terça-feira, março 13, 2007

Jeanne Hébuterne e suas irmãs: suicídio e desvairamento no Patriarcado das artes

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"O Poeta se faz vidente por meio de um longo, imenso e refletido desregramento de todos os sentidos. Todas as formas de amor, de sofrimento, de loucura; ele procura ele mesmo, ele esgota nele todos os seus venenos, para só guardar as quintessências. Indizível tortura na qual ele precisa de toda a fé, de toda a força sobrehumana, onde se torna entre todos o grande doente, o grande criminoso, o grande maldito --e o supremo Sábio! --Pois ele chega ao desconhecido! Porque ele cultivou a sua alma, já rica, mais do que nenhum! Ele chega ao desconhecido, e quando, enlouquecido, ele acabaria por perder a inteligência de suas visões, ele as viu! Que ele morra no seu salto pelas coisas incríveis e inomáveis: chegarão outros horríveis trabalhadores; eles começarão pelos horizontes onde o outro se curvou!(...)Estes poetas serão! Quando será derrubada a infinita servidão da mulher, quando ela viverá para ela e por ela, o homem --até agora abominável--, tendo-a despedida, ela será poeta, ela também! A mulher descobrirá o desconhecido! Seus mundos de idéias divergirão dos nossos? Ela encontrará coisas estranhas, insondáveis, repugnantes, deliciosas; nós as teremos, nós as entenderemos.Por enquanto, vamos pedir aos poetas novidade --idéias e formas."


(Arthur Rimbaud)




Jeanne Hébuterne, digite no google, o que você encontrará?? Pinturas de Modigliani, da qual ela foi esposa e modelo para dezenas de obras.


Eis um exerto do wikipedia:


'' Jeanne Hébuterne (Paris, 6 de abril de 189825 de janeiro de 1920) foi uma pintora francesa. De família católica e conservadora, sempre foi uma bela moça e desde cedo voltada para as artes. Afiliou-se à comunidade artística em Montparnasse por seu irmão André Hébuterne(1894-1992), que queria ser pintor. Entretanto, querendo prosseguir uma carreira nas artes, e com muito talento, escolheu estudar na Academia Colarossi. Foi retratada diversas vezes por Léonard Fujita Tsuguharu(1886-1968) pintor francês de descendência japonesa. Autora de obras como "A suicida" e "A morte", de traço simples e explicativo.
Em
1917 Jeanne conheceu o pintor Amedeo Modigliani. Embora Modigliani fosse judeu e quatorze anos mais velho do que ela, era um homem muito considerado e charmoso. Começaram a se encontrar imediatamente e acabaram se apaixonando. Em 29 de novembro de 1918 dá a luz a uma menina,que recebe o mesmo nome da mãe,e é reconhecida como filha por Modigliani.

Em julho de 1919, descobre estar grávida novamente, mostrando desapontamento. É renunciada de sua família, por escolher viver com Modigliani. Logo fica comprometida de se casar com o pintor, que registrara seu nome errado no documento de matrimônio para invalidar a relação, que para ele era apenas carnal. A vida do casal não era um mar de rosas e Modigliani tinha a saúde debilitada devido a uma tuberculose mal curada e ao consumo excessivo de álcool e drogas. Ele morre no Charité de Paris no dia 24 de janeiro de 1920. Jeanne, companheira devotada e grávida de nove meses do segundo filho, sobrevive apenas uma noite, atirando-se do quinto andar do prédio onde morava.
Seu corpo foi velado e sepultado ás escondidas, pelos pais, no
cemitério de Bagneux. Sua filha foi criada pelas irmãs de Modigliani, e cresceu sem saber o que ocorrera com os pais. Apenas dez anos depois, Jeanne e seu filho que não nasceu foram transferidos para o cemitério do Père Lachaise, para descansarem ao lado de Modigliani. Seus trabalhos foram guardados por seu irmão André, a sete chaves, e apenas em 2000 foram mostrados ao público, numa exposição na Itália, com uma sala reservada apenas para obras do casal.''




Sinceramente, eu achei sua arte muito melhor que a de Modigliani. Mais expressiva, mais moderna, traços precisos, sensibilidade, dor.



Poucas obras consegui encontrar pela web, provavelmente não pintou muitas coisas, ou suas obras sumiram, ou ainda não foram reveladas ao público. Porém, tendo poucas pinturas, conseguiu dizer nelas o que um pintor-pinto precisa de uma produção de sua vida inteira.


