domingo, novembro 25, 2007

Moradores sabiam que menina estava em cela de homens no Pará

Da rua em frente à delegacia de polícia de Abaetetuba, 130 km de Belém, tem-se visão ampla da carceragem, um galpão de 80 metros quadrados, três banheiros minúsculos e uma cela de segurança, separados da cidade livre apenas por um portão de grades enferrujadas.

Foi lá que, durante pelo menos 20 dias, uma menina de 15 anos, L., acusada de tentativa de furto, permaneceu encarcerada com mais de 30 homens, submetida a abusos sexuais, violência e estupros seguidos, que só tiveram fim no dia 15.

"Era um show isso daqui. Todo mundo sabia que a menina estava lá no meio daqueles homens todos, mas ninguém falava nada", disse uma mulher na delegacia, sexta-feira à noite.

"Antes de comer, os presos se serviam dela", lembra inflamada outra mulher, falando alto bem em frente à sala do delegado de plantão. Refere-se ao fato de os presos obrigarem a menina a praticar sexo como condição para lhe darem alimento.

"Ela gritava e pedia comida para quem passava, chamava a atenção para si, e, como ela era conhecida por aqui, não dava para ignorar", afirma outra.
Nos bastidores do governo federal, em Brasília, existe a convicção de que o caso configura-se em uma das mais graves violações dos direitos humanos, uma ofensa ao Estatuto da Criança e do Adolescente, além de ferir os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres.

O mais constrangedor, porém, é que todo esse horror foi patrocinado por instituição do Estado (a Polícia Civil) comandada pela petista Ana Júlia Carepa, governadora do Pará.

L. não poderia estar no sistema penitenciário, menos ainda sob acusação de tentativa de furto e, pior, presa entre homens. "Só se pode internar um adolescente por violência, grave ameaça ou prática reiterada de delito grave, o que não era o caso", diz a advogada Márcia Ustra Soares, 42, da subsecretaria de promoção dos direitos da Criança e do Adolescente da Presidência da República.

Os presos até que tentaram camuflar a presença daquele corpo estranho no meio de tantos homens. "Minha filha tinha cabelos lindos e encaracolados que iam até o meio das costas", diz a mãe biológica. "Cortaram o cabelo dela com um terçado [facão], para disfarçar que se tratava de uma menina. Cortaram é modo de dizer, escalpelaram a minha filha." Mas não funcionou.
L. continuou vestindo as roupas que usava ao ser presa --sainha curta e blusinha que deixava evidentes os seios adolescentes. Seu corpo mirrado, com menos de 1,40 m, tampouco permitia que ela fosse enfiada nas roupas de seus companheiros de cela.

A carceragem onde a menina ficou trancada agora está quase vazia --os homens presos que conviveram com ela foram todos removidos para penitenciárias próximas. Apenas um jovem de 19 anos, Landrisson André Santos Mauegi, acusado de tentativa de furto de uma bicicleta, estava detido no local na sexta-feira (ele foi parar lá depois da libertação de L.). A mãe de Landrisson, Maria Santos, 75, vai ao local todos os dias para levar sanduíches, cigarros e conforto ao seu caçula. Nem precisa passar pelo carcereiro. Basta esticar o braço.

Se era tão flagrante a identidade feminina e quase infantil de L., por que ninguém denunciou antes? "Medo de morrer. Aqui todo mundo tem medo", diz a tia de um dos presos transferidos. "Se a delegada põe uma menina na cela com os homens, e a juíza mantém ela lá, quem sou eu pra denunciar. Aliás, denunciar para quem?"

A delegada a que se refere a mulher é Flávia Verônica Pereira, responsável pela prisão em flagrante de L. A juíza é Clarice Maria de Andrade.
No dia 14, finalmente, o Conselho Tutelar de Abaetetuba recebeu uma denúncia. Anônima. A delegada foi afastada de suas funções no dia 20 e a juíza está sendo investigada pela Corregedoria de Justiça. A Folha tentou sem sucesso contatar ambas por telefone na sexta.

