segunda-feira, março 26, 2007

PORNOGRAFIA COMO TEORIA ESTUPRO COMO PRÁTICA


“A pior imoralidade é uma ignorância estudada, uma recusa propositada a ver ou saber” (Andrea Dworkin)

"Eu comecei essa carta com desejo, eu terminei com cólera; Eu sonho que amor sem tirania é possível."
-Andrea Dworkin, 1978 from First Love

"Nós precisamos pensar seriamente sobre o que significa sustentar uma resistência cont
ra a tirania que é parte do dia-a-dia de toda mulher."
- Andr
ea Dworkin in Minneapolis, 1987.


introdução por Luis Carlos de Alencar Cau:

"A pornografia é a mídia especializada do patriarcado. Tem a mídia geral, capital, que na sociedade da informação corre em todos e por todos os meios, e tem a supermídia, a mídia essencial, que também corre onde e quanto pode, em todos e por todos os meios: a pornografia.


Para Robin Morgan, pornografia é a teoria, estupro é a prática. Mas para uma multidão, talvez para a maioria, talvez a esmagadora maioria, pornografia é questão de liberdade de expressão.


Parece que é por este motivo que muita gente 'de esquerda', gente que costuma 'combater' a mídia geral, corporativa, capital, silencia, fica de repentemente muda, sem palavra, quando o assunto é pornografia. Não é por 'decadência moral', nem desvio de religião --afinal pornografia é uma forma de oração--, mas por apego orgulhoso e fidelidade sincera ao cânone liberal da LIBERDADE DE EXPRESSÃO.

Seguem boas razões (em inglês), por Andrea Dworkin, de "Por que pornografia importa para feministas":

Pornografia é uma questão essencial porque a pornografia diz que as mulheres querem ser agredidas, forçadas e abusadas; pornografia diz que as mulheres querem ser estupradas, espancadas, seqüestradas, desfiguradas; pornografia diz que as mulheres querem ser humilhadas, envergonhadas, difamadas; pornografia diz que a mulher diz Não mas quer dizer Sim – Sim para a violência, sim para a dor.

Também: pornografia diz que as mulheres são coisas; p
ornografia diz que ser usadas como coisas preenche a natureza erótica das mulheres; pornografia diz que mulheres são coisas que homens usam.

Também: pornografia diz que mulheres são putas, vaginas, por
nografia diz que os pornógrafos definem as mulheres; pornografia diz que homens definem as mulheres; pornografia diz que mulheres são o que os homens querem que as mulheres sejam.

Também: pornografia mostra as mulheres como partes de corpo, como genitais, fendas vaginais, mamilos, nádegas, lábios, feridas abertas, pedaços.

Também: pornografia usa mulheres reais.

Também: pornografia é uma indústria que compra e vende mulheres.

Também: a pornografia estabelece o estandarte para a sexualidade feminina, para os valores sexuais fem
ininos, para o crescimento das meninas, para o crescimento dos meninos, estimulado pela propaganda, filmes, vídeos, artes visuais, arte fina e literatura, música com palavras.

Também: a aceitação da pornografia significa o declínio das éticas feministas e o abandono das políticas feministas; a aceitação da pornografia significa que as feministas abandonaram as mulheres.

Também: pornografia reforça os direitos dos homens sobre as mulheres por fazer o ambiente externo fora da casa mais perigoso, ameaçador, pornografia reforça o direito do marido sobre a mulher por fazer o ambiente doméstico mais perigoso, mais arriscado.


Também: pornografia torna a mulher em objetos e conveniências; pornografia perpetua o status de objeto das mulheres; pornografia perpetua as divisões de auto-derrota entre as mulheres por perpetuar o status objetal da mulher;pornografia perpetua a baixa auto-estima da mulher por perpetuar o status de objeto da mulher; pornografia perpetua a descrença da mulher pela mulher por perpetuar o status de objeto da mulher; pornografia perpetua a dessignificação e degradação da inteligência e criatividade da mulher por perpetuar o status de objeto da mulher.

Também: violência contra a mulher é usada na pornografia e pornografia encouraja e promove violência contra as mulheres como uma classe;

Pornografia desumaniza a mulher usada na pornografia e pornografia contribui para e promove a desumanização de todas as mulheres; pornografia explora a mulher usada na pornografia e acelera e promove a exploração sexual e econômica da mulher como uma classe.

Também: pornografia é feita por ho
mens que sancionam, usam, celebram e promovem violência contra mulher.

Também: pornografia explora crianças de ambos os sexos, especialmente garotas, e encoraja violência contra crianças, e faz violência às crianças.

Também: pornografia usa ra
cismo e anti-semitismo para promover provocação sexual; pornografia promove hostilidade racial por promover a degradação racial como ´sexy´, pornografia romantiza os campos de concentração e de plantação, os nazistas e os proprietários de escravos ;pornografia explora os estereótipos de comportamentos raciais para promover excitação sexual; pornografia celebra obsessões sexuais racistas.

Também: pornografia nubla a consciência, a faz mais brutalizada para a crueldade, para a inflinção de dor, para violência contra pessoas, para a humilhação e degradação de pessoas, para as mulheres e crianças abusadas.


Também: a pornografia nos deixa sem futuro; pornografia nos depriva de esperança de dignidade; pornografia desenvolve a diminuição do nosso valor humano numa sociedade e nossos potenciais humanos de fato; pornografia esquece a auto-determinação sexual das mulheres e das crianças, pornografia nos usa e nos descarta fora; pornografia aniquila nossa chance de liberdade.

(tradução por veggie grrrl, reportem os erros se possivel)

montagem acima, autoria de Tresa Sousa
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Manifesto Antipornografia

por Pedro Brasiliense


Um costume cultural que parece que está se transformando é o da iniciação sexual dos meninos. Se antes os moços eram levados a um lugar de prostituição, hoje lhes são dadas revistas pornográficas.

Se antes a experiência era com uma pessoa real, no caso da iniciação sexual masculina em uma zona de meretrício, em que havia a CHANCE de se perceber o ambiente em que se dava a prostituição, a situação de vida, os temores das mulheres naquela situalção, da dúvida sobre salubridade do negócio, com a pornografia isso é impossível -não são pessoas. Nem mesmo as conhecidas.

A pornografia me parece ser um instrumento poderoso de brutalização das pessoas e suas relações. Por brutalização eu entendo a destruição da sensibilidade, sobretudo ao que é suave e espontâneo. E a fome, a repressão militar, prostituição, e a pornografia midiática massiva como uma versão moderna de prostituição em série são as formas de repressão e brutalização centrais sem as quais o Sistema Patriarcal Capitalista Imperialista não se sustentaria. Para que aceitemos ser dominad=s, para que sejamos simplesmente ordenad=s a qualquer coisa, especialmente as injustas, sem ter a natural reação de resistência, é preciso que nos sintamos doentes, fracos, incapazes ou simplesmente que achemos natural sofrer injustiça e violência contra o que nos é belo ou importante, contra o que acreditamos, contra o que somos e queremos ser e construir.


E o alvo da pornografia é a sexualidade. A sexualidade nos constitui enquanto humanos. Nossa mente se construiu com o surgimento da sexualidade, e a sexualidade é o ponto central da nossa saúde mental e afetiva. Com certeza a sexualidade está totalmente relacionada à afetividade. E o sexo é a mais próxima, mais profunda e mais íntima relação entre duas pessoas. É um contato mais aprofundado entre essas duas pessoas, e com certeza é um contato distante de todas as outras. Um momento sagrado de uma relação mágica, onde duas pessoas podem se conhecer, sozinhas, e conhecer o que mais há de humano uma na outra e em si. E a pornografia interfere diretamente nesse contato, na forma com que nós vemos esse contato e na forma com que praticamos esse contato. Pro bem?

A pornografia interfere na maneira de uma pessoa perceber o sexo. Ela estimula uma relação de mão única com o objeto do desejo, admiração e satisfação, e estimula uma relação de uma pessoa (a que está vendo a pornografia) com uma idéia, um ente com quem não se trava relações, só se obtem satisfações. Esse ente, o objeto do desejo e satisfação é manipulado como o observador bem - ou mal - entender. A pornografia possibilita que uma pessoa possa dedicar ao objeto de seu desejo pensamentos recriminados ou considerados negativos por si mesma, sem em nenhum momento ter resposta negativa a essas idéias, ou resposta alguma. Consequentemente, a pornografia constrói a noção de que essa pessoa possa dedicar sentimentos, idéias e até atos negativos ao objeto de seu desejo sem que haja uma resposta negativa, ou mesmo uma privação da satisfação de seu desejo e ansiedade. Com certeza alimenta uma forma de se relacionar com o objeto de desejos como se fosse um objeto. Com certeza é um treinamento para estupros. Com certeza é condição de possibilidade de que se veja a sexualidade, e sobretudo o sexo como algo ruim, negativo, violento, sujo, pervertido.
Assim, a pornografia estimula uma relação monológica (mono - um, de mão única), eu-isso de uma pessoa com o objeto de seu desejo, admiração e satisfação, e condiciona então essa pessoa a só obter satisfação de objetos, que só sofrem ações, ao contrário de sujeitos, que recebem e praticam ações - a mágica da relação entre duas pessoas.

