terça-feira, fevereiro 06, 2007

Lesbianismo: a Quintessência do Feminismo

"Desleal à civilização": a teoria (literária) feminista lésbica”, Beatriz Suárez Briones, Universidade de Vigo, Barcelona:

"A autora utiliza um artigo de Rubin (“Thinking sex: Notes for a radical theory of the politics of sexuality”, Gayle S. Rubin, 1984) como introdução à formulação de uma política feminista sobre o sexo, de uma política radical, que coloca a sexualidade na raiz do caleidoscópio sócio-cultural que a organiza (através do sistema educativo, médico e de saúde mental, penal, da política e da economia...

Briones considera que de alguma forma é necessário recuperar a centralização da sexualidade na enunciação do discurso lésbico, querendo com isto dizer que “O feminismo deve insistir em que as mulheres são sujeitos sexuais, agentes sexuais”...

A primeira parte do seu artigo dedica-se a demonstrar como foi o próprio feminismo que diluiu a centralidade dessa sexualidade lésbica.

“Os anos 60 foram a década da segunda onda feminista. Dentro do movimento feminista cada vez mais mulheres se sentiram livres para se intitularem feministas lésbicas; para elas o lesbianismo era uma opção sexual que qualquer mulher podia adoptar (…). As feministas lésbicas declararam que lésbica era qualquer mulher que dedicava todas as suas energias a outras mulheres. O lesbianismo passou a ser considerado a quintessência do feminismo, porque o feminismo lésbico significava pôr as mulheres primeiro no afectivo, no social, no político e no sexual, acção que altera até à raiz a concepção patriarcal das relações humanas, nas quais o homem ocupa sempre o lugar central; significava materializar um tipo de relação revolucionária que tinha como norma a sororidade e o ginoafecto; a lésbica era também a mulher independente dos homens, a demonstração viva de que uma mulher sem homem é um ser humano completo (… ) ”.

Um artigo que considera central no final dessa década é “Heterossexualidade obrigatória e existência lésbica”, de Adrienne Rich. Nele a autora define o conceito de continuum lésbico como “uma gama de experiências ginocêntricas” (Rich, 1980:23), ao longo da vida de cada mulher e da história. Esta autora insiste na ideia de uma aprendizagem da sexualidade, nomeadamente na aprendizagem obrigatória da heterossexualidade, sem que haja liberdade para uma preferência sexual diferente. Esta autora ter-nos-ia ensinado a ver a heterossexualidade como uma instituição política, tendo esta posição tem sido vincada por Janice Raymond e a sua hetero-realidade, “a visão do mundo de que a mulher existe sempre em relação ao homem (1986:3), ou a ideologia de que “as mulheres são para os homens."
http://branconolilas.no.sapo.pt/suarez_briones.htm

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"Se a expressão da experiência erótica feminina chega a ser tão problemática, a representação da sexualidade lesbiana o é ainda mais, pois rompe com as relações dominantes de gênero, ao excluir a figura do homem e colocar a mulher em uma posição de sujeito atuante, em vez do papel tradicional de objeto do desejo masculino. Assim, o desejo lesbiano na obra de escritoras brasileiras não só representa uma dimensão importante da sexualidade feminina, como também serve para expor e questionar o controle social sobre a sexualidade e o corpo femininos. O lesbianismo abre um espaço para a realização pessoal e sexual da mulher, no qual a identificação com outro ser seu igual toma possível a auto integração do sujeito feminino. Como tem sido analisado pela teoria crítica contemporânea, as origens dessa identificação física e psíquica entre mulheres remonta ao semiótico (quando a criança encontra-se num estágio de perfeita simbiose com a mãe. Esse primeiro estágio de união influencia as relações posteriores do sujeito e determina na mulher um tendência à bissexualidade e a uma sexualidade mais fluida. O romance lesbiano Sortilegiu (1981), de Myriam Campello, ilustra bem essa identificação, neste trecho, por exemplo, em que a protagonista, Ísola, conhece Marina, que mais tarde vai tomar-se sua amante: "Ísol sentia a tepidez daquele corpo refletido sobre o seu no espelho, tocando-a, como se a fusão das duas imagens produzisse calor" (1981, 47). A imagem de dois corpos superpostos no espelho prenuncia o encontro sexual das duas mulheres, quando o corpo de uma funciona como reflexo do da outra, e têm lugar a integração fisica e a reciprocidade no dar e receber prazer: "Marina [...] navegava Ísola também multiplicando-se, desdobrada e vária como um prisma sob a luz. Ísola/Marina se desencadeavam prazer como o vento no capim ondulante" (1981, 65).



