segunda-feira, fevereiro 12, 2007


" Há poucos assuntos a cujo respeito a sociedade burguesa demonstre maior hipocrisia: o aborto é um crime repugnante a que é indecente aludir. Que um escritor descreva as alegrias e os sofrimentos de uma parturiente,é perfeito;que fale de uma abortante e logo o acusarão de charfudar na imundície e de descrever a humanidade sobre um aspecto abjeto: ora, há atualmente na França número igual de abortos e nascimentos. É um fenômeno tão expandido que cumpre considerá - lo como um dos riscos normalmente implicados na condição feminina. O código obstinasse entretanto em fazer dele um delito: exige que essa operação delicada seja executada clandestinamente. Nada mais absurdo do que os argumentos invocados contra a legislação do aborto. Pretende - se que se trata de uma intervenção perigosa. Mas os médicos honestos reconhecem,como o Dr.Magnus Hirschfeld, "que o aborto feito pela mão de um médico especialista, numa clínica e com as medidas preventivas necessárias, não comporta esses graves perigos cuja existência a lei afirma." É, ao contrário,em sua forma atual que faz a mulher correr grandes riscos. A falta de competência das "fazedoras de anjos", as condições em que operam,engendram muitos acidentes,por vezes mortais.





A maternidade forçada leva a deitar no mundo crianças doentias,que os pais serão incapazes de alimentar,que se tornarão vítimas da Assistência Pública,ou crianças mártires.CABE OBSERVAR QUE A SOCIEDADE TÃO ESCARNIÇADA NA DEFESA DOS DIREITOS DO EMBRIÃO SE DESINTERESSA DA CRIANÇA A PARTIR DO SEU NASCIMENTO. PERSEGUEM AS PRATICANTES DO ABORTO AO INVÉS DEPROCURAREM REFORMAR ESSA ESCANDALOSA INSTITUIÇÃO QUE CHAMAM ASSISTÊNCIA PÚBLICA; DEIXAM EM LIBERDADE OS RESPONSÁVEIS QUE ENTREGAM OS PUPILOS A VERDUGOS,FECHAM OS OLHOS À HORRÍVEL TIRANIA QUE QUE EXERCEM EM "CASAS DE EDUCAÇÃO", OU EM RESIDÊNCIAS PRIVADAS OS CARRASCOS DE CRIANÇAS; E, SE RECUSAM A ADMITIR QUE O FETO PERTENCE A MULHER QUE O CARREGA NO VENTRE,ASSEGURAM POR OUTRO LADO QUE O FILHO É COSA DOS PAIS,ACABAMOS DE VER NA MESMA SEMANA UM CIRURGIÃO CONDENADO POR PRÁTICAS ABORTIVAS SUICIDAR - SE, E UM PAI QUE BATERA NO FILHO ATÉ QUASE MATÁ - LO, SER CONDENADO A APENAS TRÊS MESES DE PRISÃO COM SURSIS.



Recentemente, um pai deixou um filho morrer de difiteria por falta de cuidados,uma mãe recusou chamar o médico para a filha em nome de seu abandono incondicionado á vontade divina:crianças jogaram - lhe pedras no cemitério,mas com indignação de alguns jornalistas, uma corte de pessoas de bem protestou declarando que os filhos pertenciam aos pais, que qualquer controle estranho era inaceitável. Há hoje "um milhão de crianças em perigo" diz o jornal Ce Soir; e o France - Soir imprime que "quinhentas mil crianças se encontram em perigo físico ou moral.



Na África do Norte a mulher árabe não tem condições de praticar voluntariamente o aborto: em cada dez filhos que concebe,sete ou oito morrem e ninguém se incomoda com as penosas e difícies maternidades matarem o sentimento materno.



Se a moral se satisfaz com isso,que pensar de tal moral?
É preciso acrescentar que os homens que mais respeitam a vida embrionária são também os que se mostram mais diligentes quando se trata de condenarem adultos a uma morte militar.


