sexta-feira, agosto 03, 2007

Trecho de: Submissão e Resistência – A mulher na luta contra a escravidão

A revolta no cotidiano
Quilombolas e guerreiras
A prática abolicionista

Maria Lucia de Barros Mott

A repercussão que a Guerra do Paraguai teve no movimento abolicionista já foi lembrada por vários autores, A volta do ex-escravos que serviam no exército brasileiro, seja por vontade própria, obrigados pelo Estado ou pelo proprietário particular (quando o proprietário não quis, não pôde alistar-se ou desejou fazer do escravo uma "oferta" à pátria), levou a opinião pública a tomar o partido em oposição aos antigos senhores que os queriam novamente no eleito, Afinal, o Estado não havia prometido liberdade aos escravos de nação, e às suas mulheres, quando foram obrigados a seguir para a guerra? E como manter no cativeiro um elemento que pertencera ao exército nacional? Seria uma tremenda desmoralização.

Durante os cinco anos que durou a guerra, o envolvimento da população com o conflito parece ter sido pequeno, dada a resistência ao alistamento, e às formas violentas usadas pelas autoridades a fim de obter contingente para a luta, os famosos "voluntários da pátria".

De um lado, nenhum outro conflito interno ou externo cultuou tantas "heroínas", provenientes dos mais variados meios sociais - Ana Nery, Ignez Augusta Corrêa de Almeida, Ludovina de Albuquerque de Porto-Carrero, Maria Curupaity, Francisca Biriba, Rosa da Fonseca, Felisbina Rosa e a escrava Ana - havendo, mesmo dentro do conflito, espaço para a participação feminina, seja como enfermeira, ou como vivandeira.

É preciso lembrar que um,a guerra não envolvia irmãos contra irmãos mas visava um "inimigo" comum, um "bárbaro" estrangeiro, o que tornava a "causa" indiscutivelmente "nobre", pelo menos a curso oficial.

De outro lado, foram cinco anos nos quais as mulheres ficaram sem seus maridos, as mães sem os filhos e as filhas sem os pais, A chefia de muitas famílias passou a para as mãos femininas, obrigando-as, certamente, a assumirem responsabilidades que antes não eram suas.

A repercussão que a Guerra do Paraguai teve na vida das mulheres, nesta segunda metade do século XIX, ainda está por ser estudada. Acredito que ela deve ter acrescentado uma boa dose de consciência política na cabeça de muitas brasileiras, preparando-as para a militância na campanha abolicionista. Embora não se tratasse mais de um “inimigo” estrangeiro, era preciso redimir a pátria da “mancha negra” da escravidão.

Para as mulheres, a participação no movimento abolicionista, talvez tenha sido a primeira experiência de militância política organizada, a nível nacional. Foi aí que muitas delas se iniciaram politicamente, o que lhes deu experiência para enfrentar posteriormente a campana pelo sufrágio feminino e os movimentos contra a carestia do começo do século.

Quanto à princesa Isabel, até que se realizem novas pesquisas sobre sua vida e obra, é preciso deixá-la descansar em paz. Culpabilizá-la pela situação atual dos negros, pelo fato de ter sido ela quem assinou a Lei Áurea, é o mesmo que enaltecê-la ou reconhecê-la como “A Redemptora”.

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