O Desejo Lesbiano no Conto de Escritoras Brasileiras Contemporâneas - Cristina Ferreira Pinto-Bailey

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"Colocada entre as duas, Gina é violentamente forçada a uma definição, num confronto que reproduz a violência com que a sociedade pode tratar a mulher lésbica: "[...] de repente comecei a gritar, batendo com os punhos nos joelhos" (1985, 131); "Faça o que quiser, vá-se embora com Oriana ou fique comigo, a decisão é sua, tem todo o direito de escolher" (1985, 133).
A mãe empresta voz à ideologia dominante ao tentar controlar a sexualidade da filha. Gina, entretanto, não escolhe nenhuma das duas opções que a sociedade, na figura da mãe, lhe impõe, e nem assume a marginalidade social da mulher lésbica, nem renuncia a seu amor por outra mulher: "Me lembrei de tanta coisa, tanta mas em nenhum instante me ocorreu que além das opções que lhe ofereci havia uma terceira. Que ela escolheu em surdina, fechada lá no seu mundo secreto" (1985, 133). O suicídio aparece assim como única resolução possível para o conflito em que a sociedade a lança. É, contudo, uma resolução novamente ambígua, expressão tanto da agência e autoridade da mulher lesbiana como de sua mudez, ato de silêncio que a retorna à invisibilidade a que a sociedade a confinou."

http://www.letras.ufrj.br/litcult/revista_mulheres/revistamulheres_vol7.php?id=5
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"Em seu livro Archetypal Patterns in Women's Fiction (1981), Annis Pratt comenta que

'Through the experience of Eros with other women, [...] women experience themselves for the first time not as others but as essences, reaching that place in their consciousness where they can tap the sources of their own libidinal energy" (1981, 112). Treze anos depois, Teresa de Lauretis chega a uma conclusão semelhante ao afirmar que o desejo lesbiano "affirms and enhances the female-sexed subject and represents her possibility of access to a sexuality autonomous from the male" (1994, xvii). A idéia de uma sexualidade feminina autônoma coloca-se em contraposição a um discurso social que privilegia o desejo masculino sobre o feminino, definindo o corpo da mulher exclusivamente dentro dessa hierarquia. Desse modo, a sexualidade e o desejo lesbiano podem ser entendidos como uma rejeição do sistema dominante, como o "ato de resistência" proposto por Adrienne Rich em seu importante ensaio "Compulsory Heterosexuality and Lesbian Existence" (1980). De Lauretis considera "the figure of the lesbian in contemporary feminist discourse [as representing] the possibility of female subject and desire: she can seduce and be seduced, but without losing her status as subject [...]" (1994, 156). Desse modo, a expressão do desejo lesbiano no discurso literário representa "a place from where female homosexuality figures, for women, the possibility of subject and desire" (De Lauretis, 1994, 156). Diz ela:

To the extent that all women have access to that place, female homosexuality guarantees women the status of sexed and desiring subjects, wherever their desire may be directed. [...] the desire expressed in the figure, in the trope, of female homosexuality may be predicated unconditionally of the female subject; it becomes one of her properties or constitutive traits. [...] [and] it need not be confined in the patriarchal frame of a "heterosexual love story' (De Lauretis, 1994, 156-57).


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Heterogênero." A noção de heterogênero (Ingraham, 1996 : 169) foi assim proposta como categoria de análise a fim de apontar para a heterossexualidade implícita no "gênero" e explicitar o heterossexismo (de Lauretis, 1987 : 6) existente nos discursos feministas emitidos no quadro de um certo imaginário hegemônico (Baczko, 1984 ; Castoriadis,1982), mergulhado em representações binárias e heterossexuais que deveriam desfazer. A denominação heterogênero ilumina o "natural , sublinha a "essência"que retorna em surdina nas análises utilizando a categoria "gênero", a fim de indicar a marca do social na formação do feminino e do masculino , não apenas em seus papéis, mas em seus corpos. Se a questão de desvelar o processo de construção do sentido ligado ao sexo biológico e de observar como sua significação se instala nas redes de saber e de poder que tecem a trama do social, a historicidade da opressão das mulheres revela que a heterossexualidade compulsória foi e é ainda um dos eixos maiores de seu assujeitamento voluntário - ou não - no mundo dominado pelo masculino."(feminismo e lesbianismo : quais os desafios?, tania navarro swain)


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