terça-feira, fevereiro 06, 2007

Privilégios masculinos: descobrindo a nós mesmos dentro do jogo

Este pequeno texto tem por objetivo servir de subsídio inicial para futuros trabalhos e debates em torno do que estarei aqui sintetizando sobre o conceito de "privilégios masculinos". Sua intenção é partir de experiências pessoais de forma a indicar o quanto vivências absolutamente naturalizadas por nós homens têm origens sistêmicas e são fundadas em uma estrutura social e cultural sexista que não apenas prejudica as mulheres, mas “beneficia” injustamente a nós, homens.

Sou um jovem estudante e militante, preocupado com e mobilizado contra a opressão e dominação de gênero. Pelo convívio com minha namorada pesquisadora e militante feminista, Amanda, e com companheiras de movimentos sociais que pautam lutas entorno de relações de gênero, este tema não podia deixar de ser caro a mim. Entretanto, assim como a maioria dos (raros) homens que se envolvem contra relações opressivas de gênero, eu compreendo com relativa facilidade o quanto as mulheres são prejudicadas pelo sexismo, mas raramente ouço falar (muito menos da boca de meus pares homens) sobre o que nós homens ganhamos com este jogo injusto, comodamente consentido e reproduzido por nós mesmos. É quase como se pudesse existir um grupo prejudicado sem um grupo que se privilegie destas relações e contribua (mesmo que silenciosamente) para reproduzi-las. Ou o que talvez seja pior, é como se nós, homens "feministas" acreditássemos que o opressor, o dominador, aquele que se beneficia do machismo e do sexismo esteja sempre "lá", em algum lugar distante de nós mesmos, fazendo com que todas as estatísticas de qualidade de vida, desenvolvimento humano e acesso a posições de maior exercício de poder estejam nas mãos de homens. Mas “eu, embora homem, ainda mais um homem ‘feminista’, só tenho aquilo que conquistei por meu próprio mérito”. Isto é o que a maior parte de nós homens "intuímos" quando o que está em jogo é o nosso papel nas relações de gênero. Este é o mito terrível que nos faz reproduzir relações sexistas mantendo nossos privilégios, com a perigosa "consciência tranqüila" de que "não somos machistas".E “vejam só quanta generosidade, ainda nos damos ao luxo de discutir sobre gênero em nossas pesquisas!”


É sobre isso que me desafiei a falar. Pois sobre sua própria condição as mulheres é que podem e devem nos ensinar. E elas já têm falado com muita insistência e incidência (mesmo que a ouvidos surdos). Por isso, considero que o maior apoio ao movimento feminista que eu poderia dar seria falar enquanto homem, da posição de homem, sobre meus privilégios de homem, esperando que, a partir desta provocação, mais homens se mobilizem para lutar junto com as companheiras, não apenas na sua "mesma fileira", mas "cercando" pelos dois lados os alvos por elas determinados, partindo de nossa própria condição masculina.


Antes de tudo, gostaria de esclarecer que este texto pretende ser apenas uma espécie de manifesto, um material inicial para provocar futuras reflexões e ações, especialmente entre homens, contra nossos próprios privilégios. Entretanto, sei de suas limitações, sejam devidas a minha capacidade pessoal de escrita e de síntese de experiências e idéias, sejam também porque embora homem, sou um sujeito histórico marcado por experiências específicas frutos do fato de ser jovem, heterossexual, branco, de classe média, cristão, universitário, etc, etc, etc. É claro que existem infinitas formas de se ser homem, e muitas delas são formas subalternizadas e também oprimidas. Já escrevi um texto semelhante refletindo sobre privilégios brancos e ainda escreverei sobre privilégios heterossexuais. Milito diariamente em movimentos que buscam a superação da sociedade de classes. Sei do quanto meu lugar de enunciação já é um lugar condicionado por privilégios que não conquistei, mas que herdei pela estrutura excludente de nossa sociedade. Espero que possamos produzir as condições para que companheiros homens que não partilham dos mesmos privilégios de classe, cor e orientação sexual que eu possam falar também sobre suas experiências. Mas, por ora, vamos tentar refletir sobre os privilégios específicos que nós homens (pelo simples fato de sermos homens em uma sociedade sexista) recebemos em detrimento das mulheres, privilégios que nos colocam injustamente em posições de vantagem relativa em quase todas as relações.