Qual seria o motivo de ter tão escassa (não em intensidade claro) produção? Creio eu em alguns fatores: casamento, ofuscamento pelo marido, e principalmente depressão. Depressiva como tantas outras artistas. Geralmente levadas ao esgotamento psíquico pela sociedade ou por desejarem viver uma paixão com um homem, que no final das contas é como qualquer outro patriarca, que as destrói. Seja Camille Claudel, usada por Rodin e muito melhor escultora que ele, acaba se tornando louca e é internada, minguando no hospício até a morte. Em seus acessos destruiu a maior parte das obras. Hoje também é lembrada apenas como amante do Rodin, e serve de masturbação mental pra mulherzinhas idiotas que adoram ver esse papel projetado na história.


Camille Claudel, a sociedade da época a votou ao isolamento e à loucura, ela tentou sobreviver com suas esculturas. Rodin, que parecia que esculpia mais era com o pau dele teve seu período mais pleno e artistico, das maiores obras dele, aquelas mais sublimes, donde a mais famosa é a medíocre e masculinistica O Beijo, no período em que se relacionara com Camile, absorvendo seu estilo delicado e a atmosfera de afeto em igualdade de suas esculturas apaixonadas. Imitou à exaustão o estilo sublime e idílico dela, imitou as temáticas, a abordagem, muitas coisas ela afirmou que ele roubara dela. Camile foi abandonada por todos e por tudo, teve a desgraça de se apaixonar pelo imbecil, era uma mulher que queria muito mais do que seu tempo tinha-lhe a oferecer...foi ficando esquizofrenica, a sociedade cria os monstros que depois condena à morte. Ela chegou a perseguir o Rodin, acusá-lo em público, tudo que puderam dizer era que era uma louca. A vergonha da família, a devassa, a puta.

Os pais tiveram certa compreensão com ela, de ela não querer o destino de mulher, mas ela não conseguia se manter economicamente com suas esculturas (quem queria comprar obras de uma mulher naquela época? As inferiores em todas as esferas da cultura?). Total desamparo da mulher independente naquela época.

Fica por aí esses pensadores de Rodin e suas figuras ensandecidas e testosteronadas masculinistas, e um referencial feminino foi perdido. Aliás, a humanidade perdeu. Melhor alegoria do que o silencio e a escuridão reservada as mulheres condenou a nossa sociedade à pobreza de espírito. As suas esculturas mais belas foram perdidas pra sempre na estrada da História.

Tudo porque o tal escultor era um egoísta narcisista que como qualquer outro homem, usou e usurpou uma mulher para se fortalecer e se promover.

Virginia Woolf, uma feminista melancólica e lésbica que não poderia realizar sua sexualidade naquela época, foi consumida pela depressão e por fim se matou. Deixou grandes obras que felizmente receberam o conhecimento merecido. Inaugurou um estilo revolucionário na literatura, a transgressão da linguagem e das normas de escrita que viria a ser característico de mulheres escritoras como a genial Clarice Lispector. Era uma revolução contra o Patriarcado dentro da própria linguagem das artes, destruindo as noções de tempo linear e objetividade, num espaço sem regras, onde o tempo era flúido (tempo linear é invenção do Patriarcado, assim como a História, e a registrividade escrita e tudo que estereliza, antes do Patriarcado o tempo era tido como Circular, mas os homens não se satisfaziam de crer que seu destino não poderia ser obra deles, inventando também a falácia da razão, valor da filosofia que decaiu e mostrou suas consequencias na guerra, no holocausto judeu, nas histerias e neuroses, a falácia de que o ' Homem é senhor de si e seu destino' e não um mero ' animal') e a subjetividade distorcia as impressões, um espaço sem as leis da civilização, um espaço de transcendência.

Sem a arte de tais mulheres, o que seria da humanidade hoje? A barbárie e a pobreza de sempre, que aliás, ainda é, porque o pinto ainda reina como pintor do mundo.

Toda Filosofia, todas Artes, toda Literatura, Música, marcada pela limitação da mente dos homens que pensam com a cabeça do pau. Essa arte, essa cultura, essa merda, que levou a humanidade às guerras, à ascenção do Capitalismo, com seus poetinhas que cantaram a Liberdade Liberal e ajudaram a por a burguesia no trono dos monarcas, como se isso fosse mudar alguma coisa, e toda atmosfera de soberba que reinou nesses séculos das luzes com essa ciência apodrecida e seus valores toscos de individualidade, racionalidade, superioridade da espécie homana branca, corrida imperialista, tráfico de escravos, estupros maciços de meninas de 9 a 13 anos na Índia, e enterro de viúvas vivas junto de seus maridos mortos, oh como é linda a Civilização do Homem! Como são lindas as obras do Homem! Como é lindo o David de Michelangelo cabeçudo, como eu sou gay e pago pau de homem! Idade das trevas meus queridos iluminados, dura até hoje.