"quem sou eu pra denunciar. Aliás, denunciar para quem"
O silêncio no patriarcado é oq o mantém. Pelas milhares de irmãs estupradas, assassinadas, escravizadas, violentadas todos os dias, não abaixes mais a cabeça. O silêncio só fortalece o opressor, não caia mais nas suas mentiras que te fazem conseguir fechar os olhos.
Denuncie, expresse, inconformize-se, liberte, escreva, repudie, reaja.

Reportagem da folha

terça-feira, novembro 20, 2007

Prescrutando as fundações do Patriarcado na obra de Marques de Sade


Os textos de Sade exploraram os limites mais extremos da sexualidade, que certamente constitui uma das dimensões mais importantes da vida privada, e ainda hoje essas explorações definem os limites da consciência moderna por vários aspectos. Será uma coincidência que as principais obras de Sade tenham sido compostas entre 1785 e 1800 (com algumas outras datando dos anos que antecedem sua morte em 1814)? [*período concomitante à Revolução Francesa].



Nos primeiros anos de Donatien Alphonse François de Sade, nada nos permite antever o futuro autor de Justine, de La Philosophie dans le boundoir [A filosofia na alcova] e das Cent vingt jounées de Sodome [Cento e vinte dias de Sodoma]. O jovem Sade estudou em Louis-le-Grand, antes de ingressar no Exército real, à semelhança de muitos jovens nobres e futuros herdeiros de títulos de nobreza. Casou-se aos 23 ans e, nos meses seguintes, ficou preso em Vincennes por ordem régia, devido a "devassidão excessiva",início de uma longa carreira de libertinagem pontuada por encarceramentos. Entre 1778 e 1790, ele passou onze anos em Vincennes e na Bastilha, e depois de 1801 não tornaria a sair da prisão (entre 1803 e 1814 ficaria em Charenton).


Apesar das suas origens nobres, Sade sobreviveu à Revolução de Paris, escrevendo peças e até trabalhando como funcionário (secretário da seção de Piques), antes de permanecer vários meses recluso, em 1794, na mesma prisão em que se encontrava Laclos.


Antes de 1789, Sade era um libertino notório, mas, sob a Revolução, se tornou ainda mais audacioso em seus textos: Justine teve seis edições no decênio que se seguiu a sua publicação em 1791. O romance original de trezentas páginas se converteu em 1797 em La nouvelle Justine [A nova Justine], com 810 páginas; Juliette, publicado no mesmo ano, tinha mais de mil páginas. Aline et Valcour e La philosophie dans le boudoir foram publicados em 1795. Os jornais denunciavam Sade principalmente enquanto autor de Justine; La nouvelle Justine e Juliette. os outros dois títulos do ciclo de Justine, acarretariam sua última condenação ao cárcere, de onde nunca mais sairia em vida. A quantidade de edições e a notoriedade duradoura de Justine provam claramente que Sade não era de todo conhecido durante a Revolução. Lolotte et Fanfan (1788), o romance mais conhecido de Ducray-Duminil, o extravagante autor sentimental que pode ser comparado à romancista inglesa Ann Radcliffe, teve não menos de dez edições, mas Ducray-Duminil era o autor mais popular nesse período. Numa época em que os novos gabinetes de leitura, que começaram a se multiplicar em Paris a partir de 1795, estimulavam uma produção literárea constante (de 4 a 5 mil títulos entre 1790 e 1814, segundo estimativas) e um gosto crescente pelo romance, a obra de Sade contava com um público significativo.


A DECLARAÇÃO DOS DIREITOS DE EROS (do Homem e Cidadão*)


Jean-Jacques Lequeu (1757 - 1825), o mais inspirado dentre os arquitetos visionários de uma época que conheceu muitos deles... Lequeu teve uma intensa produção durante a Revolução, embora sempre mantendo uma posição contestadora. Perturbadora beleza do corpo feminino neste desenho, aliás bastante misterioso (Paris, Biblioteca Nacional)


