sábado, março 03, 2007

A filosofia do corpo é uma filosofia marginal, porque não pode ser pensada sem que se recuse a própria subjetividade, que é o que está no centro de nossa filosofia. Mas, como tudo habita as margens, o pensamento sobre o corpo comprime o que o marginalizou. Por isso incomoda, perturba, agita. Pensar o corpo demanda um abandono do “eu”, porque o corpo, pensado como “meu”, se torna um objeto no qual habita a alma, exilando, como fez Descartes, o eu pensante de seu próprio corpo.

O corpo, na história da filosofia, nunca entrou em crise. Ele sempre esteve. Sócrates encarou com bravura sua condenação à morte porque, morrendo, se livraria de seu corpo e, assim, sua alma poderia pensar sem interferências. Platão desprezava os sentidos por nos afastar das idéias puras. Eles eram apenas um meio, um estímulo inicial para que, em contato com o mundo, nos lembrássemos de tudo o que nossa alma já sabia antes que nosso corpo tivesse nascido. O corpo perece, as idéias são eternas. E, assim, prolongou--se uma tradição, não de esquecimento do corpo, acredito, mas de explícito banimento desse. O corpo é menor, é baixo, é fraco. Libertar-se dele é atingir o verdadeiro conhecimento.
A filosofia da Idade Média fugiu do corpo não apenas pelos motivos dos gregos, dos quais eles se apropriaram, mas também por outros motivos: os do cristianismo. Agora o corpo amedronta, é porta para o inferno. Deve-se resistir ao seu chamado, aos seus desejos. Jejum e celibato purificam e salvam. Os mártires não só renunciam aos prazeres do corpo, mas também se flagelam, se maltratam, se expõem à dor. Quanto mais castigo receber o corpo, mais graça receberá a alma. Os seres, quanto mais puros - dos animais a Deus, passsando por anjos e arcanjos – de menos matéria são compostos. O ser humano, que possui matéria e espírito, quanto mais cultiva o último, mais elevado se torna. A fogueira é a purificação dos pecadores e, principalmente, das pecadoras; a inquisição é o tribunal enviado dos céus para julgar mulheres e homens, principalmente mulheres. Afinal, elas são corpo, puro corpo, o qual é possuído pelo demônio. Evitar o corpo é, no fim das contas, evitar as mulheres, o feminino, a fraqueza.

Mais tarde, surge a Idade da Razão, com “r” maiúsculo, cemitério do corpo e triunfo da alma. Descartes, dominado por uma neurose grave, nos torna oficialmente exilados de nossos corpos. Supôs que poderia ser o mundo produto de uma ilusão e nele estava incluído nosso corpo. A alma era nossa única certeza e porto seguro. Mas, enfim, alguém pôde salvar o corpo dessa vez, para que ele não permanecesse uma ilusão dos nossos sentidos. Quem? Ninguém menos que o próprio Deus, que em sua infinita bondade, não nos faria de tolos, não nos criaria dotados de sentidos enganadores. Existe, pois, o corpo. Mas isso só se pôde descobrir a partir da pura intelecção, completamente despida, desnuda dessa carcaça perecível que é o corpo. Para Descartes, então, o corpo não tem nenhuma participação nessa atividade nobre, primordial e segura que é o pensamento. O corpo não pensa. Parece óbvio, não?

Vejam só! Aqui estou eu na velha incursão pela história da filosofia, que menos esclarece do que mascara o problema. Esse problema invisível, intocável e inefável, que, por isso mesmo, é indispensável. O corpo, intruso, não se deixa esquecer, não se deixa evitar. Por mais que queiramos, ele está ali. Uma presença muda e perturbadora, que por vezes se camufla, mas volta sempre, intacto, indestrutível e inegável. Mas o quanto o tememos! E justamente porque ele perece, apodrece, descama, deseja. Essa organicidade nos sufoca, nos angustia de forma tão avassaladora, que se torna insuportável a idéia de que somos corpo. Podemos criar as mais diversas representações de corpo; podemos lidar com o corpo de diversas formas culturalmente variáveis; podemos ser corpo e alma, corpo e espírito, corpo e mente, corpo real-virtual, corpo que depois se torna uma memória; mas não podemos ser só corpo, porque corpo é morte.
A filosofia, como o ser humano, parece ter uma ânsia por transcendência. Penso que qualquer filosofia sobre o corpo, mesmo imanentista, já é uma tentativa de superá--lo, porque pensar o corpo já é querer transcendê-lo de alguma maneira.

A filosofia do corpo é uma
filosofia marginal, porque não pode ser pensada sem que se recuse a própria subjetividade, que é o que está no centro de nossa filosofia. Mas, como tudo habita as margens, o pensamento sobre o corpo comprime o que o marginalizou. Por isso incomoda, perturba, agita. Pensar o corpo demanda um abandono do “eu”, porque o corpo, pensado como “meu”, se torna um objeto no qual habita a alma, exilando, como fez Descartes, o eu pensante de seu próprio corpo.

Esse abandono momentâneo da subjetividade, para que se possa pensar o corpo, faz com que o corpo não seja “meu” e, sim, “eu”.

Apesar disso, acredito que a filosofia do corpo está longe de ser um naturalismo, no qual o corpo determina a psique ou a mente desaparece, restando apenas conexões neurológicas. O que seria interessante é que se encarasse e se reconhecesse que o ser humano, como existente, disfarça, mascara para si mesmo sua própria corporeidade, sua condição de organismo. E isso acontece justamente porque ter consciência e, ao mesmo tempo, ser um organismo é uma situação por vezes insuportável. Corpo é crise.



maria eugênia

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