E o feminicídio continuava, e nas artes, o que poderia trazer alguma luz à humanidade androcentrica, ele era ainda mais cruel, matando às mulheres lentamente, acometidas de depressão ou loucura, o Patriarcado as suicidava, a depressão, letargia, imanência, impotência, e um ardoroso desejo de viver que doia em seus corpos de mulheres. As histéricas, paixão, útero em fúria contra a presença da todopoderosa Falocracia. A Civilização do Homem que sepulta a Vida, com a qual desde o início dos tempos, é identificada com a mulher e o feminino. Os homens só reinam através da morte. A Falocracia é vampira, só vive comendo o cadáver do que é vivo. Só reina sob um cemitério de podridão e esterelidade, porque a Falocracia é apavorada, fóbica, a essência do masculino é o pavor, o pânico, menininhos aterrorizados temendo serem tragados novamente pro utero da mãe e perderem o status de individuozinho que só conseguem a muito custo, na sua ida traumática à casa dos homens ou todos esses rituais de iniciação masculinos. O masculino se faz no medo. No medo aprendem a matar pra se proteger. Reinando, o masculino só pode gerar um imperio misógino, pois o que os homenzinhos mais temem é ao feminino que os esmaga impiedosamente. Porque temem à vida. É a luta dos titãs da natureza e do artifício. A natureza que reina absoluta no universo, e o pretensioso homenzinho que acha que pode interferir nela ou no seu curso. A batalha entre dionísio e apolo, do qual o segundo é somente um parco reflexo do primeiro que manifesta toda arte da vida e do humano.

Enquanto as mulheres ficarem relegadas ao silêncio, jamais transcenderemos esse estado de barbárie gerado pelo paradigma masculinista de cultura.

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MULHERES ESCRITORAS: HEROÍNAS MEMORÁVEIS E OCULTAS


'Mais do que o falar, o escrever para as mulheres tem sido visto como a usurpação de um direito que não lhes pertence e, ademais, como uma prática inútil, como aquilo não lhes corresponde. Disse Virginia Woolf: Creio que passará ainda muito tempo até que uma mulher possa sentar-se a escrever um livro sem que surja um fantasma que deve ser assassinado, sem que apareça uma pedra no meio do seu caminho.
Do livro de Yadira Calvo À mulher pela palavra, me permito mostrar algumas histórias. A de Fanny Burney queimando todos os seus originais e colocando-se a fazer trabalho de ponto como penitência por escrever. A de Charlotte Brönte deixando de lado o manuscrito de Jane Eyre para descascar batatas. A de Jane Austen escondendo os papéis cada vez que entrava alguém, pela vergonha de que a vissem escrever. A de Katherine Anne Porter declarando haver tardado vinte anos para escrever uma novela. Era sempre interrompida por alguém que, em algum momento aparecia no meu caminho. Porter calculava que só pode empregar uns dez por cento de suas energias para escrever. Os outros noventa por centro usei para poder manter minha cabeça fora d´água, dizia.

Recordo essa foto de María Moliner remendando meias com um ovo de madeira, enquanto escrevia sua obra, Dicionário do uso do castelhano ia nascendo entre panelas e coadores. Leio as queixas de uma Katherine Mansfield reprovando a seu marido: Estou escrevendo mas tu gritas: São cinco horas, onde está meu chá? Ou o doce lamento de uma cubana do século passado que não assinou suas obras: Quantas vezes lentamente/ com plácida inspiração/ formei uma oitava na minha mente/ e minha agulha inteligente/ remendava uma calça! Por isso disse Virginia Woolf a propósito da duquesa de Newcastle: Sabia escrever na sua juventude. Mas suas fadas, caso tenham sobrevivido, se transformaram e hipopótamos.

Outro fato gravíssimo: a atribuição das obras das mulheres a outros, e em especial a seus maridos. Esse deve ter sido um fenômeno muito freqüente pois temos muitas referências. Desde o artigo publicado em 1866 por Rosalía de Castro As literatas: carta a Eduarda, onde a escritora faz essa advertência, até as palavras de Adela Zamudio, escritora boliviana do século XX: Se alguns versos escreve /de alguns esses versos são,/ que ela apenas os subscreve/ (Permita-me que me assombre.)/ Se é alguém não é poeta,/ Por que tal suposição?/ Por que é homem!

Estão também os fatos históricamente comprovados: o célebre caso de María Lejarraga, autora das obras assinadas por seu marido Gregorio Martínez Sierra. E o fato de que foi o marido quem proibiu a Zelda Fitzgerald de publicar seu Diário porque ele o necessitava para seu próprio trabalho. E as primeiras obras de Colette que apareceram assinadas com o nome de seu marido, que inclusive cobrou o dinheiro de sua venda. Alguém dirá que vou muito atrás e que a humanidade mudou nos últimos vinte séculos. Pois bem, no ano 2000 e na Espanha só dez por cento dos livros publicadas foram escritos por mulheres.

