quinta-feira, fevereiro 01, 2007

pornografia como teoria e estupro como prática

(extraído do blog anti-patriarcado)

"A pornografia é a mídia especializada do patriarcado. Tem a mídia geral, capital, que na sociedade da informação corre em todos e por todos os meios, e tem a supermídia, a mídia essencial, que também corre onde e quanto pode, em todos e por todos os meios: a pornografia.

Para Robin Morgan, pornografia é a teoria, estupro é a prática. Mas para uma multidão, talvez para a maioria, talvez a esmagadora maioria, pornografia é questão de liberdade de expressão.

Parece que é por este motivo que muita gente 'de esquerda', gente que costuma 'combater' a mídia geral, corporativa, capital, silencia, fica de repentemente muda, sem palavra, quando o assunto é pornografia. Não é por 'decadência moral', nem desvio de religião --afinal pornografia é uma forma de oração--, mas por apego orgulhoso e fidelidade sincera ao cânone liberal da LIBERDADE DE EXPRESSÃO.



Seguem boas razões (em inglês), por Andrea Dworkin, de "Por que pornografia importa para feministas":







Pornography is an essential issue because pornography says that women want to be hurt, forced, and abused; pornography says women want to be raped, battered, kidnapped, maimed; pornography says women want to be humiliated, shamed, defamed; pornography says that women say No but mean Yes--Yes to violence, Yes to pain.

Also: pornography says that women are things; pornography says that being used as things fulfills the erotic nature of women; pornography says that women are the things men use.

Also: in pornography women are used as things; in pornography force is used against women; in pornography women are used.

Also: pornography says that women are sluts, cunts; pornography says that pornographers define women; pornography says that men define women; pornography says that women are what men want women to be.

Also: pornography shows women as body parts, as genitals, as vaginal slits, as nipples, as buttocks, as lips, as open wounds, as pieces.

Also: pornography uses real women.

Also: pornography is an industry that buys and sells women.

Also: pornography sets the standard for female sexuality, for female sexual values, for girls growing up, for boys growing up, and increasingly for advertising, films, video, visual arts, fine art and literature, music with words.



Also: the acceptance of pornography means the decline of feminist ethics and an abandonment of feminist politics; the acceptance of pornography means feminists abandon women.

Also: pornography reinforces the Right's hold on women by making the environment outside the home more dangerous, more threatening, pornography reinforces the husband's hold on the wife by making the domestic environment more dangerous, more threatening.

Also: pornography turns women into objects and commodities; pornography perpetuates the object status of women; pornography perpetuates the self-defeating divisions among women by perpetuating the object status of women; pornography perpetuates the low self-esteem of women by perpetuating the object status of women; pornography perpetuates the distrust of women for women by perpetuating the object status of women; pornography perpetuates the demeaning and degrading of female intelligence and creativity by perpetuating the object status of women.

Also: pornography is violence against the women used in pornography and pornography encourages and promotes violence against women as a class;

pornography dehumanizes the women used in pornography and pornography contributes to and promotes the dehumanization of all women; pornography exploits the women used in pornography and accelerates and promotes the sexual and economic exploitation of women as a class.

Also: pornography is made by men who sanction, use, celebrate, and promote violence against women.

Also: pornography exploits children of both sexes, especially girls, and encourages violence against children, and does violence to children.

Also: pornography uses racism and anti-Semitism to promote sexual arousal; pornography promotes racial hatred by promoting racial degradation as "sexy", pornography romanticizes the concentration camp and the plantation, the Nazi and the slaveholder; pornography exploits demeaning racial stereotypes to promote sexual arousal; pornography celebrates racist sexual obsessions.


Also: pornography numbs the conscience, makes one increasingly callous to cruelty, to the infliction of pain, to violence against persons, to the humiliation or degradation of persons, to the abuse of women and children.