As razões práticas invocadas contra o aborto legal não têm nenhum peso; quanto as razões morais, reduzem - se ao velho argumento católico: o feto possui uma alma a que se veda o paraíso, suprimindo - o antes do batismo. É de observar que a Igreja autoriza ocasionalmente a morte de homens feitos: nas guerras ou quando se trata de condenados à morte; reserva porém para o feto um humanitarismo intransigente. Não é ele resgatado pelo batismo,mas,na época das guerras santas contra os infiéis,estes não o eram tampouco e o massacre deles era fortemente encorajado. As vítimas da Inquisição não se achavam sem dúvida todas em estado de graça,como hoje o criminoso que é guilhotinado ou os soldados que morrem em campo de batalha. Em todos esses casos a Igreja confia a decisão a Deus. Por que proibir então a Deus que acolha uma alma embrionária em seu Céu? Se um Concílio lho autorizasse, ele não protestaria como não o fez na bela época do piedoso massacre dos índios. Em verdade, chocamo - nos aqui contra uma velha tradição que nada tem haver com a moral. É preciso contar também com esse sadismo masculino de que já tive a oportunidade de falar. O livro que o Dr. Roy dedicou a Pétain em 1943 é um exemplo edificante;é um momunento de má fé. Insiste ele, paternalmente nos perigos do aborto,mas nada lhe parece mais higiênico do que uma cesariana. Ele quer que o aborto seja considerado um crime e não um delito;deseja que seja proibido mesmo em sua terapeutica,isto é quando a gravidez põe em perigo a vida ou a saúde da mãe: é imoral escolher entre uma vida e outra,declara,e apoiando -se nesse argumento aconselha sacrificar a mãe. Declara que o feto não pertence a mãe, que um ser autônomo. Entretanto quando esses mesmos médicos bem pensantes exaltam a maternidade,afirmam que o feto faz parte do corpo materno, que não é um parasito alimentando - se as expensas dele. Vê - se a que ponto o antifeminismo é ainda vivo pela obstinação de certos homens em recusar tudo o que pode libertar a mulher.


Demais,a lei , que condena à morte, à esterilidade ,à doença,muitas jovens mulheres,é totalmente impotente para assegurar um aumento de natalidade.

Um ponto sobre o qual concordam partidários e inimigos do aborto legal, é o malogro radical da repressão. Segundo os professores Doléris, Bathazard,Lasagne,teria havido na França 500.000 abortos por ano,por volta de 1933;uma estatística (citada pelo Dr. Roy), de 1938, calculava o número em um milhão. Em 1941, O Dr. Albertin, de Bordéus, hesitava entre 800.000 e um milhão. Esta última cifra parece a mais próxima da verdade. Em um artigo de Combat, datado de março de 1948, o Dr. Desplas escreve:

O aborto entrou nos costumes...A repressão praticamente malogrou...No Seine, em 1943,1.300 inquéritos acarretaram 750 inculpações com 960 mulheres detidas, 513 condenações de menos de um ano a mais de cinco, o que é pouco em relação aos 15.000 abortos presumidos no departamento.

Em todo o território contam - se 10.000 processos.
E acrescenta:

O aborto dito criminoso é tão familiar a todas as classes sociais quanto as políticas anticoncepcionais aceitas pela nossa sociedade hipócrita. Dois terços das abortadas são mulheres casadas...Pode - se estimar que há na França o mesmo número de abortos que de nascimentos.

Em consequência de ser a operação praticada em condições amiúde desatrosas, MUITOS ABORTOS TERMINAM COM A MORTE DA ABORTADA.


Dois cadáveres de mulheres abortadas chegam por semana ao instituto médico - legal em Paris;muitos abortos provocam doenças definitivas.

Disseram às vezes que o aborto era um "crime de classe" e é em grande parte verdade. As práticas anticoncepcionais são muito mais espalhadas na burguesia; a existência do banheiro torna sua aplicação mais fácil do que entre os operários e camponeses privados de água corrente; as moças da burguesia são mais prudente do que as outras;os filhos representam um fardo menos pesado para o casal: a pobreza, a crise de habitação, a necessidade para a mulher de trabalhar fora de casa figuram entre as causas mais frequente do aborto. Parece que é muitas vezes depois de duas maternidades que o casal resolve restringir os nascimentos; de modo que a abortada de traços horríveis é também a mãe magnífica que embala nos braços dois anjos loiros: a mesma mulher.