A pornografia transforma quem a consome em um eterno espectador, e espectador de sua própria sexualidade. Uma pessoa muito contaminada por exposição à pornografia só consegue sentir prazer com o observar, e acaba ficando incapaz de agir, porque não se troca nada com objetos.

A pornografia estimula o egoísmo e o egocentrismo, estimulando o não amadurecimento emocional das pessoas, fazendo com que sempre vejam os outros como objetos, como coisas, que devem satisfazer suas ansiedades e desejos. A pornografia cria um exército de vouyers, que só têm prazer em assistir ou imaginar serem assistidos. A pornografia destrói então todo o contato genuíno, real entre duas pessoas. A pornografia causa a superficialização das relações, porque nunca se aprofundarão - para ver uma árvore com muita proximidade e intimidade, perde-se de vista a floresta. Mas ao conhecer um pouco sobre aquela árvore, mais intimidade e proximidade com a floresta inteira.


Agora eu pergunto! O que é pornografia?

Tudo o que nos faz viver nossos desejos por meio de outros, especialmente se muitas outras pessoas tiverem acesso a essa mesma experiência. É a uniformização da vivência.

O Big Brother é pornografia. As propagandas são pornografia! Os outdoors são pornografia! Não há escapatória ao falo do Grande Irmão.

Fuja! Negue os prazeres do Falo! Transformemos nossos corpos em materiais artísticos de prazer e felicidade! O corpo do homem e o da mulher são paraísos a serem experimentados. E você pode viver isso com a pessoa mais próxima de você.

Pedro Brasiliense


Notas

[1] O Falo é um símbolo do que representa o poder dos homens na sociedade patriarcal. Não se refere ao pênis, e sim à idéia que se construiu de poder em cima dele.

[2] A sexualidade é direcionada ao consumo pelo Capitalismo Imperialista. Quanto menos as pessoas tiverem relações reais umas com as outras, e quanto menos elas tiverem satisfação e realização com a relações reais com outras pessoas, mais elas vão direcionar a satisfação dos desejos para compensações sensoriais - orais, táteis, olfativas, visuais, auditivas - e suas frustrações para o consumo, e mais vão direcionar toda o irrefreável desejo de viver (e consequentemente o de resistir também) a desempenhar o papel social, ao trabalho e ao consumo.



Teses
Propostas de teses.

por Pedro Brasiliense

- A pornografia é um elemento fundamental, e um dos principais, para o funcionamento do sistema Patriarcal Capitalista Imperialista.

- A pornografia transcende o imperialismo cultural. A pornografia contamina todas as esferas relacionais na sociedade, por atingir, contaminar e i
mpregnar a sexualidade, eixo nevrálgico, essecial e formador do ser humano.

- A pornografia midiática massiva atinge diretamente e indiretamente TODAS as pessoas que vivem nas sociedades urbanas sob influência do imperialismo capitalista.

- A pornografia é deliberadamente, propositadamente, intencionalmente ou capciosamente exposta o mais cedo possível para homens e mulheres em formação de sua sexualidade e afetividade, sua maneira de ver o mundo, as pessoas e as relações entre elas.

- A pornografia promove a prostituição, a violência doméstica, o estupro, as doenças da sexualidade, a brutalização de relações, a assimilação da opressão, a assimilação da cultura do opressor, a assimilação do papel do oprimido.

- A pornografia ultrapassa os limites da sexualidade e atinge todas as esferas do corpo da mente e da afetividade.

- A pornografia não promove a sexualidade, a contamina, infecciona, degrada.

- A pornografia deve ser combatida por tod=s que combatem ou querem combater a brutalidade, a violência, a opressão e a mercantilização de absolutamente tudo, principalmente o que nos torna humanos.
(*imagem: intervenção do ACLU - always causing legal unrest, um sex shop indo aos ares)
VEJAM COM SEUS PRÓPRIOS OLHOS:
(expressamente impróprio para menores de 18
se você quiser ver e contaminar sua saúde sexual
e mental é de sua inteira responsabilidade)

Trecho de O Feminismo: abordagem histórica

O Feminismo: uma abordagem histórica – Andrée Michel

Cap 6 - MOVIMENTOS FEMINISTAS

E A CONSDIÇÃO DAS MULHERES NO SÉCULO XX

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No começo do século XX, inúmeros temas desenvolvidos desde a Idade Média, implantaram-se na consciência feminista ocidental:

- A idéia, expressa na França no século XIV (Christine de Pisan) e na Inglaterra nos séculos XVII (Marie Astell) e XVII (Mary Woolstonecraft), de que as diferenças entre homens e mulheres provém não da natureza, mas da educação diferente concedida aos dois sexos, e de que o acesso às meninas à instrução deve prepará-las para assumir todos os papeia proibidos pela sociedade.

- O protesto contra a “morte civil” da mulher na família e sua exclusão das funções econômicas e políticas no século XVI na França (Loise Gabbé e Marie de Gournay), no século XVII na Holanda com Anna Marie Van Schurman e na Inglaterra com a duquesa de Newcastle, no século XVIII na França, antes e durante a Revolução, pelas mulheres das classes abastadas dos meios populares e no século XIX pela maioria das feministas do Ocidente.

- A recusa da dupla moral sexual no século XVII pelas inglesas (Mary Tattle e Joan Hit-Him-Home) e no século XIX pelas saint-simonianas e pelas feministas do ICW (Internacional Council of Women)

- A idéia da inglesa Anna Wheeler e da norte-americana Margaret Fuller de que a libertação das mulheres só podia ser realizada pelas próprias mulheres.

- O direito da mulher ao prazer fora do casamento, reivindicando no século XIX por Clarie Demar e pelas saint-simonianas.

- A idéias das francesas do começo do século XIX (Flora Tristan, Jeanne Deroin e suas amigas) segundo a qual a libertação das mulheres é inseparável da libertação de todos os trabalhadores. 67

- A ligação estabelecida nas Associações filantrópicas e religiosas no começo do século XIX e nas associações feministas do final do século XIX entre as lutas em prol das mulheres e as lutas pela paz.

- A crença das mulheres revolucionárias enunciadas por André Leo (em 1870) de que o fracasso da democracia existe “porque os democratas nunca levaram em consideração as mulheres.” (grifo meu)

- A necessidade das mulheres ampliarem suas lutas e nelas incluírem as necessidades de toda sociedade, idéia formulada por Jane Addams e pelas feministas do ICW.

Essas idéias articularam-se com práticas inovadoras, resistências e revoltas de inúmeras rainhas, princesas, burguesas plebéias, camponesas, operárias, escritoras, artistas, cientistas que, através dos séculos, superaram graças a uma excepcional tenacidade, as temíveis barreiras , colocadas a seu sexo para impor-se na vida política, econômica, militar, religiosas, artística ou científica. Um silêncio total cerca essa história das mulheres em que práticas inovadoras às vezes precediam, às vezes seguiam as idéias expressas. Essa continua sendo a regra das lutas das feministas no Ocidente do começo do século XX até os dias atuais. Ainda hoje, quando o silêncio é quebrado pela grande imprensa, seja de direita ou esquerda, pelos meios de comunicação de massa, as feministas freqûentemente só têm direito a injúrias ou a uma caricatura grosseira de suas idéias e práticas. Ou então hipócritas advertências, feitas por pretensos feministas, mascaram mal o desprezo às mulheres e o secreto desejo de mantê-las submissas.

sábado, março 24, 2007

Say no to the Intercourse

´quando me relaciono com um cara agora , não sei quem ele é. Nunca sei, pode ser qualquer coisa. Isso é horrível...´ anonimo.
O intercourse é a própria repressão sexual quando, instaurada como norma, impede a realização das mulheres que negam a hegemonia do falo patriarcal...

eu pessoalmente curto penetração e acho que o aparelho genital é muito eficiente no coito intercursivo...o intercurso poderia ser experimentado como o máximo do prazer e da realização, a comunhão carnal de dois seres humanos, a estimulação recíproca e cúmulo da intimidade partilhada...mas o Patriarcado novamente estraga tudo. O pênis virou a própria incorporação da dominação. Os gestos sensuais foram impregnados da merda sadofetichista, a erotização da violência. O status quo do Falo leva a uma asfixia sexual insustentável. Na mulher se manifesta no luto da libido. Nos homens, a `impotência` (ou seja, vc não é potente, o que deveria ser: exercer o poder). O Falo é tão hegemônico que a mulher se tornou A Castrada. E essa suposta castração seria muito ampla, envolvendo aspectos diversos de sua vida. A mulher é uma impotente social, marginalizada da civilidade, por não possuir um falo. Só quem pode estuprar pode se impor e pode viver com alguma dignidade nessa selva dos animais Homens. O Homem que Tem, a mulher Não tem. Não tem o status homano. Não pode estuprar, não pode destruir, não pode matar, não pode aterrorizar. Emfim, ela não é um Homem. É uma mulher. Um homem amputado. Assim se amputou a mulher. Assim se calou. Mas seu silêncio pode ser muito mais do que resignação. Seu silêncio é o luto. Porque protesta contra a força da morte. Resguarda a memória da Vida.

