões nos âmbitos da linguística, filosofia e literatura. Alguns não vêem inconveniente em continuar usando o genérico masculino; outras consideram a mudança linguística inevitável.
"Há algum tempo nos parecia incrível dizer funcionalismo ou professorado, e agora não mais. A mudança linguística é um processo em marcha", afirma a linguista Eulália Lledó.

"O lema deste ano do Observatório da Infância é 'Posar-se a la pell d'altri'[colocar-se na pele de outros]", algo que há três anos não teria acontecido: teriam dito 'de l'altre'[do outro], sem contemplar essa forma genuína catalã", explica a encarregada de revisar o relatório "Marcar a Diferença", no qual a Secretaria de Política Linguística expõe critérios para que os dois sexos sejam representados na língua. "É claro que é preciso buscar as fórmulas mistas necessárias, mas é absurdo negar-se o procedimento de dizer homens e mulheres em vez de pessoas. Não é horroroso dizer 'nois'[meninos] e 'noies', e é cada vez mais habitual falar de 'nens'[bebês] e 'nenes'."

Quanto ao uso abusivo das duplas formas nos discursos políticos, Lledó afirma que é na época eleitoral que se lembram mais de utilizá-las. "Mas o fazem por motivos diferentes dos meus: apelam ao seu eleitorado, e de um modo tão torpe que a gente não se sente atraída, pelo contrário. Há inclusive os que pedem seu voto fazendo a barba.'Humano como você' dizem. Humano como você é um homem barbeando-se?", pergunta-se Lledó, referindo-se à campanha da ERC em que o candidato Josep Lluís Carod-Rovira aparece diante do espelho realizando seu asseio matutino.

"Eu sou humana como ele e não me barbeio. Quer representar um ato como um fato universal e faz algo que demonstra virilidade", argüi Lledó. "Bem, elas se depilam", alegou ontem Carod-Rovira a este jornal, preocupado que se pudesse fazer uma leitura sexista do anúncio. Joan Abril, planejador de linguística do Instituto de Estatísticas da Catalunha, acredita que usar a forma dupla é uma moda politicamente correta.

"Fica-se na superfície, pois no grosso do discurso se utiliza o genérico masculino." O discurso político, sindical ou do professorado vão na via de aparntar, argumenta Abril. "Mas as pessoas, por senso comum, continuarão usando o masculino genérico. Pensar que falar de professores é uma forma de discriminar as professoras desenfoca o conceito da economia da linguagem." Abril declara-se feminista, mas não acredita que se deva comungar sempre com os critérios de uso não-sexista da língua. O masculino tem para ele um valor totalmente genérico: não discrimina nem entorpece a comunicação.

"Defender a economia da linguagem às custas das mulheres é algo que só os homens podem fazer. Ou uma mulher que não perceba que o masculino plural não é inócuo, que acaba negando as mulheres", destaca a escritora feminista Gemma Lienas. "No final do século 20, alguns historiadores explicaram que na Grécia antiga não votavam nem escravos nem estrangeiros, mas se esqueceram de dizer que as mulheres também não. Não podemos ter certeza de quando o masculino é usado como genérico e quando não. Se não nos tornarmos visíveis, será difícil uma igualdade real." Lienas acredita que a questão é educar-se.

E procurar fórmulas: não entende que não se diga cidadania em vez de cidadãos e cidadãs. "Não estamos diante de um problema da língua e não é verdade que o masculino inclua o feminino: é uma convenção na qual somos treinados", escreve Lledó em "De llengua, diferència i context".

"Quem defende economizar a todo custo poderia arguir que como o castelhano é compreendido por todos não há necessidade de versões em catalão(...) Uma coisa é economizar e outra menosprezar um coletivo marjoritário." Para Lledó, trata-se de uma questão ideológica: "A língua não é sexista nem racista, mas uma radiografia do que se pensa".

Nas românicas, as formas masculinas e femininas são formadas acrescentando-se um morfema à raíz. Algo que não acontece no inglês, por exemplo, que nem por isso se salva dos sexismos: é lógico referir-se a uma mulher escritora (woman writer), mas não a um escritor. Eles são a norma. Elas, o excêntrico. "Creio que esta é uma sociedade que procura incorporar tudo.", aponta o filósofo Joan-Carles Mèlich. "Podemos falar delas e deles e continuar sendo machistas: se por trás da estética não houver uma ética, uma vontade política, moral e jurídica de igualdade, não avançamos nada." Melich opta em seus textos por referir-se ao ser humano e não ao homem, "mas a linguagem tem alguns limites" acrescenta. Uma solução, na opinião dele, é anunciar a vontade de não discriminar ao usar o masculino genérico.


A língua não é imutável, insiste Lledó: se alguém não usa outras formas não é porque esta não o permita, mas porque a pessoa assim prefere.


Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonsalves
Visite o site do La Vanguardia:
http://www.lavanguardia.es/

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Sexismo na linguagem: algumas notas
Não é necessário o uso de @ para incluir as mulheres. Tem soluções mais criativas para transformar a linguagem. E quando transformarmos a linguagem transformaremos a realidade.

Teresa Meana Suárez



Lembro com tanta nitidez que parece que foi ontem, mas faz quase trinta anos. Seria aproximadamente 1973 e estávamos numa assembléia na Faculdade de Filosofia, em Oviedo. Havia muita gente e muita confusão e alguém -um homem, claro- gritou: Caralho! Isto é uma assembléia ou o que? Outro -um fascista, claro- advertiu: Cuidado com as palavras, tem senhoritas presentes!

Foi exatamente assim e, naturalmente, a advertência do fascista foi acolhida com um certo regozijo geral. Como naqueles tempos de forte luta contra a ditadura de Franco as assembléias tinham turnos intermináveis de falas, passou-se um longo tempo, com as mais diversas intervenções. No final, se levantou Begoña -uma amiga feminista- e falou: Eu só quero dizer uma coisa: Caralho! A mim, feminista, desde que me lembro, aquilo me fascinou. Senti que Begoña acabava de nos devolver a todas a voz, a existência. Éramos de novo pessoas -como eles- e não “senhoritas” e tínhamos direito a palavra. A todas as palavras. Na luta por existir, se queríamos ser reconhecidas e nomeadas no “seu” mundo, tínhamos que adotar a “sua” linguagem. Begoña acabava de afirmar em voz alta: a língua também era nossa. Conto esse fato para tentar explicar o apaixonante processo, o caminho recorrido neste mais de vinte e cinco anos de atuação do movimento feminista no tema do sexismo na linguagem. Um trajeto em que nos conscientizamos de que tomar a parte da língua que nos negava equivalia a aceitar o silêncio. Também aprendemos, como assinala Christiane Olivier, que se utilizamos a linguagem considerada “universal”, que é o masculino, falamos contra nós mesmas.



SILENCIADAS, DESPREZADAS

Na luta por essa linguagem que nos representasse às mulheres e que enfrentasse o sexismo lingüístico
, passamos por diferentes etapas. No princípio tratamos apenas de detectá-lo. Nunca o havíamos notado e não éramos conscientes de como a linguagem nos discriminava. Começaram a surgir os estudos e os trabalhos sobre o tema.

Concretizamos o sexismo em dois efeitos fundamentais: o silêncio e o desprezo. Por um lado, o ocultamento das mulheres, nosso silêncio, nossa não existência. Estávamos escondidas detrás dos falsos genéricos: esse masculino que, havíamos aprendido na escola, “abarca os dois gêneros”. E também estávamos ocultas detrás do salto semântico. Devemos a Álvaro García Meseguer a definição desse erro lingüístico devido ao sexismo: expressado naquilo de “todos na vila baixaram até o rio para recebê-los, ficando na aldeia apenas as mulheres e as crianças. Então, quem baixou? Somente os homens?

Por outro lado estava o desprezo, o ódio em direção às mulheres. Se manifestava nos duplos aparentes (governante/governanta, verdureiro/verdureira, frio/fria, etc.), nos vazios léxicos, nos adjetivos, advérbios, refrãos e frases feitas, etcétera., etc., etc.

SURGEM MIL E UMA SOLUÇÕES
Depois de detectar o sexismo na linguagem, começaram a aparecer diferentes recomendações para um uso não sexista da língua. Desde meados dos anos 80 o feminismo avança em estratégias para combater tanto o silêncio como o desprezo, e as soluções vão se aperfeiçoando e se redigindo novas instruções. Até 1994 aparece na Espanha o livro Nombra, elaborado pela Comissão Assessora para a Linguagem do Instituto da Mulher, verdadeiramente esclarecedor e útil.

As possibilidades que nos coloca são realmente variadas, criativas e diversas. Frente aos difíceis e contínuos (o/a, o (a), o-a) nos oferecem: a utilização de genéricos reais (vítimas, pessoas, vizinhança -e não vizinhos-, população valenciana -e não valencianos). Também o recurso aos abstratos (a redação e não os redatores, a legislação e não os legisladores). Mudanças também nas formas pessoais dos verbos ou dos pronomes (no lugar de Na Pré-história os homem viviam..., podemos dizer os seres humanos, as pessoas, as mulheres e os homens e também na Pré-história se vivia... ou na Pré-história vivíamos...).