Os Contes philosophiques [Contos filosóficos] de Sade minavam o ideal revolucionário, não por rejeitá-lo, mas por levar sua lógica ao extremo, chegando ao resultado repulsivo. Segundo Maurice Blanchot, "ele formula uma espécie de Declaração dos Direitos do Erotismo", onde a natureza e a razão servem aos direitos de um egoísmo absoluto. Ao longo de toda a sua obra, Sade inverte o habitual triunfo da virtude sobre o vício. Ele proclama "Sou em suas mãos apenas uma máquina que ela [a natureza] move a seu bel-prazer". Num mundo novo, de igualdade absoluta, a única coisa que importa é o poder(/*phoder), amíude brutal e cruel. O nascimento, os privilégios, as distinções de toda e qualquer espécie desapareciam frente a esse regime revolucionário e sem lei (no sentido usual do termo). A obra de Sade glorificava e ao mesmo tempo desencaminhava a liberdade, a igualdade e até mesmo a fraternidade. A liberdade consistia no direito de buscar o prazer sem consideração pela lei, pelas convenções, pelos desejos dos outros (e esta liberdade, ilimitada para alguns, significava em geral a escravidão das mulheres escolhidas). Buscava-se os prazeres na igualdade, e ninguém tinha direito a eles por nascimento; venciam apenas os mais impiedosos e os mais egoístas (quase sempre homens). Haverá exemplo mais claro de fraternidade do que os quatro amigos das Cent vingt jounées ou da "Sociedade dos Amigos do Crime" em Juliette, cujos regulamentos e rituais parodiam a maçonaria e os milhares de Sociedades de Amigos da Constituição (mais conhecidos como jacobinos) da década revolucionária?



O privado ocupa um lugar muito especial nos romances de Sade. Ele é necessário para os jogos mais extremos e mais cruéis, apresentando-se quase sempre sob a forma de uma prisão (*logo, não parece estranho que a mesma palavra que define privacidade também define privação...).


Como observa Roland Barthes, "o segredo sadiano não é senão a forma teatral da solidão". Cavernas, criptas, passagens subterrâneas, grutas figuram entre os locais prediletos do herói sadiano. O lugar supremo dos segredos e da solidão consiste naqueles castelos especialmente escolhidos por estarem apartados do mundo exterior (a sociedade). O castelo de Silling, na Floresta Negra, é a locação principal de Cent vingt jounées de Sodome; em Justine, é o castelo de Saintre-Marie-des-Bois. Há pouquíssimos detalhes sobre o extrerior desses castelos. O interior é sempre descrito em termos ligados ao encarceramento: insiste-se sobre a reclusão, mas também sobre a ordem repetitiva. Em Silling, "era preciso mandar emparedar todas as portas que davam entrada ao interior e se encerrar totalmente no local como numa cidadela sitiada[...]. O conselho foi executado, montou-se uma tal barricada que já nem se poderia reconhecer onde haviam estado as portas, e as pessoas se instalaram no interior". Uma vez dentro desse mundo isolado do exterior, esse mundo exclusivamente privado, a insistência recai sobretudo na rigidez da ordem(ou *!ordem!). A perversão não é sinônimo de anarquia: é a inversão sistemática de todos os tabus, o enfrentamento regrado e repetitivo de todos os limites, até o ponto em que o prazer exige o crime.


Nesse espaço hiperprivado, os objetos do prazer e da ordem em geral são mulheres: "Tremam, adivinhem, obedeçam, previnam e [...] talvez vocês não sejam inteiramente infelizes" (Cent Vint Jounées). Com poucas exceções, as mulheres de Sade não são livres e raramente sentem prazer de plena vontade. "Todo gozo partilhado diminui." O amor usual e heterossexual constitui uma única exceção: dá-se preferência a outros orifícios em vez da vagina. As mulheres são objeto de agressões masculinas e não têm qualquer identidade física. Juliette parece a exceção à regra, mas, para sobreviver, precisa roubar e matar incessantemente. Por uma espécie de torção tocquevilliana, a igualdade e a fraternidade entre os homens servem apenas para o despotismo total deles sobre as mulheres. Inúmeras vítimas são aristocratas, mas o homem do novo mundo sadiano restaura uma espécie de poder(*/phoder) feudal no isolamento do castelo, como uma cela.