Sendo o falo a própria representação do Horror desse mundo de Homens, o intercurso como castigo e veículo de dominação, o intercurso apropriado como arma política, falo como recurso bélico, a repressão sexual que corrói as mulheres é evidente: não há satisfação possível quando o intercurso só pode representar dor, desconforto, vergonha, humilhação, culpa, medo, desonra, indignidade. As mulheres heterossexuadas nessa dinâmica cultural da falonorma não estarão em pé de igualdade no desfruto do prazer no coito com um Homem...que é justamente seu inimigo. Ou parte exército do Inimigo. Ou é inimigo em si, ou é uma bucha de canhão da Falocracia. Nunca terá plena satisfação enquanto sexo significar um pertence do inimigo concedido ou forçado. O Prazer é dos homens, o prazer é emprestado. O prazer não é da mulher, o gozo é estimulação do homem. Quem come é o homem, a mulher ´dá´.

Um núcleo de resistência vem sendo o não-intercurso. No caso, a lesbianidade. A relação HOMO, homo= igual, uma relação entre iguais, com principio de igualdade, condições corpóreas e sociais iguais, o amor para a união, força e apoio. A lesbianidade vem sendo uma estratégia política fundamental dentro do feminismo pra derrubar a força do Falo e curar as chagas da opressão em nossos corpos. Um espaço onde o Homem não entra, não pertence, Não existe. Um espaço livre das hierarquias, um campo experimental de revolução e de construção de um novo mundo para nós mulheres. Um espaço onde o feminino é regra, estética, filosofia.

Assim retomamos o prazer para nós, porque sem exercicio da sexualidade, a insatisfação, serve pra direcionar a libido pro Capital e nos tornar morimbundos e obedientes. Assim a negação do prazer da mulher vem agindo, mas estamos assaltando o que é nosso. E em pleno gozo de liberdade e volúpia da revolução, derrotaremos o câncer do Patriarcado no corpo da Mãe Terra.

sexta-feira, março 23, 2007

SEXO E REVOLUÇÃO

No dia 1° de novembro de 1968, na Argentina, durante a ditadura militar
anterior (1966-1973), em uma casa de imigrantes do subúrbio de Buenos
Aires, um grupo de homossexuais trabalhadores e de classe média baixa,
em sua maioria oriundos do movimento sindical , liderados por um
comunista expulso do partido por ser homossexual, formam Nuestro Mundo, o
primeiro grupo homossexual sexopolítico da América Latina, que trabalha na
clandestinidade. Em agosto de 1971, Nuestro Mundo aproxima-se de
intelectuais de classe média e, mantendo a sua autonomia, é fundada a Frente
de Liberación homosexual (FLH).


Em 1972, é derrubada a ditadura na Argentina e é o momento do apogeu e
esplendor da FLH, que edita o seu primeiro boletim. Participam da
Frente 10 grupos autônomos, incluindo vários de cidades do interior da
Argentina. São eles: Nuestro Mundo (sindicalistas), Safo (lésbicas), Eros
(universitários), Bandera Negra (anarquistas), Emanuelle, bem como
profissionais liberais e católicos (QUÊ???????) homossexuais argentinos.

Em 1973, com o retorno da democracia na Argentina, é publicado e
difundido o texto Sexo y Revolución, provocando um grande debate nos grupos
homossexuais e na esquerda. Também é publicado Somos, publicação oficial
da FLH, e primeira revista homossexual da América Latina. Dela chegam a
ser produzidas oito edições,a última publicada em janeiro de 1976, dois
meses antes do golpe de Estado e da nova ditadura militar (1976-1983).
A partir de então, a ditadura seqüestra, desaparece e assassina
milhares de argentinos, entre eles os militantes homossexuais; aniquilando
toda possibilidade de continuidade do movimento.
Devemos começar perguntando quais fatores inerentes ao ser humano -
como espécie - criam, mantém e perpetuam a origem da dominação. Porque, se
não tivermos claros esses fatores, nos seria impossível explicar porque
os seres humanos aceitam e, muitas vezes, defendem a opressão a que são
submetidos, que os priva da saúde física e até da sua liberdade.


Sendo característica do sistema de produção capitalista a produção para
o benefício de uma classe dominante, é interesse desta classe o
estabelecimento lapidar da dominação sobre o resto dos seres humanos. Deste
modo, os indivíduos são moldados para serem dominados e/ou para dominar,
e isto se realiza através de mecanismos psicológicos específicos
poderosos; mecanismos que por fim, acabam sustentando e perpetuando essa
ordem de dominação. O importante é então, discernir os vínculos existentes
entre a estrutura da exploração (extração de mais-valia) e a ideologia
cotidiana que envolve cada um desses atos individuais, por mínimos que
sejam. O propósito, o sentido e o eixo do sistema de exploração é
assegurar a exploração da força de trabalho em benefício de uma classe.
Todos os atos de todos os indivíduos estão dirigidos rumo a esse fim
supremo. Nenhuma área de comportamento individual pode escapar a esta
supradeterminação, caso contrário, o indivíduo seria livre para questionar o
sistema de dominação. É por isso que todos os atos privados e todos os
ator coletivos acabam por serem ator que cumprem uma função política.
Todo ser humano enfrenta, a partir de seu nascimento, um primeiro
grupo: a família. O que significa família? Para um ser como o humano, cujo
período de aprendizagem é o mais longo na escala biológica, faz-se
necessária uma agência social especificamente encarregada de orientá-lo,
ajudá-lo e mantê-lo nesse processo. Isto significa que a família é uma
fábrica de seres humanos sociais. Ora bem, na medida em que um grupo
social alicerçado na exploração necessita de pessoas pré-adaptadas para
entrar no processo de produção alienada, a família, mantenedora, deve
converter-se em uma agência deformadora. Trata-se de uma micro-sociedade que
reproduz em amálgama o sistema que a nutre.

A velha afirmação de que "A família é a base da sociedade" adquire plena validade, uma vez que reproduz todas as suas características, visto que é agência de produção detses seres humanos condicionados ao sistema.

Em uma família-pradão há um detentor do poder, o macho, na medida em
que manipula o poder econômico na família, o poder político na sociedade,
manipula por direito próprio o sistema de relações sociais. O objeto de
sua dominação é, em primeiro lugar, a mulher, e em segundo lugar, os
filhos, que são o produto-mercadoria da fábrica familiar. A finalidade da
família é produzir seres humanos que substituam os seus progenitores em
suas tarefas, inculcando-lhes antes os mecanismos de dominação para que
as realizem sem protesto. Desta maneira se verifica e assegura neste
nível, do mesmo modo que nas outras escalas da vida social, a dicotomia
opressores/oprimidos.


Esta dominação não é só uma questão teórica abstrata, mas que, como já
dissemos, orienta todos os atos cotidianos. Revela-se essencialmente no
poder sexual do macho sobre a fêmea no coito. O coito torna-se uma
instituição estruturada culturalmente para a satisfação do varão, que detém
toda a iniciativa, e que possui o direito legítimo de gozar. Esta
dominação no coito é em última instância, no terreno ideológico, a
manifestação objetiva da dominação da mulher pelo varão na vida cotidiana. Deste
modo a mulher torna-se um objeto de prazer e de reprodução. É
necessário destacar que o sistema lhe impõe a obrigação de realizar as tarefas
domésticas sem dar-lhe o direito a nenhuma remuneração, o que desmascara
a sua verdadeira condição: a escravidão doméstica. A inserção das
mulheres no aparato produtivo minou, relativamente, a autoridade do macho e
inspirou exigências às mulheres. Contudo, as conquistas alcançadas
pelas mulheres não conseguiram alterar - até o momento - a essência do
sistema de dominação machista.