Em um documento publicado em Temps Moderns de outtubro de 1945, sob o título de "Sala Comum", Mme Geneviéve Sarreau descreve uma sala de hospital em que teve a oportunidade de ficar algum tempo e onde muitas das doentes acabavam de sofrer raspagens: 15 em 18 tinham tido abortos, sendo que mais da metade provocados. O número 9 era mulher de um carregador de mercado;de dois casamentos tivera 10 filhos vivos de que restavam 3, e sete abortos sendo cinco provocados; empregava de bom grado a técnica do "gancho", que expunha com complacência, e também comprimidos que expunha às companheiras. O nº 16, com 16 anos, casada, tivera aventuras e sofria de uma salpingite em consequência em consequência de um aborto.



O nº 7, de 35 anos, explicava:"Faz quinze anos que estou casada, nunca o amei; durante vinte anos conduzi - me decentemente. Há três meses que foi que tive um amante. Uma só vez num quarto de hotel. Fiquei grávida...Então foi preciso, não é? Pus para fora. Ninguém sabe, nem meu marido, nem...ele. Agora acabou,nunca mais recomeçarei. Sofre - se demais...Não me refiro à raspagem...Não, não, é outra coisa: é..amor - próprio, compreende". O nº14 tivera cinco filhos em cinco anos; com 40 anos tinha um ar de mulher velha. Em todas havia uma resignação feita de desespero:"a mulher foi feita para sofrer",diziam tristemente.


A gravidade dessa experiência varia muito segundo as circunstâncias.A mulher burguesamente casada ou confortavelmente sustentada, apoiada num homem, com dinheiro e relações sociais leva grande vantagem; primeiramente obtém mais facilmente uma li cença para um aborto "terapêutico"; se necessário, tem os meios de pagar uma viagem à Suíça onde o aborto é deliberadamente tolerado; nas condições atuais da ginecologia,é uma operação benigna quando executada por especialista,com todas as garantias da higiene e, se preciso, os recursos da anestesia. Na ausência da cumplicidade oficial ela encontra ajudas oficiosas igualmente seguras: conhece bons endereços, tem bastante dinheiro para pagar cuidados conscienciosos e sem esperar que a gravidez se ache adiantada: tratá - la - ão com consideração; algumas dessas privilegiadas pretendem que esse pequeno acidente faz bem à saúde e dá brilho à tez.



Inversamente há poucas desgraças mais lamentáveis do que a de uma moça sozinha, sem dinheiro que se vê acuada a um "crime" a fim de apagar a mancha de um "erro" que os seus não perdoariam: é anulamente na França o caso de cerca de trezentas mil empregadas, secretárias, estudantes, operárias,camponesas; a maternidade ilegítima é ainda uma tara tão horrível que muitas preferem o suicídio ou o infanticídio à condição de mãe solteira: isso que dizer que nenhuma penalidade a impediria de "botar para fora um filho." Caso banal e que se encontra amiúde é o que vem relatado numa confissão recolhida pelo Dr. Liepmann (jeunesse et sexualitè).Trata - se de uma berlinense,filha natural de um sapateiro e de uma doméstica:


Travei relações com o filho de um vizinho, dez anos mais velho que eu...As carícias me pareceram tão inéditas que , meu Deus,deixei correr a coisa. Entretanto de modo nenhum aquilo era amor.Ele continuou porém a iniciar - me, dando - me a ler livros sobre a mulher; finalmente dei - lhe minha virgindade. Quando, depois de uma espera de dois meses, aceitei um lugar de preceptora na escola maternal de Speuze, estava grávida.


Não tive mais regras durante dois outros meses. MEU SEDUTOR ESCREVIA - ME QUE ERA ABSOLUTAMENTE NECESSÁRIO FAZÊ -LAS VOLTAR BEBENDO PETRÓLEO E COMENDO SABÃO DE CINZA. Não sou capaz de descrever agora os tormentos que sofri...Tive que ir sozinha até o fim dessa miséria. O medo de ter um filho levou - me a fazer a coisa horrorosa. Foi então que aprendi a odiar o homem.


O pastor da escola tendo sabido da história por uma carta perdida, prega - lhe um sermão e ela separa - se do rapaz; tratam - na como ovelha negra.

Foi como se eu tivesse vivido dezoito meses numa casa de correção.