Also: pornography gives us no future; pornography robs us of hope as well as dignity; pornography further lessens our human value in the society at large and our human potential in fact; pornography forbids sexual self-determination to women and to children; pornography uses us up and throws us away; pornography annihilates our chance for freedom.
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A questão levantada aqui funciona como um ataque e denúncia à Pornografia como veículo ideológico que legitima e afirma a prioridade do desejo sexual dos homens sobre nossa dignidade como pessoas. O texto enumera vários pontos, o sectarismo q a pornografia produz, e denuncia mesmo tudo que ninguém tem coragem de dizer, mas que é fato: pornografia usa mulheres reais, pornografia diz o que a mulher deve ser, o que é, pornografia diz o que deve ser o desejo sexual feminino, e o masculino, atacando a formação das crianças, prostituindo ideologicamente as mulheres, as meninas, incentivando a sexualização de temas racistas (mulata da globo sambando nua na vinheta de carnaval, resultado: as negras são as mais discriminadas, como se SER NEGRA já fosse SER PUTA e a isso vem somada uma longa tradição na cultura e imaginário brasileiro reforçado pelos meios de comunicação diversos ), ou da imaturidade (sites pornôs, frases: TEENS, NINFETAS, 18 ANOS, 16 ANOS são as mais presentes e tantas outras coisas. A pornografia sexualiza/fetichiza as profissões das mulheres, a vida das mulheres, TUDO das mulheres, chega a ser claustrofóbico. Mas a coisa toda é q a pornografia é recebida com uma leniência tal pela sociedade...chega a permear toda ela, difundida sua estética nos mais diversos âmbitos.
Não é verdade que estamos livres de seus ataques. Em nome da LIBERDADE DE EXPRESSÃO/OPRESSÃO ela controla e oprime a vida das mulheres.
Esse discurso de que a pornografia impede a violência sobre as mulheres é tão hipócrita...A pornografia faz uma violência ideológica sobre as mulheres, perverte e define o que nós somos...e à custa de nós, satisfaz os animais doentes para que estes 'não nos ataquem'.

A pornografia legitima essa idéia de que os homens são sexualmente vorazes e precisam depredar uma figura feminina pra sobreviverem. Isso pra mim constitui misoginia. Pornografia é mais uma arma ideológica do q uma iniciativa de saúde pública...

A misoginia é a polícia do patriarcado, sempre presente pra fazer uma "limpa" dos elementos femininos ameaçadores à ordem hierarquica androcentrica.

"Os homens são assim! A natureza é assim! O mundo é assim!! Aceitem o fato mulheres: vocês estão sempre vulneráveis"

A Pornografia apresenta conteúdos imensamente insalubres à saude mental e sexual dos homens, e por consequência, das mulheres.

Quanto mais patriarcal e misógina a sociedade, mais o campo da sexualidade é perverso. Mais necessários são compensadores que aliviem as tensões sociais e garantam sua ordem.

Esse controle é exercido sobre a sexualidade: castram a sexualidade da mulher para afirmar a do homem, e tornam a sexualidade do homem castrada de certa forma por falocentralizá-la e torná-la um mecanismo neurótico compulsivo de liberação de tensões, afim de pacificar o indivíduo e limitar o prisma de sua sensibilidade e existência.

Sobram às mulheres, retratadas das formas mais degradantes na pornografia, sacrificadas para a satisfação dos machos paranóicos.
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trechos de 'sobre a libido colonizada', hilan bensusan:

"A pornografia é degradante", ouvimos muitas vezes. E, no entanto, uma sentença assim é freqüentemente motivada por uma convicção de que a pornografia é de alguma forma sexo puro; ela mostra os nossos desejos (e instintos) da forma mais bruta possível e essa crudeza, essa apresentação sem maquiagem do que subjaz ao que nós chamamos de romance, de flerte, de sedução, de vida amorosa e de casamento degrada porque mostra o que só deve aparecer maquiado.