De fato, os varões seguem manipulando as
engrenagens básicas do processo de produção, e continuam desempenhando o papel de Protagonista no sexo. O núcleo de opressão da mulher, segue assim intacto.
Esta dupla dominação, na qual a nova igualdade é um blefe, se reproduz, tem filhos, e se forma para isto. Os filhos são os objetos da dominação paternal. O pai que controla o dinheiro, possui concomitantemente o poder de emitir ordens inapeláveis, abonado pela ideologia falaciosa de que o filho é um incapaz crônico, sem poder, nem direito de escolher seus
atos. É um objeto de possessão de seus pais, situação sancionada pelo conceito jurídico de pátrio poder. A sexualidade infantil é negada pela ideologia do sistema; na medida em que, sem dúvida ela existe objetivamente, esta negação funciona na prática como uma mutilação. Com é
realmente a sexualidade infantil? A sexualidade infantil mostra a variedade de impulsos e diversidade de objetos que formam a libido humana, e neste sentido, é a face mais autêntica da vida. A realidade é que na sexualidade, na multiplicidade, na riqueza de suas potencialidades, está o
primeiro vislumbre de liberdade que encontramos na natureza. E é este enorme caudal de energia potencial da libido que deve ser desviado em direção a meta social do trabalho alienado. A castração da sexualidade tem como objetivo introduzir a dominação característica do sistema na própria
mente, em sua intimidade, a fim de "amolecer" o ser humano em terreno fértil para a ideologia do sistema. Um ser humano que permita que seus impulsos sexuais sejam objeto de dominação está preparado para adotar, sem estranheza, o papel de dominador e/ou dominado. No sistema de
castas, os varões são educados na dominação, e as mulheres na submissão.


O indivíduo internaliza os mesmos papéis que encontra na família: será o
pai opressor se é macho, ou a mãe submissa se é fêmea. A figura
autoritária é reproduzida portanto na figura da polícia, do patrão, do Estado,
mantenedoras do sistema frente as quais os indivíduos se inclinarão como
frente ao pai. Sendo assim, o esquema de dominação é transmitido
fielmente ao indivíduo através da família.
A dominação da libido culmina com sua redução a determinadas partes do corpo, os genitais. Na realidade, todo o corpo é capaz de aportar o gozo sexual, mas a sociedade de dominação necessita da maior quantidade de zonas do corpo possíveis para agregá-las ao trabalho. A genitalização está destinada a tirar do corpo sua função de reprodutor de prazer para convertê-lo em instrumento de produção alienada, deixando a sexualidade só o indispensável para reprodução. É por isso que o sistema condena com especial severidade todas as formas de atividade sexual que não sejam a introdução do pênis na vagina, chamando-as "perversões", desvios patológicos etc. Para agrilhoar o ser humano ao trabalho alienado é necessário mutilá-lo reduzindo sua sexualidade ao genitais. Devemos lembrar
que estes processos se dão dentro de um universo socioeconômico específico caracterizado pela exploração. As classes dominantes realizam um manejo muito particular de um processo universal inerente ao ser humano como espécie: a livre disposição da energia sexual e seus fins.
Este esquema sexual perdeu sua rigidez característica do século 19, e isto não é casual. Na medida em que o capitalismo se desgasta, à custa
de suas próprias contradições internas, revelam-se suas bases da miséria econômica e sexual. Mas, na medida em que as necessidades de liberdade
não estão integradas a uma proposição revolucionárias explícita, é o mesmo sistema único que lhes dá respostas, mantendo as mesmas bases da opressão sexual mas oferecendo satisfações ilusórias ou substitutivas.


Assim, por exemplo, como resposta a estas exigências, o sistema produz e
encampa uma florescente indústria pornográfica, que transforma o
sujeito em espectador de suas próprias fantasias sexuais, em lugar de
converter-se em feliz ator das fantasias. A quem beneficia a preservação das
pautas morais tradicionais? As classes dominantes,as que asseguram assim
que os indivíduos submetidos a seu império sofrerão um processo de
socialização ("a educação") destinado a proporcionar-lhes, de forma
contínua, empregados dóceis.
Mas esta não é totalidade do sistema de opressão machista. Aqueles
indivíduos que não cumprem o papel sexual estabelecido, os homossexuais,
são tidos como grande perigo por este sistema, na medida em que não só o
desafiam, mas que também desmentem suas pretensões de identificarem-se
com a ordem da Natureza. A dessexualização do corpo humano é obra da
cultura. No caso do varão, ela interdita o coito anal passivo, a
utilização do ânus como zona sexual, apesar do fato dele estar rodeado de
terminações nervosas eróticas. Também são um grande tabu os mamilos
masculinos, apesar de ser área herógena, apenas por sua semelhança com a
anatomia feminina. Para isso é necessário importar categorias teológicas à
sexualidade humana, e é neste intento que devemos ver a enfermidade da
cultura. Se o sexo tem alguma função, é a de unir os seres humanos em
formas constantemente renovadas e criativas. O contrário significa reduzir o sexo em uma só de suas possibilidades: a reprodução. É por isso que a cultura machista necessita qualificar os homossexuais de "degenerados", "doentes", "anormais", e "delinqüentes". Na realidade, os homossexuais reivindicam as possibilidades plásticas inerentes à libido humana, que o sistema de dominação sexista insiste em mutilar. E o processo de socialização alienada que introduz a separação entre o bom e o mal, a culpa e a consciência.


Esta divisão desigual de poder sexual em favor dos
varões heterossexuais se reflete em uma poderosa ideologia: aqueles que
violam suas leis - algumas escritas, outras não, mas totalmente efetivas
e vigentes - recebem não só uma sanção moral que seria a culpa, como
também são penalizados pelo aparato do Estado.
Os homossexuais são emissários da repressão sexual, sobre os quais
recaem os castigos mais severos e imediatos. A Frente de Liberación
Homosexual considera que é chegado o momento de propor e começar a realizar
uma revolução que, simultaneamente com as bases econômicas e políticas do
sistema, liquide suas bases ideológicas sexistas, tendo em conta que,
do contrário, o sistema de opressão se reproduzirá automaticamente
depois de um processo revolucionário que só altere as esferas políticas e
econômicas. Nosso movimento surge como uma organização de homossexuais,
de ambos os sexos, que não estão dispostos a seguir suportando uma
situação de marginalização e perseguição pelo simples fato de exercer uma
das formas de sexualidade. Como temos pretendido demonstrar, esta
perseguição tem uma raiz claramente política. O sexo é uma questão política. E
nesta, medida,a liberação que postulamos não pode ter lugar dentro de
um sistema econômico de dominação, tal como é o capitalismo dependente
argentino. Mas, partindo de nossa própria marginalização, questionamos a
partir dela, a sociedade sexista, e chegamos a um questionamento global
da sociedade. Os homossexuais são um setor do povo que sofre uma forma
de repressão discriminada e específica, originada nos interesses mesmos
do sistema, e internalizada pela maioria da população, inclusive por
alguns setores que se pretendem revolucionários.


Neste sentido, permanecem intactas muitas formas de preconceito
anti-homossexual (homofobia), disfarçados, por vezes de críticas políticas.
Por exemplo, se coloca o título de objeção que a homossexualidade é
produto do capitalismo decadente. Sem dúvida, sociedades que não eram capitalistas nem decadentes, como a Inca o praticavam e o louvavam. Temos visto além disso, que a libido humana original não despreza nenhuma das suas possibilidades. Por detrás desta colocação se esconde a incapacidade de formular uma ordem nova, uma cotidianidade verdadeiramente revolucionária.
Outra objeção é que a FLH é um movimento sectário, na medida em que não
se integra aos movimentos de liberação política. A razão é muito
simples:a nós, como a todos os marginalizados, não iremos defender nada,
salvo a nós mesmos. Na verdade, o argumento é uma falácia: de fato aqueles
que nos marginalizam são eles. Algumas colocações tendem a considerar
como contraditório o fato de que, enquanto postulamos a liberação
sexual, nos organizemos como um grupo de homossexuais. Fazê-lo de outro modo
significa dissolver nossa opressão específica, esquecendo que sobre nós
pesa uma condenação explícita. Os oprimidos especificamente pelo
sexismo do seio da sociedade capitalista somos nós, os homossexuais e as
mulheres, e os varões heterossexuais adquirem objetivamente, socialmente
falando, o caráter de grupo opressor. Sendo assim, este caráter de
opressores não é eleito livremente por eles, mas lhe é culturalmente importo
pela sociedade de dominação. Existe uma evidente defasagem entre a
política como atividade externa, social, e a política como atividade
privada, individual, interna. A ideologia não é só uma superestrutura
intelectual montada sobre as bases afetivas do ser humano, estas bases estão
estruturadas em um sentido político, a partir do berço, pela sociedade
em que o indivíduo nasce.