Em seguida ela se emprega como pajem na casa de um professor e aí permanece quatro anos.

'Nessa época eu aprendi a a conhecer um magistrado. Senti - me feliz por ter um homem de verdade a amar. Com meu amor dei - lhe tudo.Como consequência de nossas relações, aos 24 anos dei à luz a menino bem constituído. Tem ele hoje dezoito anos. Há nove anos e meio que não revejo o pai...como achasse insuficiente a importância de 2.500 marcos e como, por seu lado, recusando dar um nome ao filho, renegasse sua paternidade,tudo terminou entre nós. Nenhum homem me inspira mais desejo.'


É muitas vezes o próprio sedutor que convence a mulher a se desembaraçar do filho. Ou ele já a abandonou quando fica grávida, ou ela quer generosamente esconder - lhe a desgraça, ou não encontra nenhum auxílio nele. Por vezes não é sem o lamentar que recusa o filho; ou porque não resolve logo suprimi - lo, ou porque não conhece nenhum endereço, ou ainda porque não tem dinheiro disponível e perdeu tempo tentando drogas ineficientes; já chegou ao terceiro, quarto mês de gravidez quando decide livrar - se do feto; o aborto será então infinitamente mais perigoso, mais comprometedor que nas primeiras semanas;


A mulher sabe - o, é com angústia e desespero que o tenta; no campo o emprego da sonda não é muito conhecido. A camponesa que "errou" deixa - se cair da escada do celeiro, rola pelos degraus da escadaria, e muitas vezes machuca - se sem resultado ; por isso acontece que se encontre nas cercas, nos cerrados, nas latrinas, algum cadarvezinho estrangulado. Na cidade as mulheres auxiliam - se mutualmente. Mas nem sempre é fácil descobrir uma "fazedora de anjos" e muito menos juntar a importância exigida; a mulher grávida pede ajuda a uma amiga ou opera - se a si mesma; essas cirurgiãs ocasionais são muitas vezes pouco competentes; facilmente se perfuram com gancho ou a agulha de tricô;um médico contou - me que uma cozinheira ignorante, querendo injetar vigrane no útero, injetou - o na bexiga, o que provocou horríveis sofrimentos.

Brutalmente executado e mal tratado, o aborto, muitas vezes mais penoso que um parto normal, é seguido de pertubações nervosas podendo ir até a beira do ataque epiléptico,provoca às vezes graves moléstias internas e pode desencadear uma hemorragia mortal.


Collete contou em Gribiche a dura agonia de uma dançarina de music hall entregue às mãos ignorantes da mãe; um remédio habitual era, diz, beber uma solução concentrada de sabão e correr em seguida durante um quarto de hora: com tais tratamentos é muitas vezes matando a mãe que se suprime o filho. Falaram - me de uma datilógrafa que ficou durante quatro dias no quarto, banhada em sangue, sem comer nem beber,porque não ousara pedir socorro. É difícil imaginar abandono mais horrível do que esse em que a ameaça de morte se confunde com a do crime e da vergonha. A provação é menos rude no caso de mulheres pobres, mas casadas, que agem de acordo com o marido e sems e atormentarem com escrúpulos inútis: uma assistente social disse - me que nas favelas elas se aconselham mutuamente , emprestam instrumentos e se assistem tão simplesmente quanto se tratasse de extirpar calos. Mas suportam duros sofrimentos físicos; nos hospitais são obrigados a receber a mulher cujo abortamento se acha iniciado; mas CASTIGAM - NA sadicamente recusando - lhe qualquer calmante durante a operação final da raspagem.


Como se vê do testemunho recolhido por G.Sarreau, tais perseguições não indignam sequer as mulheres habituadas ao sofrimento: mas elas são sensíveis às humilhações de que as cumulam. O fato de ser a operação clandestina e criminosa, multiplica - lhe os perigos e dá - lhe um caráter abjeto e angustiante.


Dor, doença, morte assumem um aspecto de castigo: sabe - se que distância separa o sofrimento da tortura, o acidente da punição; através dos riscos que assume a mulher apreende-se como culpada, é essa interpretação da dor e do erro que que se apresenta como singularmente penosa.


