quinta-feira, fevereiro 08, 2007

O heterogênero


"Se voltarmos o olhar, hoje, para os caminhos plurais do feminismo detectamos movimentos de cruzamento, de oposição ou de imbricação com o lesbianismo. Classificadas como radicais, separatistas, recusando os homens, e a dominação masculina, as lesbianas sempre atemorizaram as feministas, num mêdo despertado pelas imagens forjadas no cadinho dos enunciados do senso comum, cuja repetição criava a realidade: machonas, viragos, feiosas, mal amadas. Rebotalho da natureza, desprezadas ou detestadas pelos homens, mesmo Simone de Beauvoir via as lesbianas como seres inacabados ou irrealizados. Enquanto feminista, como se aproximar ou trabalhar em conjunto como estes seres marcados, sem se contaminar, sem partilhar as nódoas e os insultos contra 'aberrações da natureza', 'imitações de macho' ?

A história dos movimentos das mulheres mostra, entretanto, a presença constante das lesbianas nas práticas políticas de reivindicação tanto quanto nas reflexões teóricas. No calor dos anos 70, viu-se mesmo algumas feministas heterossexuais quase se desculpar da escolha de seu companheiro, diante da avalanche de análises que demonstravam a violência implícita ou explícita da dominação, da apropriação dos corpos e da exploração sexual das mulheres em um mundo patriarcal. (de Lesseps, 1980 : 55). Como, enquanto feministas, não se sentir cúmplice em uma relação mulher/homem?



As lesbianas reivindicavam então a construção de uma outra realidade social com a evacuação do poder e da presença masculina: foram criadas assim comunidades lésbicas nos Estados Unidos e Canadá, principalmente . (Taylor and Rupp, 1993 : 43/44) A "lésbica política" apareceu à época, figura cujos desejos sexuais não se voltavam necessariamente para outras mulheres, mas que se engajavam em uma luta sem tréguas e sem cumplicidade. (Ti Grace Atkinson, 1975 :155) Definição metafórica ou não, para o lesbianismo engajado a sexualidade estava no centro da resistência e as lesbianas eram, antes de mais nada, mulheres.


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No âmago do imaginário hegemônico ocidental, o lesbianismo aparece como um desvio. Mas o fato mesmo de sua possibilidade e de sua existência abre brechas no bloco monolítico da heterossexualidade, protegido ferozmente por mulheres e homens generizados, pois assegura seu lugar na partilha do mundo. Na ordem do discurso, ser "mulher"com toda a assimetria que implica esta denominação, ou "mulher negra", "mulher latina" ou "mulher imigrante"é considerado ainda melhor que ser lésbica.

Se a categoria "mulher"pode admitir a diversidade, é no domínio da prática sexual que se encontra o traço de união : a heterossexualidade. Acordo tácito, lugar assegurado na ordem do verdadeiro, pois ser lesbiana des-naturaliza o gênero, que pretende, enquanto categoria, des- naturalizar a natureza.

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O lesbianismo , nesta perspectiva, não é desvio ou marginalidade, é um locus de significação e sua identidade paródica - butch/femme- ilumina a construção social do sex/gender/ system, o que Butler denomina "ficção reguladora da coerência heterossexual". (Butler,1990:136)


Teresa de Lauretis sublinha esta característica do sex/gendr/system , mantenedora da oposição estrutural e rígida do sexo biológico em uma construção semiótica, socio-cultual e representacional. (de Lauretis, 1987 : 3) Mas em um projeto crítico de inversão de evidências, a questão que se impõe é : a noção do sexo biológico não é igualmente uma construção social? Se a construção do gênero social e do biológico humano repousa sobre um sistema simbólico ou de significações que atrela o sexo ao gênero segundo valores sociais variáveis e dinâmicos, a noção de heterossexismo é um instrumento de análise que vem quebrar o quadro circular da reprodução de papéis no âmbito da crítica destinada a tranformá-los. ( de Lauretis, 1987:5)


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Em sua análise da construção dos corpos sexuados, Butler insiste sobre a naturalização do desejo heterossexual, cuja identificação à essência do sujeito generizado é

"[...] um efeito discursivo sobre a superfício dos corpos, uma ilusão de um gênero organizado do interiro, uma ilusão discursiva que regula a sexualidade no molde da heterossexualidade reprodutiva." ( Butler,1990:136)


É assim que o gênero constrói o sexo biológico: não em sua materialidade, é óbvio, mas em sua apreensão mediatizada pelas redes de sentido, pelas representações sociais que a definem enquanto diferença incontornável, ligada à