A política é algo que se exerce em todos os
movimentos da vida cotidiana e que transparece em todas as escolhas, por
ínfimas que sejam.
Também por isso o questionamento revolucionário da sociedade de
dominação deve estender-se a todas a suas esferas de atividades. Um práxis
revolucionária que não coloque em juízo de valor a moral burguesa, está
aceitando-a objetivamente e perpetua por um lado o que pretende destruir
pelo outro.A desintegração da vida privada e a ação política
possibilita, além do mais, que muitas pessoas, depois de longos períodos de
militância, sejam recapturadas pela burguesia através da formação de uma
família, da construção de um "lar" e da criação dos filhos. A FLH é uma
organização não verticalista nem centralista de homossexuais - e na qual
também podem participar heterossexuais que renunciem seus privilégios -
que se empenha na tarefa de integrar as reivindicações específicas do
setor homossexual ao processo revolucionário global. É um movimento
anti-capitalista, anti-imperalista e anti-autoritário, cuja contribuição
pretende ser o resgate para a liberação de uma das áreas através das
quais são possibilitadas e sustentadas a dominação da mulher e do homem
pelo homem.

Estamos conscientes que o sistema maneja amplos setores do povo
valendo-se da moral, ou seja, de mentiras interessadas. Estamos conscientes de
que o povo abandonará seus preconceitos, que constituem uma trava
concreta para o desenvolvimento revolucionário, na medida que nós, os
homossexuais, tomemos parte ativa e militante de uma luta que também é nossa.
Chamamos aos homossexuais, às mulheres, aos verdadeiros revolucionários
a realizar o esforço que supões questionar as pautas originais do
sistema de exploração, a fim de que recuperemos a nós mesmos como atores
eficientes de uma revolução sem retrocesso.


Enrique Asis, participante da Frente de Liberación Homosexual (Argentina), foi escrito entre 1973 e 1974.


"Tome partido. Neutralidade ajuda o opressor, nunca a vítima.

Silêncio encoraja o torturador, nunca o torturado."
Elie Wiesel

porno-facismo: a pornografia como educação para a guerra

***CENAS CHOCANTES***


Fotos dos abusos estadunidenses no iraque, primeiras exposições são fotos de estupros. Clique aqui para ver.


conversa minha no msn:





y diz:
aquele link que você passou dos soldados estuprando as iraquianas
tiraram fotos... eles não estavam estuprando ali entre eles
mas para a câmera
na relação eu estou com o cara ou com uma câmera na minha cabeça


x diz:
sei
é o modelo da pornografia

y diz:
mas o q quero dizer é que tipo há sempre um terceiro participante


x diz:
no capitalismo você vira expectador das suas fantasias (se eh q aquilo pode ser chamado de fantasia)

y diz:
um olho aí

x diz:
é o terceiro significa
a coisa
o outro ...nesse caso nem pra chamar de outro
como conseguiu olhar aquelas fotos? aquilo me faz um mal psicológico...

y diz:
acho tão mecânico
claro q não para a mulher q estava ali


x diz:
a pornografia esvaziou
sim mas pro cara
nesse sistema subsiste se a coisa for tornada autômata
tipo os caras matando os bichos
nos abatedouros
os soldados na guerra
pra mim eh a mesma coisa, educam-nos pra guerra e começa pelo paladar, como a capa do album meat is murder do smiths, um soldado com o capacete escrito meat is murder.

y diz:


eu iria ficar muito mais perturbado se eles fizessem aquilo sem ser para a câmera, sabe?
ia ser real aí

x diz:
de fato, uma virtualização das vidas e das ações
e das pessoas e principalmente do outro
das relações


................................................................................................................


''Sabe, no fundo eu sou um sentimental
Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dose de lirismo
Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar,

trucidar
Meu coração fecha aos olhos e sinceramente chora...''


''Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto
De tal maneira que, depois de feito
Desencontrado, eu mesmo me contesto


Se trago as mãos distantes do meu peito
É que há distância entre intencão e gesto
E se o meu coração nas mãos estreito
Me assombra a súbita impressão de incesto

Quando me encontro no calor da luta
Ostento a aguda empunhadura à proa
Mas o meu peito se desabotoa

E se a sentença se anuncia bruta
Mais que depressa a mão cega executa
Pois que senão o coração perdoa''

(chico buarque)
...................................................................................................................................................................
Mas pra mim o mais curioso é que qualquer semelhança com a pornografia não é mera coincidência.

E ainda tem quem fale que pornografia não estimula o ódio contra a mulher, sua utilitaridade física, seu esvaziamento de significação, a legitimação da necessidade do estupro pelos homens [porque eles são uns animais famintos, é isso que a pornografia quer fazer pensar], a levianização do uso sexual de uma pessoa [se o cara usa uma impressão gráfica de uma mulher que foi usada na frente de uma lente, porque não usaria um modelo real?? aliás esse modelo real vira virtual, porque educados na virtualidade do outro, os homens não sabem mais ter empatia e perceber que o outro não é uma coisa, mas uma pessoa, nem tem referenciais de realidade e principalmente: a pornografia vem a ser a educação sexual que o garoto leva e referencial de sexualidade], a esvaziação do ato sexual em si, a instauração do império falocrático da relação monológica e unilateral, segura.

O capitalismo só sobrevive graças a estrategia da alienação dos individuos, de sua separação no processo produtivo. Dividir para dominar. Estamos alienados dos processos totais de produção. Chega um bife na sua mesa como se fosse algo abstrato, não se sabe de onde veio. A guerra fica distante. Fica nos campos, na periferia, nos terceiros mundos, no iraque, na sala de produção de filmes pornográficos, nas fábricas, no silêncio da História.


Logo o Capitalismo só subsiste se as pessoas NÃO se relacionarem. As relações humanas estão cada vez mais virtualizadas, cada vez mais pausterizadas, nossas sensibilidades estão cada vez mais brutalizadas, e nossa acuidade crítica restringida. Cada vez mais voltados para o nosso núcleo individualizante produtivo, células
isoladas de uma grande máquina de morte.

A guerra só vem se tornando possivel graças a um treinamento militar fascista que TODOS sem exceção recebemos. Cada vez mais os campos de batalha são ascépticos, o soldado é um profissional num tanque de guerra, olhando pelo visor, o cenário mais lembra um video game.

O piloto do caça, olhando as figuras pequenas lá embaixo, depois vemdo uma grande explosão, aquilo não chega a sua percepção. Aquilo não é real. Parece uma cena de filme holiwoodiano, parece um game de guerra. Só ele é pessoa. Só estadunidenses brancos são pessoas.

Animais não são pessoas.
Eu não tenho nada haver com isso.
Esse é meu dever.

Eu como a carne, como se isso não tivesse nada haver comigo. É o que tá aí. É o que é normal. A guerra é normal. Matar é normal. Estuprar eh normal. Pornografia é normal. Não sómente são normais, como tb é bom. É conveniente. Omissão.

O ser humano se torna abstrato, o que é sólido desmancha no ar, nada mais é real. Tudo é entretenimento. Pornografia é entretenimento. Estupro é entreternimento. Estupro é profissão. Estupro é guerra. Guerra é entretenimento, é estética, estupro é tática militar, pornografia é tática militar.


Estupro para me afirmar. Os homens temem a vagina, que lembra a ameaça castradora de reengolfamento da vagina de sua mãe. Homens se fazem homens com a rotina da penetração compulsiva, porque precisam estar sempre enfrentando aquilo que os amedontra e que pode retirá-los de seu estatus de macho. Toda vez que entra seu penis na vagina, e termina o trabalho, ele sai vitorioso. Mais uma batalha ganha. Fecha os olhos e estupra. A rotina da casa dos homens, a ritualização em memória a iniciação na casa dos homens, onde enfrentam o medo e são afastados da mãe, pra poderem se tornam homem.

Os homens são afastados de TODAS as mulheres num ritual existente na sociedade toda, afastados com frequencia. Afastados do real. Pra poderem se insensibilizar e poder matar. Matar eh a forma como afirmam-se a forma como afastam o medo. O medo que os torna força de trabalho [de guerra] improdutiva. Afastados, distanciados em sensibilidade ao outro. O outro se torna um em-si objetal, algo que não responde, inanimado. A unica existência que existe é a minha, imponente, sem outras existências que me ameace. A segurança do egocentrismo.