O primeiro ponto a ressaltar é a necessária compreensão de que o sexismo não tem sua face mais terrível nas relações interpessoais e nas ações individuais. Se é claro que toda forma de agressão às mulheres (física, psicológica ou moral) deve ser entendida como crime merecedor das mais duras penas, arrisco dizer que a mais terrível face do sexismo seja justamente aquela que não se apresenta explicitamente como tal, mas que, na soma do conjunto total de relações sociais as quais compõem a vida social de todas e todos nós, mulheres e homens, têm como efeito colocar as mulheres sempre em posições subalternas, seja pelo chamado "teto-de-vidro" que faz com as mulheres tenham barrada sua possibilidade de ascensão profissional, “reservando” a nós homens tais posições de poder, seja pelo conjunto de relações que fazem com que a maior parte das pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza no Brasil sejam mulheres. Se é verdade que a sociedade de classes cria um corte terrível entre os poucos que lucram e os muitos que trabalham, é fato também que a opressão de gênero e os
Privilégios masculinos transpassam classes, embora se articulem diferentemente em cada uma delas, compondo cenários bastante diversos. Em todo caso, o fato é que, sejamos burgueses ou trabalhadores, banqueiros ou desempregados, temos privilégios (vantagens não merecidas nem conquistadas) pelo simples fato de sermos homens em uma sociedade estruturalmente machista, política e culturalmente.