Esse aspecto moral do drama é sentido com maior ou menor intensidade segundo as circunstâncias. Para as mulheres muito livres de preconceitos, graças à sua fortuna, à sua situação social, ao meio a que pertencem, e para aquelas a quem a pobreza ou a miséria ensinaram o desdém da moral burguesa, quase não lhá problema: há um momento mais ou menos desagradável a passar, e é preciso passar por ele, eis tudo. Mas numerosas mulheres são intimidadas por uma moral que guarda seu prestígio a seus olhos, embora não possam adaptar sua conduta a ela; respeitam interiormente a lei que infrigem e sofrem com cometer um delito; sofrem ainda mais por term de apelar para cúmplices. Suportam primeiramente a humilhão de mendigar: mendigam um endereço,os cuidados do médico,da parteira; arriscam - se a ser maltratadas com altivez ou se expõe a uma convivência degradante. Convidar alguém deliberadamente outrem a cometer um delito é uma situação que , em sua maioria, os homens ignoram e que a mulher vive num misto de medo e vergonha. Essa intervenção que reclama,muitas vezes,em seu coração, ela a rechaça. Acha - se dividida no interior de si mesma. É possível que seu desejo espontâneo seja conservar o filho que impede de nascer; mesmo que deseje positivamente a maternidade, sente com mal estar a ambiguidade do ato que pratica. Pois se não é verdade que o aborto seja um assassínio, não pode contudo ser assimilado a uma simples prática anticoncepcional; houve um acontecimento que é um começo absoluto e cujo desenvolvimento se detém. Certas mulheres sentem-se obsidiadas pela recordação desse filho que não houve. Helen Deustsch (Psychology of Women) cita o caso de uma mulher casada, psicologicamente normal, que tendo, por causa de sua condição física, perdido duas vezes fetos de três meses, mandou erguer dois pequenos túmulos de que cuidou com grande devoção, mesmo depois do nascimento de numerosos filhos. Com muito mais razão, em sendo o aborto provocado, terá muitas vezes a mulher o sentimento de ter cometido um pecado.



O remorso, que acompanha na infância o desejo ciumento da morte do irmãozinho recém-nascido, ressuscita e a mulher se sente culpada de ter realmente matado um filho. Melancolias patológicas podem exprimir esse sentimento de culpa. Ao lado das mulheres que pensam ter atentado contra uma vida estranha ,muitas há que pensam ter sido mutiladas de uma parte de si mesmas; nasce disso um rancor contra o homem que aceitou ou solicitou a mutilação.


H. Deustsch, mais uma vez, cita o caso de uma moça profundamente apaixonada pelo amante , que insistiu ela própria em fazer desaparecer um filho que seria um obstáculo à felicidade de ambos; ao deixar o hospital, recusou-se, e para sempre, a rever o homem que amava. Se uma ruptura tão definitiva é rara, em compensação é frequente que a mulher se torne fria, seja com todos os homens, seja com o que a engravidou.




Os homens tendem a encarar o aborto com displicência; consideram-no como um desses numerosos acidentes a que a malignidade da natureza condenou as mulheres: não medem os valores que se acham empenhados no aborto.



A mulher renega os valores da feminilidade, seus valores, no momento em que a ética masculina se contesta da maneira mais radical. Todo o universo moral dela é abalado. Com efeito, repetem à mulher desde a infância que ela é feita para engendrar e cantam-lhe o esplendor da maternidade; os inconvenientes de sua condição - regras, doenças, etc - o tédio das tarefas caseira, tudo é justificado por esse maravilhoso privilégio de pôr filhos no mundo. E eis que o homem para conservar sua liberdade, para não prejudicar seu futuro, no interesse de sua profissão, pede à mulher que renuncie ao seu triunfo de fêmea. O filho não é mais um tesouro imensurável: engendrar não é mais uma função sagrada: essa proliferação torna-se contingente, importuna,é mais uma das taras da feminilidade. O aborrecimento mensal da menstruação apresenta-se , comparativemente, como abençoado: eis que se aguarda anciosamente a volta do escorrimento vermelho que mergulhara a menina no desespero; foi prometendo as alegrias do parto que a tinham consolado. Mesmo consentindo no aborto, desejando-o, a mulher sente como um sacrifício a sua feminilidade: é preciso que ela veja em seu sexo, definitivamente uma maldição, uma espécie de enfermidade, um perigo. Indo até o fim dessa renúncia, certas mulheres tornam-se homossexuais em consequência do traumatismo do aborto. Entretanto, no mesmo momento em que , para melhor realizar seu destino, o homem pede à mulher que sacrifique suas possibilidades carnais, denuncia a hipocrisia do código moral dos homens.