O mundo tornado assim, no processo de alienação que separa todo mundo de tudo e até de si mesmos, estuprar se torna mecanico e normativo. É tão simples, tão rotineiro, qto se masturbar. A dor do outro é apagada, ignora-se. Ignoro o que está por trás do bife no meu prato, pois preciso comer, e as coisas são assim. Ignoro a criança jogada na rua, as crianças se prostituindo, a guerra no terceiro mundo, a fome de milhões.

Ignoro pra sobreviver. Insensibilizo-me pra subsistir.
Insensibiliza-se pra que esse sistema subsista.
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Em 25 de abril, é o dia de nos lembrarmos das mulheres violentadas em todas as guerras

A maneira convencional de "lembrar-se" de alguém ou de algo seria fazer um momento de silêncio, mas, em vez disso, optamos por falar abertamente sobre o assunto. Nos recusamos a ser silenciadas.

Pelas mulheres violentadas na mitologia, nas lendas e na literatura - as vítimas dos heróis estupradores da cultura ocidental: Zeus, os Cavaleiros da Távola Redonda, Jack o estripador, etc. ad nauseum; Pelas dezenas de milhares de mulheres violentadas pelas forças japonesas em Nanking, China 1937; Pelas mulheres judias violentadas pelos facistas; Pelas centenas de milhares de mulheres violentadas quando as forças aliadas "libertaram" Berlim; Pelas centenas de milhares de mulheres bengali violentadas durante a guerra de "independência" do Paquistão; Pelas mulheres violentadas pelas tropas Norte-americanas na Coréia e no Vietnã. Pela menina de 12 anos violentada pelos soldados norte-americanos em Okinawa, Japão; Pelas mulheres violentadas durante o genocídio de 1994 em Ruanda e que agora estão morrendo de Aids; Pelas dezenas de milhares de mulheres violentadas na Bósnia-Herzegovina, onde “campos de esturpo” aprisionavam quase 3 mil mulheres de cada vez como parte da campanha de limpeza étnica; Pelas mulheres violentadas em todas as guerras; Pelas mulheres violentadas durante os tempos de “paz”; Pelas mulheres que não puderam, não poderão e não podem contar suas histórias.

Denunciamos a ira, a violência e a dominação sobre cada mulher. Denunciamos as forças do patriarcado que usam o corpo das mulheres como campos de batalha do poder e da destruição. Não somos “homentropas”.
O estupro não é revolucionário – é a mais antiga tática do patriarcado.

Não é uma “ideologia vitimista” que nos faz parar para honrar as mulheres neste dia. Somos mulheres fortes, e mulheres fortes sorriem, mulheres fortes choram, mulheres fortes gritam, mulheres fortes sussurram, mulheres fortes se entregam, mulheres fortes sobrevivem, mulheres fortes morrem.

O General Patton afirmou o seguinte em suas memórias: “Então eu disse a eles que, em vez de meus esforços mais diligentes, deveria haver inquestionavelmente alguns estupros”. Conforme escreveu Susan Brownmiller em Against Our Will (Contra Nossa Vontade), é engraçado a atitude de um homem em relação ao estupro na guerra. Ele estupra porque a mulher é em si um inimigo do que ele deseja humilhar e aniquilar. Ele estupra porque a aquisição do corpo feminino significa um pedaço do território conquistado. Ele estupra para descontar em alguém a humilhação que sofreu. Ele estupra para se livrar dos seus medos. Ele estupra porque isso é apenas “se divertir” com os amigos. Ele estupra porque a guerra [revolução?], um negócio dos homens, despertou sua agressividade e ele a direciona àqueles que desempenham um papel de subordinação no mundo da guerra [revolução?].

Esta guerra não é “nossa”. Recusamos a “revolução” de nossos “irmãos”!


Assim como as mulheres não consentem com a violação de seu corpo, não consentimos com a penetração deles em nosso movimento.

Temos o direito de fazer valer nossos direitos ousadamente como feministas militantes na luta pela libertação de todas as formas de dominação e exploração. Em todo o globo e mesmo aqui, exigimos que a opressão da mulher esteja na linha de frente da agenda revolucionária. Pois não é algo extremado proclamar que tem havido uma guerra travada contra nós através dos séculos, que nos afetou das mais grotescas formas. Da caça (genocida) às bruxas ao Afeganistão atual, esta tem sido uma guerra e o alvo é o feminino como um todo.
As condições em que os ecossistemas e as culturas primitivas estão sendo destruídos no passado e no presente, a destruição das comunidades lideradas por mulheres como na Europa, a esterilização forçada de mulheres de cor na América, o estupro na Bósnia e as mulheres que são apederjadas até a morte (entre outras muitas outras formas de tortura) em arenas públicas no Afeganistão deixam muito claro o que já aconteceu e que a guerra entre nós irá continuar.

Conforme mais e mais pessoas se tornam cada vez mais militantes em sua resistência a fatos como o Capitalismo Global e o “Livre Comércio”, os vários governos e militares se tornarão cada vez mais repressivos (como já podemos notar). E com o aumento progressivo de táticas de ambos os lados, chega até nós a possibilidade de guerra. À medida que se iniciam os confrontos, mais pessoas estarão sujeitas ao aumento da gravidade das torturas e dos maus-tratos, geradores de enormes traumas e desordens de estresse pós-traumática. Atualmente não temos o conhecimento ou as habilidades necessárias para lidar com as sobreviventes do estupro e da guerra, considerando especialmente que, agora, o estupro e o abuso contra mulheres não são vistos como edêmicos e importantes o suficiente para lutar contra os homens à nossa volta.

Se não lutarmos contra a totalidade do paradigma masculino dominante, isto é, do micro para o macro, estaremos lutando meramente por uma futilidade. Exigimos que nossa realidade coletiva como mulheres não seja mais posta de lado como um obstáculo irrelevante para a Revolução. Exigimos que nossas experiências sejam vistas como a sabedoria necessária para uma revolução verdadeira e utilizável.

Em 25 de abril, é o dia de nos lembrarmos das mulheres violentadas em todas as guerras. 364 dias são muito pouco por ano...

Estes escritos são dedicados à todas as mulheres do mundo e particularmente às mulheres de Chiapas...Anarquistas ou não.

(tradução: Danielle Sales
retirado do fanzine CLÃDESTINO n.32 – ano 03 – julho 2002)
guerra contra as mulheres é uma guerra REAL

Nós temos que fazer isso parar de acontecer. Porque,de outra forma, nós aceitamos que a nossa condição é uma em que o estupro é normal. Brutalidade em torno da mulher é normal. E a questão é: como regular isso? Como faremos para reduzir isso? Talvez elas possam ir em mais jogos de hockey do que nós vamos agora. Você sabe outras saídas, distrações.

Eu estou aqui para dizer que a guerra contra as mulheres é uma guerra REAL. Ela é REAL. Não há nada de abstrato sonre isso. Não é ideológico, apesar disso incluir ideologia. E as pessoas lutam no campo das idéias, sim. Mas essa é uma guerra em que as garras estão na sua face. E isso é real. E isso é verdade. E liberdade significa que isso não acontece. Você veja, nós andamos por aí dizendo que isso não aconteceu hoje ou que isso ainda não aconteceu. Eu venho tendo certo há três meses. Ou, ah, eu achei uma boa agora. Uma muito boa: ele não me agride tanto assim. Ele pode me insultar, mas ele não me agride. E isso pode ser verdade e pode não ser. Mas a gente tem que descobrir isso logo e fazer os homens pararem de agredir as mulheres. Sobre quaisquer circunstâncias.

(Terror, Torture and Resistance - Andrea Dworkin)

terça-feira, março 13, 2007

Jeanne Hébuterne e suas irmãs: suicídio e desvairamento no Patriarcado das artes

autoretrato nu


nu





baiadera





natureza morta





a morte

La suicida




autoretrato
autoretrato
autoretrato nú


autoretrato
modigliani
modigliani

modigliani

"O Poeta se faz vidente por meio de um longo, imenso e refletido desregramento de todos os sentidos. Todas as formas de amor, de sofrimento, de loucura; ele procura ele mesmo, ele esgota nele todos os seus venenos, para só guardar as quintessências. Indizível tortura na qual ele precisa de toda a fé, de toda a força sobrehumana, onde se torna entre todos o grande doente, o grande criminoso, o grande maldito --e o supremo Sábio! --Pois ele chega ao desconhecido! Porque ele cultivou a sua alma, já rica, mais do que nenhum! Ele chega ao desconhecido, e quando, enlouquecido, ele acabaria por perder a inteligência de suas visões, ele as viu! Que ele morra no seu salto pelas coisas incríveis e inomáveis: chegarão outros horríveis trabalhadores; eles começarão pelos horizontes onde o outro se curvou!(...)Estes poetas serão! Quando será derrubada a infinita servidão da mulher, quando ela viverá para ela e por ela, o homem --até agora abominável--, tendo-a despedida, ela será poeta, ela também! A mulher descobrirá o desconhecido! Seus mundos de idéias divergirão dos nossos? Ela encontrará coisas estranhas, insondáveis, repugnantes, deliciosas; nós as teremos, nós as entenderemos.Por enquanto, vamos pedir aos poetas novidade --idéias e formas."