Outras vezes podemos substituir o suposto genérico homem ou homens pelos pronomes nós, nosso, nossa, nosso ou nossos (É bom para o bem-estar do homem..., substituído por É bom para o nosso bem-estar...). Outras vezes podemos mudar o verbo da terceira para a segunda pessoa do singular ou para a primeira do plural sem mencionar o sujeito, ou colocar o verbo na terceira pessoa do singular precedida pelo pronome se (Se recomenda aos usuários que utilizem corretamente o cartão... substituído por Recomendamos que utilize seu cartão corretamente... ou Se recomenda o uso correto do cartão). Ou ainda as mudanças do pronome impessoal (Quando um se levanta ficaria Quando alguém se levanta ou Ao levantarmos e também mudaríamos O que tenha passaporte ou Aqueles que queiram... por Quem tenha passaporte... ou Quem queira...).

Também temos recomendações para corrigir o uso androcêntrico da linguagem e evitar que não se nomeiem as mulheres como dependentes, complementos, subalternas ou propriedades dos homens (Os nômades se transportavam com seus utensílios, gado e mulheres, Se organizavam atividades culturais para as esposas dos congressistas. Às mulheres lhes concederam o voto depois da Primeira Guerra Mundial), oferecendo-nos múltiplas e variadas soluções. E assim mais, muito mais.

A LINGUAGEM NÃO É NEUTRA

Já existiam duas posturas distintas no movimento feminista acerca dessas questões. As que defendem a posição de que as mulheres devemos apropriar-nos do genérico e considerar específico aos homens. Por exemplo: num centro de ensino seríamos –mulheres e homens- professores, e se nos referimos a Juan, diríamos professor homem e a Ana poderíamos dizer ela é o melhor professor do instituto. A outra posição é das que pensamos que o genérico não é universal. Seguindo com o exemplo anterior: eles e nós seríamos o professorado ou as professoras e professores.

A primeira postura se expressa assim: O genérico, o neutro, o universal é patrimônio de todos. Deve-se denunciar a falsa universalidade, mas também se deve reivindicar a participação das mulheres no universal. Nós pensamos que não é certo que o genérico seja patrimônio comum. Os vocábulos em masculino não são universais por não englobar às mulheres. É um fato que nos excluem. Diz-se que são universais porque o masculino se ergueu ao longo da história na medida do humano. Assim os genéricos se confundem com os masculinos.

QUEREMOS NOMEAR A DIFERENÇA

Ademais, pensamos assim porque queremos nomear o feminino, nomear a diferença. Dizer meninos e meninas ou mães e pais não é uma repetição, não é duplicar a linguagem. Duplicar é fazer uma cópia igual à outra e este não é o caso. A diferença sexual já está dada, não é a língua quem a cria. A linguagem apenas a nomeia, uma vez que existe. Nomear essa diferença é não respeitar o direito à existência e à representação dessa existência na linguagem.



García Meseguer diz que de uma maneira simplista as duas posições poderiam se resumir em torno das recomendações de Nombra e aos inconvenientes que trás em adotá-las. A uma corrente –onde me incluo- importariam mais as mulheres que a linguagem, e a outra corrente importaria mais a linguagem que as mulheres. De qualquer maneira, a todos esses esforços feitos devemos avanços incríveis, também, coincidências e acordos em torno da detecção do sexismo e ao lugar das mulheres na linguagem, a invisibilidade nos genéricos, a denúncia dos homens representando os conceitos da humanidade e de universalidade, a crítica a invasão do pensamento androcêntrico e da cultura patriarcal como referentes e tantas descobertas mais. E a todos os esforços devemos as extensas análises de dicionários, meios de comunicação, textos literários, linguagem coloquial e teses, artigos, livros, conferências, mesas redondas, apaixonantes e apaixonadas conversas sobre este problema, tanto na língua castelhana como em outras línguas.


continuação:
http://enrebeldia.blogspot.com/2006/11/sexismo-en-el-lenguaje-apuntes-bsicos.html
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"Nós sabemos apenas essa única língua desses estrangeiros que nos invadem e nos ocupam: continuam eles dizendo-nos que nós somos diferentes deles nós ainda falamos unicamente a sua linguagem e não temos nenhuma (ou nenhuma que lembraríamos) língua própria. Parece também que nós não ousaríamos inventar uma. Sejam sinais ou gestos. Nossos corpos falam sua língua. Nossas mentes pensam por ela. Estão os homens dentro da gente por dentro e por dentro. Nós ouvimos alguma coisa, um suspiro vago, quase audível, em algum lugar no fundo do cérebro; 'há algum outro mundo', e algumas de nós pensamos às vezes: isso um dia nos pertenceu." (Andrea Dworkin)
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Enquanto a questão da linguagem patriarcal é dada por irrelevante, somos marginalizadas no espaço mais fundamental do nosso eu. Sentença de inexistência, privando-nos das próprias ferramentas de pensamento.Que emancipação é possível numa mente dominada, masculinizada, castrada e privada de seus próprios referenciais?

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