Não podemos tomar Sade como o verdadeiro repesentante das atitudes em relação às mulheres durante a Revolução; sua obra, porém, chama a atenção para o papel desempenhado por elas enquanto figuras privadas. Nos romances de Sade, o privado é o lugar onde as mulheres (às vezes crianças, inclusive garotos) são encarceradas e torturadas para o gozo sexual dos homens. Não se tratará apenas de uma redução ao absurdo, tipicamente sadiana, da concepção dos sans-culottes e dos jacobinos sobre o lugar da mulher mantida no espaço (*ou cárcere) privado? Os revolucionários limitaram o papel das mulheres ao de mãe e irmã - dependendo, para suas identidades, dos maridos e dos irmãos; Sade as converteu em prostitutas profissionais ou em mulheres cujo papel principal é sua disposição em se deixarem acorrentar pelos homens, tendo como única identidade a de objetos sexuais. Nessas duas representações do privado, as mulheres não possuem qualquer identidade própria - pelo menos é o que desejam os personagens masculinos, pois na verdade, elas são representadas como destruidoras em potencial, como se fosse mais do que evidente que jamais aceitariam voluntariamente os papéis que lhe são designados. Se não fosse este o caso, por que os jacobinos, quando as mulheres reivindicaram o direito de desempenhar um papel público, responderam que seria o caos (*KAOS), reagindo com tanto mau humor e, ousamos dizer, tanta histeria? E por que, então, Sade teria uma tal obsessão pelo castelo fechado?


"Para impedir os ataques exteriores não muito temidos e as invasões interiores bem mais temidas" (Cent Vingt Journées).


trecho retirado do livro A História da Vida Privada vol. 3
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wikipedia em Marquis de Sade:


"Numerosos escritores e artistas, especialmente aqueles preocupados com sexualidade, tiveram ambos rebelidos e fascinados com de Sade.


Simone de Beauvoir (em seu ensaio Devemos queimar Sade?, publicado em Les Temps modernes, Dezembro 1951 e Janeiro 1952) e outros escritores tentaram localizar traços de uma filosofia de liberdade radical nos escritos de Sade, precedendo aquela do existentialismo há alguns 150 anos. Ele também foi visto como precursor da psicanalise de Sigmund Freud em seu foco em sexualidade como uma força motivo. Os surralistas admiraram ele como uns de seus predecessores, e Guillaume Apollinaire famosamente o chamou de "o espírito mais livre que já existiu".

Pierre Klossowski, em seu livro de1947 Sade Mon Prochain ("Sade meu Vizinho"), analisa a filosofia de Sade como precurssora do niilismo de Nietzsche, negando ambos os valores Cristãos e o materialismo do Iluminismo.

Um dos ensaios de Max Horkheimer e na de Theodor Adorno Dialetica do Iluminismo (1947) é entitulado "Juliette ou Iluminismo e Moralidade" e interpreta o comportamento calculista e impio de Juliette como o encorporamento da filosofia do iluminismo. Similarmente, psicanalista Jacques Lacan postulou em seu ensaio de 1966 "Kant avec Sade" que a ética de Sadeera a compleição complementar do imperativo categorico originalmente formulado por Immanuel Kant.


Em as Mulheres de Sade: Uma ideologia da Pornografia (1979), Angela Carter providenciou uma leitura feminista de Sade, vendo ele como um "pornografo moral" que criou espaços para mulheres. Similarmente, Susan Sontag defendeu ambos Sade e Georges Bataille que escreveu Histoire de l'oeil (História de um Olho) em seu ensaio, "A Imaginação Pornográfica" (1967) que como base seus trabalhos eram textos transgressivos, e argumentou que nenhum deles devia ser censurado.


Em contraste, Andrea Dworkin viu Sade como um exemplar pornógrafo odiador de mulher, suportando sua teoria que pornografia inevitavelmente leva à violência contra mulher. Um capítulo de seu livro: Men Possessing Women (Homens Possuindo Mulheres)(1979) é devotado para uma análise de Sade. Susie Bright clama que a primeira novela de Dworkin Ice and Fire(Gelo e Fogo), que é prevalente de violência e abuso, pode ser visto como um moderno re-conto de Juliette de Sade."

sábado, novembro 10, 2007

A MENTIRA DO SADOMASOQUISMO

Dez mentiras sobre sadomasoquismo por Melissa Farley — Media Watch
1.Dor é prazer; humilhação é desfrutável; bondage é libertação.
2. Sadomasoquismo é amor e confiança, não dominação e aniquilação.