Reafirmo, machismo e sexismo não se referem a atitudes individuais. Estamos falando aqui de sistemas complexos e dinâmicos de relações sociais, fundados em condições materiais e sistemas de valores e representações que beneficiam a nós homens, ao mesmo tempo em que inferiorizam simbolicamente e prejudicam objetivamente as mulheres. Este é um tema delicado, porque mexe com aquilo que tendemos a sentir como o mais natural em nós: o fato de sermos homens. "Não pensamos em ser homens, apenas o somos". Não pensamos em nossos papéis sociais, apenas os executamos. Não pensamos nos papéis sociais e nas tarefas exercidas pelas mulheres, "apenas observamos as coisas serem como são, cada um e uma com seus deveres". Entretanto, devemos buscar perceber o quanto de história social temos incorporado em nós e, portanto, esquecido enquanto história. Creio que uma exposição simples de uma breve lista de privilégios que nós homens vivenciamos, os quais criam desvantagens às mulheres, e, dos quais, a maior parte das vezes, sequer nos damos conta, por naturalizarmos os princípios sociais que dão origem a tais relações, pode nos ajudar neste processo de desvelamento do “lado masculino” do sexismo no Brasil. Estas são circunstâncias que não conquistei por trabalho próprio, mas que aprendi a sentir como coisas minhas por nascimento, por cidadania e simplesmente justificada pela crença de que homens e mulheres são naturalmente diferentes:1) Nós homens somos ensinados desde crianças a lidar com tarefas e profissões externas ao lar, manifesto em nossos carrinhos, ferramentas e armas, em contraponto aos nenês e panelinhas de nossas irmãs e primas; 2) Não somos, em geral, obrigados a aprender a cuidar de tarefas domésticas desde a infância, o que nos alivia de ter que aprender a lidar simultaneamente com tarefas internas e externas ao lar; 3) Aprendemos a sentir como nosso dever a provisão dos bens que nossas famílias necessitem, ao contrário das mulheres que cada vez mais não apenas se sentem obrigadas a sustentar suas famílias mas também a trabalhar nas tarefas domésticas; 4) Não vemos nossos pais (homens) cuidarem da casa ao longo de nossas vidas e, portanto, não naturalizamos como obrigação masculina o cuidado efetivo das crianças e da casa; 5) Quando temos mulheres em nossas casas, esperamos com toda naturalidade que tenhamos sempre refeições preparadas e utensílios domésticos limpos, sem muitas vezes compreensão do trabalho necessário para sua realização; 6) Podemos incorporar a crença de que "mulheres são, naturalmente, polvos", ou seja, podem fazer mil coisas ao mesmo tempo, dentro e fora de casa, sem que isso nos choque ou nos obrigue a agir contra tal situação; 7) Nos acostumamos a ver empresários, executivos, políticos e mesmo líderes de movimentos sociais quase sempre homens; 8) Quando vemos mulheres nestas posições, sentimos até mesmo um estranhamento, como se elas estivessem em algum lugar não destinado a elas; 9) Estudamos conhecimentos e livros produzidos quase exclusivamente por homens; 10) Aprendemos nossa história vendo praticamente apenas personagens masculinos e raramente ouvimos falar sobre o que faziam as mulheres em cada período histórico, como se apenas homens tivessem feito a História; 11) Sempre lemos e ouvimos generalizações a cerca das pessoas que “construíram e constroem nosso mundo” em termos masculinos, como "os homens" (referindo-se "às pessoas"), "os brasileiros" (sem referência "às brasileiras"), etc, naturalizando uma centralidade histórica sobre nós, homens, devido ao poder simbólico de uma linguagem sexista não reconhecida como tal; 12) Nos acostumamos a ver em diferentes mídias mulheres sendo apresentadas em situações de exposição sexual, sem nada correspondente em relação a homens; 13) Ouvimos desde jovens outros homens falando sobre mulheres como se elas fossem objetos sexuais, portanto, acreditamos que, sendo elas os objetos, nós homens sejamos os sujeitos sexuais; 14) Estas experiências criam em nós o sentimento contraditório de que os homens tem o direito natural a muitas parceiras, enquanto esperamos das mulheres uma fidelidade quasi servil; 15) Enquanto as mulheres se obrigam a internalizar estes valores sexistas como forma de autodefesa, muitas vezes aceitando que os homens vivam com tal liberdade sexual, nós homens achamos absolutamente natural ter interesse por diferentes mulheres ao mesmo tempo, mas não aceitamos facilmente que nossas parceiras tenham sequer amigos homens; 16) Não precisamos ter receio de que seremos agredidos pelo simples fato de sermos homens; 17) Não precisamos nos preocupar se nosso superior irá nos ver de forma sexualizada; 18) Não temos receio de que nossa aparência estética possa interferir em nossas possibilidades de ascensão profissional. 19) Não sofremos com a possibilidade de que nossos superiores evitarão nos elevar a cargos de responsabilidade por presumir que nossa família nos tomará tempo pessoal; 20) Quando estamos em grupos formados por homens e mulheres, a maior parte das vezes os homens se sentem no direito de tomar mais o uso da palavra do que as mulheres, algo que nos ajuda a internalizar a idéia de que os homens são mais inteligentes e socialmente ativos do que as mulheres; 21) Não precisamos nos desgastar lutando contra sistemas de relações sociais e valores machistas apenas para galgar passos que outros homens tenham feito; 22) Podemos fazer nossos deveres como estudantes e/ou trabalhadores tranqüilos pela certeza quase absoluta de que nossas mães, avós, irmãs ou parceiras, mesmo estudando e/ou trabalhando fora, irão preparar nosso alimento e manter nossos lares em relativa ordem; 23) Quando, em família, desejo falar com pessoas em profissões de prestígio e exercício de poder, posso estar quase seguro de estar majoritariamente entre pessoas do meu próprio sexo; 24) Se sentirmos medo de algum tipo de violência, dificilmente precisamos somar a elas o medo de violência sexual; 25) Podemos estar seguros de que o valor do nosso salário nunca foi influenciado negativamente pelo fato de sermos homens; 26) Na escola, aprendi diversas coisas inventadas, descobertas, grandes heróis e grandes obras feitas por pessoas do meu sexo; 27) Não preciso me preocupar em deixar de ser indicado para cumprir determinada tarefa simplesmente porque as pessoas acham que meu sexo não é propício para ela, mesmo o sendo; 28) A maior parte do tempo podemos deixar de pensar (portanto, de nos preocupar e mesmo de esquecer de falar) sobre questões de gênero se assim desejarmos; 29) Se eu declarar que "o que está em jogo é uma questão de gênero" ninguém negará minha preocupação humanitária afirmando que estou apenas defendendo meu interesse pessoal; 30) Não precisamos nos preocupar com o fato de que o conjunto de experiências que viveremos ao longo das nossas vidas estarão ligadas ao fato de sermos mulheres em uma sociedade estruturalmente machista;