MUDAR A LINGUAGEM, MUDARÁ A REALIDADE


Não obstante, existem mulheres capazes de escalar a encosta do proibido, de roubar da vida esses dez por cento de energia necessários para manter a cabeça fora da água. E a mantém. E escrevem. E editam. E aquí seguimos todas as demais. Lutando e celebrando os novos êxitos. Estendendo a rede para que todas as mulheres da terra tenham direito à voz, à palavra. Sabendo que vemos o mundo através do tecido formado pela língua e motivadas pela certeza de que a linguagem sexista, a que aprendemos, contribui para a perpetuação do patriarcado. Sabendo também que quando tenhamos uma linguagem que nos represente mudará a realidade. Por isso seguimos adiante. E não adormecemos mais às meninas com contos de fadas. Dizemos que as boas meninas vão para o céu e as más vão para todos lugares. E que colorín colorado, esta historia no ha acabado.' Teresa Meana - Sexismo e Linguagem - algumas notas

http://enrebeldia.blogspot.com/2006/11/sexismo-en-el-lenguaje-apuntes-bsicos.html


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....Theodore Roethke, a great poet we are told, a poet of the male condition I would insist, wrote:

Two of the charges most frequently levelled against poetry by women are lack of range--in subject matter, in emotional tone-- and lack of a sense of humor. And one could, in individual instances among writers of real talent, add other aesthetic and moral shortcomings: the spinning-out; the embroidering of trivial themes; a concern with the mere surfaces of life--that special province of the feminine talent in prose--hiding from the real agonies of the spirit; refusing to face up to what existence is; lyric or religious posturing; running between the boudoir and the altar, stamping a tiny foot against God; or lapsing into a sententiousness that implies the author has re-invented integrity; carrying on excessively about Fate, about time; lamenting the lot of woman . . . and so on. 2

What characterizes masculinist art, and the men who make it, is misogyny--and in the face of that misogyny, someone had better reinvent integrity.

They, the masculinists, have told us that they write about the human condition, that their themes are the great themes-- love, death, heroism, suffering, history itself. They have told us that our themes--love, death, heroism, suffering, history itself--are trivial because we are, by our very nature, trivial.

I renounce masculinist art. It is not art which illuminates the human condition--it illuminates only, and to men's final and everlasting shame, the masculinist world--and as we look around us, that world is not one to be proud of. Masculinist art, the art of centuries of men, is not universal, or the final explication of what being in the world is. It is, in the end, descriptive only of a world in which women are subjugated, submissive, enslaved, robbed of full becoming, distinguished only by carnality, demeaned. I say, my life is not trivial; my sensibility is not trivial; my struggle is not trivial. Nor was my mother's, or her mother's before her. I renounce those who hate women, who have contempt for women, who ridicule and demean women, and when I do, I renounce most of the art, masculinist art, ever made.

As feminists, we inhabit the world in a new way. We see the world in a new way. We threaten to turn it upside down and inside out. We intend to change it so totally that someday the texts of masculinist writers will be anthropological curiosities. What was that Mailer talking about, our descendants will ask, should they come upon his work in some obscure archive. And they will wonder--bewildered, sad--at the masculinist glorification of war; the masculinist mystifications around killing, maiming, violence, and pain; the tortured masks of phallic heroism; the vain arrogance of phallic supremacy; the impoverished renderings of mothers and daughters, and so of life itself. They will ask, did those people really believe in those gods?

Feminist art is not some tiny creek running off the great river of real art. It is not some crack in an otherwise flawless .stone. It is, quite spectacularly I think, art which is not based on the subjugation of one half of the species. It is art which will take the great human themes--love, death, heroism, suffering, history itself--and render them fully human. It may also, though perhaps our imaginations are so mutilated now that we are incapable even of the ambition, introduce a new theme, one as great and as rich as those others--should we call it "joy"?

We cannot imagine a world in which women are not experienced as trivial and contemptible, in which women are not demeaned, abused, exploited, raped, diminished before we are even born--and so we cannot know what kind of art will be made in that new world. Our work, which does full honor to those centuries of sisters who went before us, is to midwife that new world into being. It will be left to our children and their children to live in it.

(andrea dworkin, feminism, art and my mother Sylvia)

1 comentário:

kawaiihumptydumpty disse...

é um prazer ver que a página que escrevi sobre Jeanne Hébuterne para a Wikipédia está sendo usada e acessada.