3. Sadomasoquismo não é racista nem antisemitista mesmo quando a gente ´encena´ como senhores de escravos e africanos escravizados, nazistas e judeus perseguidos.

4. Sadomasoquismo é consensual; ninguém se machuca se você não quer ser machucado. Ninguém nunca morreu por ´cenas´ sadomasoquistas.

5. Sadomasoquismo é apenas sobre sexo. Isso não extende-se pro resto da relação.

6. Pornografia sadomasoquista não tem relação com a sociedade sadomasoquista em que vivemos. “Se isso te faz bem, vá em frente.” “Nós criamos nossa própria sexualidade.”
7. Lesbica “no sadomasoquismo” são feministas, devotadas a mulheres, e uma comunidade só-mulheres. Pornografia lésbica é “por mulheres e para mulheres”.

8. Uma vez que lésbicas são superiores a homens, nós podemos “jogar/atuar” com sadomasoquismo numa forma libertária que heterosexuais não podem.

9. Reatuar o abuso o cura. Sadomasoquismo restaura injúrias emocionais em assalto sexual da infância.

10. Sadomasoquismo é dissidência politica. É progressivo e até “transgressivo” naquilo que quebra as regras da ideologia sexual dominante.


Embora formulada por seus atuais advogados como uma questão de libertação sexual, direitos de uma minoria, ou mesmo terapêutico, Eu considero sadomasoquismo lésbico a ser primariamente uma questão de éticas feministas. Eu acredito que lésbicas que abraçam sadomasoquismo seja teoricamente ou em prática estão suportando o sangue nutriz do patriarcado. “Os símbolos, linguagem e estilo das lésbicas-chic sadomasoquistas são os símbolos, linguagem e estilo da supremacia masculina: violação, impiedade, intimidação, humilhação, força, ridicularização, consumismo.” (De Clarke, 1993) Escolhendo sadomasoquismo, dada nossa opressão, é um ato de profunda deserção. As idéias de que estou escrevendo agora não são novas (por favor veja as referências ao final desse artigo), mas esperançosamente elas vão ser útil sumárioque poderá ser usada por feministas pra que vejam que muito do que sadomasoquistas aclamam simplesmente não são a verdade.

Mentira #1: .Dor é prazer; humilhação é desfrutável; bondage é libertação.

Isso é uma grande mentira. Parte da razão pela qual nós estamos vulneráveis a essa mentira é de que muitas de nós fomos criadas em uma cultura em que noções religiosas de que punição é amor e sofrimento é redempção. Uma jovem conhecida que militava no time da tripulação me mostrou uma camiseta que dizia: “O que não me mata vai me fazer mais forte.” Como mulheres nós somos ensinadas que amor é devoção desprendimento de si a despeito da dor sofrida. Nós acreditamos que amor é dor porque nós continuamos nos machucando nele. Mulheres são ensinadas a não acreditarem em seu senso ou intuição. Nós somos ensinadas que dor, sofrimento e humilhação são desafios pelos quais devemos ansiar porque eles ensinam coisas importanes na vida. Depois disso, o que eles poderão fazer a nós, a que mais não podem eles nos ambientar? Nós aprendemos a “consentir” com subordinação, até nos tornarmos culturalmente subservientes a isso. Se correntes e uma coleira representam rebelião e “estar no controle,” então Madonna é nossa “rebelde” Barbie e Ted Bundy seu Ken. (from Morgan, 1993)

Mentira #2: Sadomasoquismo é amor e confiança, não dominação e aniquilação.