"[...] sistemas de pensamento mais amplos, ideológicos ou culturais, à um estado de conhecimentos científicos, assim comme à conditção social e à esfera de experiência privada e afetiva dos indivíduos." (Jodelet, 1994 :35)

Os discursos médicos, jurídicos, religiosos, educacionais, bem como os do senso comum são unânimes em afirmar que o sexo biológico é um dado da natureza , incontestavelmente. Mas, como sublinha Foucault,

"[...] deve-se dele falar não como algo condenável ou simplesmente tolerável, mas como alguma coisa a ser gerida, inserida em sistemas de utilidade, regulamentada pelo bem de todos, a funcionar segundo um optimum. O sexo, isto não se julga apenas, isto se administra. Faz parte do poder público [...]".(Foucault, 1976 : 34/35)


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Entretanto as representações de gênero são constitutivas do universo discursivo das teorias feministas e permaneceriam ocultas se não fosse o esforço metodológico de desconstrução exigido pela perspectiva do eccentric subject . Isto explica talvez em parte o apagamento da sexualidade nos estudos de gênero, pois a representação social, modo de apreensão do mundo, modo de significação no mundo, (Jodelet, 1989 ) torna-se igualmente auto representação. Esta ausência faz com que, na atualidade , a sexualidade seja reivindicada enquanto objeto específico dos Estudos Lésbicos e Gay. (Weed and Schor 1997)


O desejo heterosexual retoma assim seu lugar em meio às práticas sexuais que compõem um social plurívoco, no momento em que se desvela enquanto norma cultural, e a imagem do "verdadeiro sexo" fica assim deslocada. Se a norma não mais é decisiva entre a "boa" e "má" sexualidade, esta pode finalmente retomar seu lugar na esfera da privacidade de cada pessoa.

A noção de heterogênero (Ingraham, 1996 : 169) foi assim proposta como categoria de análise a fim de apontar para a heterossexualidade implícita no "gênero" e explicitar o heterossexismo (de Lauretis, 1987 : 6) existente nos discursos feministas emitidos no quadro de um certo imaginário hegemônico (Baczko, 1984 ; Castoriadis,1982), mergulhado em representações binárias e heterossexuais que deveriam desfazer.


A denominação heterogênero ilumina o "natural , sublinha a "essência"que retorna em surdina nas análises utilizando a categoria "gênero", a fim de indicar a marca do social na formação do feminino e do masculino , não apenas em seus papéis, mas em seus corpos.

Se a questão de desvelar o processo de construção do sentido ligado ao sexo biológico e de observar como sua significação se instala nas redes de saber e de poder que tecem a trama do social, a historicidade da opressão das mulheres revela que a heterossexualidade compulsória foi e é ainda um dos eixos maiores de seu assujeitamento voluntário - ou não - no mundo dominado pelo masculino.


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Doise comenta,entretanto, que um menino pode ser misógino , mesmo se não foi assim educado em sua família, pois vive em uma sociedade que separa e categoriza os sexos de forma hierárquica. (idem) Da mesma maneira, a menina incorpora e é assujeitada pelas representações da "verdadeira mulher", da qual a maternidade e o desejo do casamento são partes constitutivas.


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Da escola aos meios de comunicação, as representações sociais hegemônicas mostram sua pregnância na produção imagética e textual: de Lauretis (de Lauretis,1987)enumera as tecnologias que difundem estas representações e contribuem à produção não somente do sexo, mas igualmente da "boa" sexualidade: o cinema, a literatura e acrescento, revistas em quadrinho, propaganda, televisão, novelas, manuais escolares, revistas "femininas" e/ ou "masculinas", jornais, canções, etc.


As imagens centrais ainda são em torno de família, da mãe dona-de-casa, do casamento, maternidade, do homem provedor, da busca incessante do amor, apesar das aparições de um contra-imaginário que sugere o múltiplo pela proliferação de formas de relação social/sexual.


Bety Friedan mostrava a imagem da mulher americana dos anos 60, ainda hoje atual, que tenta "[...] tirar partido de seus charmes para reter um homem, criar uma descendência, dar atenção e cuidados ao marido, crianças, ao lar." ( Friedan, 1964 : 32/33) E isto, comenta de Lauretis, " [...] contribui a fixar a sexualidade feminina [...] sobre o estreito leito de Procusto da reprodução onde a confina o patriarcado em nome da maternidade." ( de Lauretis,1990:124)

Daí o mêdo da perda da feminilidade, o mêdo do feminismo, o mêdo das feministas face à crítica da heterossexualidade.

http://www.unb.br/ih/his/gefem/labrys1_2/femles.html

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