(Arthur Rimbaud)




Jeanne Hébuterne, digite no google, o que você encontrará?? Pinturas de Modigliani, da qual ela foi esposa e modelo para dezenas de obras.


Eis um exerto do wikipedia:


'' Jeanne Hébuterne (Paris, 6 de abril de 189825 de janeiro de 1920) foi uma pintora francesa. De família católica e conservadora, sempre foi uma bela moça e desde cedo voltada para as artes. Afiliou-se à comunidade artística em Montparnasse por seu irmão André Hébuterne(1894-1992), que queria ser pintor. Entretanto, querendo prosseguir uma carreira nas artes, e com muito talento, escolheu estudar na Academia Colarossi. Foi retratada diversas vezes por Léonard Fujita Tsuguharu(1886-1968) pintor francês de descendência japonesa. Autora de obras como "A suicida" e "A morte", de traço simples e explicativo.
Em
1917 Jeanne conheceu o pintor Amedeo Modigliani. Embora Modigliani fosse judeu e quatorze anos mais velho do que ela, era um homem muito considerado e charmoso. Começaram a se encontrar imediatamente e acabaram se apaixonando. Em 29 de novembro de 1918 dá a luz a uma menina,que recebe o mesmo nome da mãe,e é reconhecida como filha por Modigliani.

Em julho de 1919, descobre estar grávida novamente, mostrando desapontamento. É renunciada de sua família, por escolher viver com Modigliani. Logo fica comprometida de se casar com o pintor, que registrara seu nome errado no documento de matrimônio para invalidar a relação, que para ele era apenas carnal. A vida do casal não era um mar de rosas e Modigliani tinha a saúde debilitada devido a uma tuberculose mal curada e ao consumo excessivo de álcool e drogas. Ele morre no Charité de Paris no dia 24 de janeiro de 1920. Jeanne, companheira devotada e grávida de nove meses do segundo filho, sobrevive apenas uma noite, atirando-se do quinto andar do prédio onde morava.
Seu corpo foi velado e sepultado ás escondidas, pelos pais, no
cemitério de Bagneux. Sua filha foi criada pelas irmãs de Modigliani, e cresceu sem saber o que ocorrera com os pais. Apenas dez anos depois, Jeanne e seu filho que não nasceu foram transferidos para o cemitério do Père Lachaise, para descansarem ao lado de Modigliani. Seus trabalhos foram guardados por seu irmão André, a sete chaves, e apenas em 2000 foram mostrados ao público, numa exposição na Itália, com uma sala reservada apenas para obras do casal.''




Sinceramente, eu achei sua arte muito melhor que a de Modigliani. Mais expressiva, mais moderna, traços precisos, sensibilidade, dor.



Poucas obras consegui encontrar pela web, provavelmente não pintou muitas coisas, ou suas obras sumiram, ou ainda não foram reveladas ao público. Porém, tendo poucas pinturas, conseguiu dizer nelas o que um pintor-pinto precisa de uma produção de sua vida inteira.


Qual seria o motivo de ter tão escassa (não em intensidade claro) produção? Creio eu em alguns fatores: casamento, ofuscamento pelo marido, e principalmente depressão. Depressiva como tantas outras artistas. Geralmente levadas ao esgotamento psíquico pela sociedade ou por desejarem viver uma paixão com um homem, que no final das contas é como qualquer outro patriarca, que as destrói. Seja Camille Claudel, usada por Rodin e muito melhor escultora que ele, acaba se tornando louca e é internada, minguando no hospício até a morte. Em seus acessos destruiu a maior parte das obras. Hoje também é lembrada apenas como amante do Rodin, e serve de masturbação mental pra mulherzinhas idiotas que adoram ver esse papel projetado na história.


Camille Claudel, a sociedade da época a votou ao isolamento e à loucura, ela tentou sobreviver com suas esculturas. Rodin, que parecia que esculpia mais era com o pau dele teve seu período mais pleno e artistico, das maiores obras dele, aquelas mais sublimes, donde a mais famosa é a medíocre e masculinistica O Beijo, no período em que se relacionara com Camile, absorvendo seu estilo delicado e a atmosfera de afeto em igualdade de suas esculturas apaixonadas. Imitou à exaustão o estilo sublime e idílico dela, imitou as temáticas, a abordagem, muitas coisas ela afirmou que ele roubara dela. Camile foi abandonada por todos e por tudo, teve a desgraça de se apaixonar pelo imbecil, era uma mulher que queria muito mais do que seu tempo tinha-lhe a oferecer...foi ficando esquizofrenica, a sociedade cria os monstros que depois condena à morte. Ela chegou a perseguir o Rodin, acusá-lo em público, tudo que puderam dizer era que era uma louca. A vergonha da família, a devassa, a puta.

Os pais tiveram certa compreensão com ela, de ela não querer o destino de mulher, mas ela não conseguia se manter economicamente com suas esculturas (quem queria comprar obras de uma mulher naquela época? As inferiores em todas as esferas da cultura?). Total desamparo da mulher independente naquela época.

Fica por aí esses pensadores de Rodin e suas figuras ensandecidas e testosteronadas masculinistas, e um referencial feminino foi perdido. Aliás, a humanidade perdeu. Melhor alegoria do que o silencio e a escuridão reservada as mulheres condenou a nossa sociedade à pobreza de espírito. As suas esculturas mais belas foram perdidas pra sempre na estrada da História.

Tudo porque o tal escultor era um egoísta narcisista que como qualquer outro homem, usou e usurpou uma mulher para se fortalecer e se promover.

Virginia Woolf, uma feminista melancólica e lésbica que não poderia realizar sua sexualidade naquela época, foi consumida pela depressão e por fim se matou. Deixou grandes obras que felizmente receberam o conhecimento merecido. Inaugurou um estilo revolucionário na literatura, a transgressão da linguagem e das normas de escrita que viria a ser característico de mulheres escritoras como a genial Clarice Lispector. Era uma revolução contra o Patriarcado dentro da própria linguagem das artes, destruindo as noções de tempo linear e objetividade, num espaço sem regras, onde o tempo era flúido (tempo linear é invenção do Patriarcado, assim como a História, e a registrividade escrita e tudo que estereliza, antes do Patriarcado o tempo era tido como Circular, mas os homens não se satisfaziam de crer que seu destino não poderia ser obra deles, inventando também a falácia da razão, valor da filosofia que decaiu e mostrou suas consequencias na guerra, no holocausto judeu, nas histerias e neuroses, a falácia de que o ' Homem é senhor de si e seu destino' e não um mero ' animal') e a subjetividade distorcia as impressões, um espaço sem as leis da civilização, um espaço de transcendência.

Sem a arte de tais mulheres, o que seria da humanidade hoje? A barbárie e a pobreza de sempre, que aliás, ainda é, porque o pinto ainda reina como pintor do mundo.

Toda Filosofia, todas Artes, toda Literatura, Música, marcada pela limitação da mente dos homens que pensam com a cabeça do pau. Essa arte, essa cultura, essa merda, que levou a humanidade às guerras, à ascenção do Capitalismo, com seus poetinhas que cantaram a Liberdade Liberal e ajudaram a por a burguesia no trono dos monarcas, como se isso fosse mudar alguma coisa, e toda atmosfera de soberba que reinou nesses séculos das luzes com essa ciência apodrecida e seus valores toscos de individualidade, racionalidade, superioridade da espécie homana branca, corrida imperialista, tráfico de escravos, estupros maciços de meninas de 9 a 13 anos na Índia, e enterro de viúvas vivas junto de seus maridos mortos, oh como é linda a Civilização do Homem! Como são lindas as obras do Homem! Como é lindo o David de Michelangelo cabeçudo, como eu sou gay e pago pau de homem! Idade das trevas meus queridos iluminados, dura até hoje.