Sadomasoquismo tem a ver com aniquilação. Contrariamente à lenda popular de que sadomasoquismo expande a sexualidade de alguém, acredito que só restringe e em últimas consequências destrói a um ser sexual. Subordinação, humilhação, e tortura são todos sinais de deliberadamente destruir o eu. Eu recentemente li um artigo sobre a forma que o patriarca do Texas Koresh entwined “sexo, violencia, amor e medo” de forma a controlar os membros de culto. Essas técnicas não são novas; pessoas têm por muito tempo machucado umas às outras em nome do amor, religião e políticas. O sadomasoquismo lésbico de hoje em dia está todo vestido de uma nova roupagem: o figurino de uma “escolha de estilo de vida,” “minoria oprimida[/marginalizada],” “liberação sexual.” Apesar da violência que revira meu estômago, Eu aprecio a candura de Jan Brown’s que dá recorte à retórica liberal sobre os prazeres do sadomasoquismo, e atinge o chão da matéria. Num artigo de Outlook, 1990, entitulado, “Sexo, Mentiras e Penetração, uma Butch Finalmente ‘admite,” Brown escreve: “Sexo que é gentil, passivo, igualitário, não nos move. [Lembram-se quando nós] emfatizavamos a simples diferença entre fantasia e realitdade? Bem, nós mentimos. O poder não é a habilidade de controlar uma imagem violenta. Ele está na volúpia de ser sobrempoderado, forçado, machucado, usado, objetificado. Nós nos masturbamos com o estuprador, Hell’s Angel, papai, o nazi, o policial. Nós sonhamos com o sangue de alguém nas nossas mãos, com risos e choros por piedade. Algumas vezes, nós queremos nos abdicar nas mãos do enforcador. Nós queremos ter liberdade pra ignorar o ‘não’ ou ter nosso próprio ‘não’ ignorado.”


Mentira #3: Sadomasoquismo não é racista nem anti semitistamesmo que nós “atuemos” como proprietários de escravos e africanos escravizados, nazis vs judeus perseguidos.

Meu silêncio sobre sadomasoquismo lésbico terminou quando eu vi duas sadomasoquistas antisemitistas num festival de mulheres. Uma das mulheres que vestia um yarmulke estava caminhando como um cachorro numa coleira em seu pescoço por uma mulher em “couros” nazistas. Quando eu protestei, a mulher em couro polidamente ouviu e concordou em remover sua própria insignia nazista e yarmulke do seu cativo. Eu tive a impressão de que ela nunca sequer considerou as implicações políticas, isto é, o anti semitismo, da “cena” que ela estava atuando. Identificar-se como/com um/a nazi (seu uniforme) em qualquer contexto, é se identificar não somente como um sadista sexualmente dominante, mas também como alguém que odeia judeus, alguém que quer que judeus sofram e sejam aniquilados. Ao mascarar-se como um judeu, (vestindo um yarmulke), preso à uma correia, não somente é se identificar como masoquista sexualmente submissivo. É também abraçar a humilhação e a tortura dos judeus sob nazi e antisemitismo: o judeu é aquele que se machuca, e aqui, veja como ela gosta disso. Alguns jornais gays liberais “censuram” anúncios da KKK, mas ainda publicam anúncios pessoais para leitores procurando por negros, ou latinos ou asiáticos escravos sexuais. Racismo parece ser mais aceitável a eles se este é erotizado. De alguma forma, se erotizada, a humilhação, sadismo e tortura do racismo e anti semitismo se torna aceitável. Tortura sempre tem um componente sexual para isso. Se uma feminista radical está para desafiar o mesmo jornal na questão do sadomasoquismo, nós seremos chamadas de “censuradoras.” Toda a questão de censura é usada pra intimidar-nos e silenciar diálogo crítico sobre sadomasoquismo.


Mentira #4: Sadomasoquismo é consensual; ninguém se machuca se você não quer ser machucado. Ninguém nunca morreu por ´cenas´ sadomasoquistas.