E sabemos que esta lista poderia ser multiplicada.

Ressalto, entretanto, que meu objetivo não é o de fazer com que nós, homens, nos sintamos culpados. Culpa não serve para nada. Caso algum sentimento parecido tenha surgido, ele deve ser convertido imediatamente em consciência de nossa condição cotidianamente privilegiada pelo simples fato de sermos homens em uma sociedade machista, e então, em energia militante para contribuir com as lutas das mulheres, falando desde nossa posição masculina, contra nossos próprios privilégios. Isso não tem nada de favor ou ajuda que estejamos dando as mulheres. Pelo contrário, se hoje temos condições de perceber o quanto relações sexistas são um crime contra nossa própria humanidade e podemos nos mobilizar contra elas, é unicamente pelo esforço feito pelas mulheres no sentido de trazer a tona tais problemáticas. E apenas graças a luta das mulheres que podemos hoje perceber que estes sistemas de hierarquia, dominação, opressão e privilégios baseados no gênero são prejudiciais a todas e todos nós.


Finalmente, gostaria de desafiar novamente a nós próprios, homens, a romper com o mito ideológico de que estamos onde estamos hoje apenas por méritos nossos. Como poderia existir mérito puro num sistema sexista, no qual todas nossas vidas são permeadas por relações machistas e que produzem privilégios cotidianos como os citados acima? A maioria de nós que lutamos pelos direitos das mulheres tendemos a trabalhar para que as mulheres possam desenvolver-se como seres humanos e ganhar o seu justo espaço. Mas, raramente compreendemos o quanto isso exige que lutemos contra sistemas de privilégios “invisíveis” a nós homens, que nos beneficia injusta e exclusivamente, e lutemos, em última análise, para diminuir nossas esferas de exercício de poder.



O machista não é apenas aquele que oprime abertamente mulheres, mas também todo aquele que não luta contra o "machismo" presente em cada uma de nossas relações, instituições e valores. Meus estudos e mesmo as diversas pesquisas sobre gênero que tive acesso até hoje não me ensinaram a ver a mim mesmo como opressor, pois eu não me identificava como aqueles explicitamente machistas, tampouco me via como alguém beneficiado injustamente sem mérito específico ou como participante direto e reprodutor de uma cultura sexista. Fui ensinado a ver a mim mesmo como um indivíduo do qual meu estado moral dependeria apenas de minhas intenções. Raramente ouvi na escola sobre as dificuldades enfrentadas pelas mulheres graças a nossa sociedade sexista, e, quando ouvia, nunca era dada a devida centralidade à participação dos homens neste sistema de relações. Especialmente dos homens não explicitamente machistas, como eu. Porém, ao perceber que fazemos todos parte deste sistema sexista que cria privilégios a nós homens, prejudicando as mulheres, não temos mais o direito de ficar em silêncio. E, ao falarmos, devemos tomar a nós mesmos como objetos de reflexão e nos perceber como sujeitos históricos também responsáveis pela reprodução ou transformação de tais circunstâncias e relações. E como os únicos que poderão falar e lutar, como homens, contra o sistema de privilégios masculinos.


Antonio J.F. de Lima é licenciado em ciências sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e bacharelando na mesma área. Contatos pelo endereço eletrônico
trabalhosantonio@yahoo.com.br

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