Segue-se, de acordo com uma convicção assim, que exibir o casamento, a vida amorosa, a sedução, o flerte e o romance não constitui jamais, em si mesmo, pornografia. A idéia é que a pornografia apresenta as coisas de forma bruta - demais e elas raramente são vividas de uma maneira tão bruta quer dizer, sem maquiagem, sem disfarce. Os instintos, concordam os pornógrafos e esses críticos da pornografia, aparecem desencapados, em forma pura (alguns querem dizer 'de forma natural') na pornografia - uns se excitam com isso, outros pensam que isso degrada (e muitos enriquecem - em todo caso, mostrar a vida como ela é9 é produzir mercadoria). No meio da discussão toda somos convidados a ter certeza de que os nossos - instintos que podem ser apresentados, dizem uns, e que devem ser escondidos, dizem outros - são, no fundo, no fundo, assim.
A pornografia é uma invenção dos homens. Ela tem um antigo lastro nas nossas formas artísticas que exibem a fêmea como sendo um prêmio, uma caça, um corpo a ser dominado. Ela tem uma função grande na formação de homens: ela ensina os homens como pensar nos seus instintos puros. A pornografia, que inventa sujeito e objeto do desejo, quer apresentar aos homens a libido em si mesma, que é diferente da libido aparente; mostra o que as mulheres realmente querem e gostam - em contraste com o que elas dizem que gostam, com o que parece que elas querem - e contam aos homens que desejos eles devem ter. E o desejo (em si) do homem, revela e manda a norma da pornografia, está em uma harmonia preeestabelecida com o desejo (em si) do seu objeto sexual - apesar das aparências; por exemplo, apesar dos protestos das mulheres, diretos ou indiretos, de que não é bem aquilo que elas querem. Segue-se que uma certa dose de imposição do desejo masculino (em si) é erótico. Sexo e dominação das mulheres aparecem inseparados.

Se pudermos separar a pornografia dos nossos corações, a pornografia produz o roteiro que seguimos quando fazemos ou desejamos sexo - precisamente porque ela se apresenta como revelando elementos do nosso desejo em si. A autoridade da pornografia reside na nossa confiança em seus pressupostos básicos - que há uma forma de desejar e ser desejado, que nosso desejo e nossa capacidade de ser desejado é um instrumento de poder da nossa disposição, que nós não conhecemos nossos desejos em si mas apenas a aparência de nossos desejos - e, dada essa confiança, a pornografia aparece como uma fonte de conhecimento (os homens aprendem sobre o que desejar; as mulheres aprendem como ser desejáveis).
A construção do que é tolerável, do que é erótico e do que é desprezível de um modo tal que todas essas coisas são associadas à conquista e à entrega, à dominação e à submissão, à ocupação e à colaboração é que degrada. Aquilo que os pornógrafos estão prontos a chamar de sexo em estado bruto12 é degradante - mostrado nu ou com embrulhos.

Os homens relutam em considerar, mesmo por alguns instantes, que seus instintos de desejo não sejam naturais e que, portanto, esteja tudo bem com eles. Em nossa sociedade que propõe sempre um convício cheio de opções difíceis, de relatos com significados ocultos, e que nos treina a desconfiar muito, aquilo que é natural é um bálsamo, um terreno de paz onde parece que podemos estar contentes -ou antes temos que estar contentes, pois nada mais nos resta fazer; só nos resta nos resignar.

Os homens, é claro, ordenham os benefícios dessa ordem natural e desse contentamento com ela - eles exercitam o poder que ela lhes confere, eles raramente são espancados por causa dela, eles são menos vezes abusados e violentados em nome dela. Eles aprendem mais facilmente a estarem confortáveis com essa ordem - e então insistem: a ordem é ditada pela natureza ela mesma, em pessoa; resignemos, - aproveitemos deixem-me aproveitar. As mulheres ficam com as fatias podres desse melão natural."

1 comentário:

Anónimo disse...

Aprendi muito