E o feminicídio continuava, e nas artes, o que poderia trazer alguma luz à humanidade androcentrica, ele era ainda mais cruel, matando às mulheres lentamente, acometidas de depressão ou loucura, o Patriarcado as suicidava, a depressão, letargia, imanência, impotência, e um ardoroso desejo de viver que doia em seus corpos de mulheres. As histéricas, paixão, útero em fúria contra a presença da todopoderosa Falocracia. A Civilização do Homem que sepulta a Vida, com a qual desde o início dos tempos, é identificada com a mulher e o feminino. Os homens só reinam através da morte. A Falocracia é vampira, só vive comendo o cadáver do que é vivo. Só reina sob um cemitério de podridão e esterelidade, porque a Falocracia é apavorada, fóbica, a essência do masculino é o pavor, o pânico, menininhos aterrorizados temendo serem tragados novamente pro utero da mãe e perderem o status de individuozinho que só conseguem a muito custo, na sua ida traumática à casa dos homens ou todos esses rituais de iniciação masculinos. O masculino se faz no medo. No medo aprendem a matar pra se proteger. Reinando, o masculino só pode gerar um imperio misógino, pois o que os homenzinhos mais temem é ao feminino que os esmaga impiedosamente. Porque temem à vida. É a luta dos titãs da natureza e do artifício. A natureza que reina absoluta no universo, e o pretensioso homenzinho que acha que pode interferir nela ou no seu curso. A batalha entre dionísio e apolo, do qual o segundo é somente um parco reflexo do primeiro que manifesta toda arte da vida e do humano.

Enquanto as mulheres ficarem relegadas ao silêncio, jamais transcenderemos esse estado de barbárie gerado pelo paradigma masculinista de cultura.

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MULHERES ESCRITORAS: HEROÍNAS MEMORÁVEIS E OCULTAS


'Mais do que o falar, o escrever para as mulheres tem sido visto como a usurpação de um direito que não lhes pertence e, ademais, como uma prática inútil, como aquilo não lhes corresponde. Disse Virginia Woolf: Creio que passará ainda muito tempo até que uma mulher possa sentar-se a escrever um livro sem que surja um fantasma que deve ser assassinado, sem que apareça uma pedra no meio do seu caminho.
Do livro de Yadira Calvo À mulher pela palavra, me permito mostrar algumas histórias. A de Fanny Burney queimando todos os seus originais e colocando-se a fazer trabalho de ponto como penitência por escrever. A de Charlotte Brönte deixando de lado o manuscrito de Jane Eyre para descascar batatas. A de Jane Austen escondendo os papéis cada vez que entrava alguém, pela vergonha de que a vissem escrever. A de Katherine Anne Porter declarando haver tardado vinte anos para escrever uma novela. Era sempre interrompida por alguém que, em algum momento aparecia no meu caminho. Porter calculava que só pode empregar uns dez por cento de suas energias para escrever. Os outros noventa por centro usei para poder manter minha cabeça fora d´água, dizia.

Recordo essa foto de María Moliner remendando meias com um ovo de madeira, enquanto escrevia sua obra, Dicionário do uso do castelhano ia nascendo entre panelas e coadores. Leio as queixas de uma Katherine Mansfield reprovando a seu marido: Estou escrevendo mas tu gritas: São cinco horas, onde está meu chá? Ou o doce lamento de uma cubana do século passado que não assinou suas obras: Quantas vezes lentamente/ com plácida inspiração/ formei uma oitava na minha mente/ e minha agulha inteligente/ remendava uma calça! Por isso disse Virginia Woolf a propósito da duquesa de Newcastle: Sabia escrever na sua juventude. Mas suas fadas, caso tenham sobrevivido, se transformaram e hipopótamos.

Outro fato gravíssimo: a atribuição das obras das mulheres a outros, e em especial a seus maridos. Esse deve ter sido um fenômeno muito freqüente pois temos muitas referências. Desde o artigo publicado em 1866 por Rosalía de Castro As literatas: carta a Eduarda, onde a escritora faz essa advertência, até as palavras de Adela Zamudio, escritora boliviana do século XX: Se alguns versos escreve /de alguns esses versos são,/ que ela apenas os subscreve/ (Permita-me que me assombre.)/ Se é alguém não é poeta,/ Por que tal suposição?/ Por que é homem!

Estão também os fatos históricamente comprovados: o célebre caso de María Lejarraga, autora das obras assinadas por seu marido Gregorio Martínez Sierra. E o fato de que foi o marido quem proibiu a Zelda Fitzgerald de publicar seu Diário porque ele o necessitava para seu próprio trabalho. E as primeiras obras de Colette que apareceram assinadas com o nome de seu marido, que inclusive cobrou o dinheiro de sua venda. Alguém dirá que vou muito atrás e que a humanidade mudou nos últimos vinte séculos. Pois bem, no ano 2000 e na Espanha só dez por cento dos livros publicadas foram escritos por mulheres.

MUDAR A LINGUAGEM, MUDARÁ A REALIDADE


Não obstante, existem mulheres capazes de escalar a encosta do proibido, de roubar da vida esses dez por cento de energia necessários para manter a cabeça fora da água. E a mantém. E escrevem. E editam. E aquí seguimos todas as demais. Lutando e celebrando os novos êxitos. Estendendo a rede para que todas as mulheres da terra tenham direito à voz, à palavra. Sabendo que vemos o mundo através do tecido formado pela língua e motivadas pela certeza de que a linguagem sexista, a que aprendemos, contribui para a perpetuação do patriarcado. Sabendo também que quando tenhamos uma linguagem que nos represente mudará a realidade. Por isso seguimos adiante. E não adormecemos mais às meninas com contos de fadas. Dizemos que as boas meninas vão para o céu e as más vão para todos lugares. E que colorín colorado, esta historia no ha acabado.' Teresa Meana - Sexismo e Linguagem - algumas notas

http://enrebeldia.blogspot.com/2006/11/sexismo-en-el-lenguaje-apuntes-bsicos.html


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....Theodore Roethke, a great poet we are told, a poet of the male condition I would insist, wrote:

Two of the charges most frequently levelled against poetry by women are lack of range--in subject matter, in emotional tone-- and lack of a sense of humor. And one could, in individual instances among writers of real talent, add other aesthetic and moral shortcomings: the spinning-out; the embroidering of trivial themes; a concern with the mere surfaces of life--that special province of the feminine talent in prose--hiding from the real agonies of the spirit; refusing to face up to what existence is; lyric or religious posturing; running between the boudoir and the altar, stamping a tiny foot against God; or lapsing into a sententiousness that implies the author has re-invented integrity; carrying on excessively about Fate, about time; lamenting the lot of woman . . . and so on. 2

What characterizes masculinist art, and the men who make it, is misogyny--and in the face of that misogyny, someone had better reinvent integrity.

They, the masculinists, have told us that they write about the human condition, that their themes are the great themes-- love, death, heroism, suffering, history itself. They have told us that our themes--love, death, heroism, suffering, history itself--are trivial because we are, by our very nature, trivial.

I renounce masculinist art. It is not art which illuminates the human condition--it illuminates only, and to men's final and everlasting shame, the masculinist world--and as we look around us, that world is not one to be proud of. Masculinist art, the art of centuries of men, is not universal, or the final explication of what being in the world is. It is, in the end, descriptive only of a world in which women are subjugated, submissive, enslaved, robbed of full becoming, distinguished only by carnality, demeaned. I say, my life is not trivial; my sensibility is not trivial; my struggle is not trivial. Nor was my mother's, or her mother's before her. I renounce those who hate women, who have contempt for women, who ridicule and demean women, and when I do, I renounce most of the art, masculinist art, ever made.

As feminists, we inhabit the world in a new way. We see the world in a new way. We threaten to turn it upside down and inside out. We intend to change it so totally that someday the texts of masculinist writers will be anthropological curiosities. What was that Mailer talking about, our descendants will ask, should they come upon his work in some obscure archive. And they will wonder--bewildered, sad--at the masculinist glorification of war; the masculinist mystifications around killing, maiming, violence, and pain; the tortured masks of phallic heroism; the vain arrogance of phallic supremacy; the impoverished renderings of mothers and daughters, and so of life itself. They will ask, did those people really believe in those gods?

Feminist art is not some tiny creek running off the great river of real art. It is not some crack in an otherwise flawless .stone. It is, quite spectacularly I think, art which is not based on the subjugation of one half of the species. It is art which will take the great human themes--love, death, heroism, suffering, history itself--and render them fully human. It may also, though perhaps our imaginations are so mutilated now that we are incapable even of the ambition, introduce a new theme, one as great and as rich as those others--should we call it "joy"?

We cannot imagine a world in which women are not experienced as trivial and contemptible, in which women are not demeaned, abused, exploited, raped, diminished before we are even born--and so we cannot know what kind of art will be made in that new world. Our work, which does full honor to those centuries of sisters who went before us, is to midwife that new world into being. It will be left to our children and their children to live in it.

(andrea dworkin, feminism, art and my mother Sylvia)