Estes proíbem universalmente o aborto; mas aceitam-no singularmente como solução cômoda; é-lhes possível contradizerem - se com um cinismo absurdo; mas a mulher experimenta essas contradições em sua carne ferida; ela é geralmente demasiado tímida para voltar-se contra a má fé masculina; conquanto considerando-se vítima de uma injustiça que a decreta criminosa à força, sente-se humilhada, maculada; ela é que encarna , numa figura concreta e imediata, em si, a falta do homem;


ELE COMETE A FALTA , MAS LIVRA-SE DELA NA MULHER, ele diz somente palavras, num tom suplicante, ameaçador,senato, furioso: esquece-as depressa; cabe a ela traduzir essas frases na dor e no sangue. Algumas vezes, ele não diz nada, vai-se embora, MAS SEU SILÊNCIO E SUA FUGA SÃO UM DESMENTIDO AINDA MAIS EVIDENTE DE TODO O CÓDIGO MORAL INSTITUÍDO PELOS HOMENS. Não nos devemos espantar com isso que chamam " a imoralidade" das mulheres, tema predileto dos misóginos; como não teriam elas uma íntima desconfiança em relação aos princípios arrogantes que os homens afirmam publicamente e em segredo denunciam? Elas aprendem a não mais acreditar no que dizem os homens quando exaltam a mulher, nem quando exaltam o homem: a única coisa certa é esse ventre revolvido e sangrento, esses molambos de carne vermelha, essa ausência do filho. É com o primeiro aborto que a mulher começa a "compreender".


Para muitas delas o mundo nunca mais terá a mesma figura. E, NO ENTANTO POR FALTA DE DIFUSÃO DOS MÉTODOS ANTICONCEPCIONAIS, O aborto é hoje na França o único caminho aberto á mulher que não quer por no mundo filhos destinados a morrer na miséria. Stekel (A mulher fria) disse-o muito justamente: "A proibição do aborto é uma lei imoral, porquanto deve ser obrigatoriamente violada, todos os dias, a todas as horas."



Fonte: O segundo sexo, Beauvoir, Simone
páginas 248-257
Ed.Nova Fronteira




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"Na questão do aborto vemos também as contradições entre a constatação dos fatos e as exigências, e por traz delas o apoio ideológico da moral matrimonial e as considerações para com a instituição do casamento. Um dos argumentos contra a legalização do aborto é o do "recato". Onde estaríamos se permitíssemos ampla liberdade de aborto? A lei contra o aborto afinal é um freio à "vida sexual irrestrita". Quer-se conseguir aumento populacional e consegue-se o contrário: decréscimo constante do índice de natalidade. Sabe-se quer a liberação e a legalização do aborto não restringiram o aumento de população na Rússia, pelo contrário assistência social e o aborto legal determinaram um enorme aumento populacional. (70)"...




Os motivos imediatamente econômicos para o impedimento de uma regulamentação racional do uso de anticoncepcionais são insignificantes em comparação com os motivos ideológicos e existenciais, que no final das contas também têm suas raízes em interesses econômicos... Se se liberar o aborto, isso não somente afetará as esposas, mas também terá que ser aplicado às solteiras. Mas com isso dar-se-ia o beneplácito à ligação extra matrimonial, anular-se-ia a compulsão moral ao casamento após a gravidez e prejudicar-se-ia a instituição do casamento. Ideologicamente, portanto, é preciso, apesar dos fatos contraditórios da vida sexual, preservar-se a moral matrimonial, porque o casamento é a espinha dorsal da família autoritária, e esta por sua vez é a fonte natural das ideologias autoritárias e estruturas humanas.""O reconhecimento oficial da satisfação sexual, independente da procriação, de uma única vez derrubaria todas as concepções oficiosas e ecumênicas, sobre a vida sexual."




Whilhelm Reich, A Revolução Sexual, Pág. 71

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