“Esse é o foco no desejo do bottom (o abaixo) que distingue sadomasoquismo de assalto.” (Califia, 1992) É alguma vez OK consentir com a própria humilhação e vitimização de alguém? Eu não creio. Só porque nós “consentimos” à dominação ou abuso, não significa que esta não é opressiva. “Têve uma mulher que fugiu de um assalto sexual pelo seu pai e acabou fazendo proprama por uma sobrevivência consentido? Têve uma mulher que aprendeu lições sexuais do incesto consentido com uma sexualidade na qual ela não obtém nenhum prazer uma vez que ela não possui poder?” (Cole, 1989) Teve um sobrevivente de abuso ritual, tendo passado por sua própria Inquisição na infância, consentido quando ela re-actua tortura sexual na idade adulta o que gatilha suas memórias como uma adulta? A habilidade de palavras pra machucar não deveria ser subestimada. A injúria do estupro é trazida denovo pelas palavras, armas, que nos definem como objetos e que nos dizem que nós merecemos qualquer coisa que tomamos. O auto-ódio das mulheres resulta tanto de assaltos verbais como de físicos. Alguma forma de abuso verbal está envolvida na maior parte das cenas sadomasoquistas. Quando essas palavras viciosas são transportadas pra um contexto de excitação sexual, elas possuem um impacto poderoso. Palavras sexuais sadistas contribuem para a auto-depreciação da mulher. Sadistas falam da boca pra fora de consenso, ignoram os sistemas poderosos que criam desigualdade e tornam consenso significativo impossível. Nessa cultura nós não temos experiência de relacionamentos de poder igual. “Não é o reconhecimento de todo o sadomasoquismo que ainda há em nossas psiques que conflitua com feminismo, o que nós temos problema é a falta de vontade de refletir seus significados políticos.“ ( Fritz, 1983) Violência extrema algumas vezes ocorre durante “jogos” sadomasoquistas. Eu fui informada de muitas instâncias onde palavras de “segurança” foram ignoradas durante “cena” sadomasoquista. Eu também soube que mulheres já morreram durante atividades sadomasoquistas e que essas mortes somente são abafadas - elas não são amplamente reconhecidas.
Mentira #5: Sadomasoquismo é apenas sobre sexo. Isso não extende-se pro resto da relação.

Sadomasoquismo tem tudo a ver com sexismo, racismo e classe no mundo real. É muito relacionado à auto-hostilidade internalizada. Um membro Samois escreveu:” Para ser um bom bottom [masoquista], para agradar minha amante, é um sentimento muito poderoso. As lições que aprendi na minha cama, elas podem levar a outros aspectos da minha vida e ver como isso me faz poderosa…para aproveitar cada momento do que eu estou fazendo.” (Linden et al., 1982) Eu vejo lésbicas abraçando a hierarquia de dominancia/submissão que feministas gastaram suas vidas todas tentando eliminar nas relações heterosexuais. Assim como o racismo e anti-semitismo são erotizados no sadomasoquismo, a dominação e sexismo em si mesmo são erotizados nas relações sadomasoquistas. A relacionamento sexual sadista estabelece o tom pro resto da relação. Submetendo e desistindo durante um desacordo, por exemplo, se torna um ato sexual. E violência física real pode e de fato ocorre como natural extensão de desigualdade na relação sexual. Bater em alguém é usualmente um ato sadista. Assédio e estupro ocorrem em relacionamentos lésbicos - e eles são normalizados pelos modelos sexualmente dados. O sarcasmo coercitivo e dominante do sadista é algumas vezes forçado pra dentro de nossas comunidades. Em 1988, eu postei uma notícia para uma oficina chamada “Os efeitos das práticas sexuais sadistas/violentas em não-partipitantes: um grupo suporte; fechado para participantes sadomasoquistas e advogadores.” Assim que um pequeno grupo de nós sentou no chão e começou a conversar, seis ou sete mulheres com chicotes vieram e ficaram, de braços cruzados, atrás de nós. Elas não disseram nada; a intenção de intimidar estava clara. Outro exemplo dos efeitos pervasivos do sadomasoquismo numa comunidade ocorreram em 1990, quando os organizadores de um largo festival de mulheres escreveram sobre como atividade sadomasoquista de algumas mulheres inflingia no direito de outras mulheres de “se moverem livremente e seguramente sem medo e horror.”


Mentira #6: Pornografia sadomasoquista não tem relação com a sociedade sadomasoquista em que vivemos. “Se isso te faz bem, vá em frente.” “Nós criamos nossa própria sexualidade.”

Nós internalizamos fantasias sadomasoquistas porque esta é a sexualidade que nos foi empurrada pelas gargantas desde o dia em que nascemos. Como mulheres fomos criadas pra sermos os “bottoms:” lésbicas “bottoms” tendem a exceder “tops” [sadistas] de 10 pra 1. “O que te faz bem” é largamente construido pela opressão social: racismo, sexismo, classismo. Nós nascemos com uma sexualidade inata onde nenhum desses elementos são aprendidos ou manipulados. Mesmo que muitos liberais,advogadores pro-pornografia neguem qualquer relação entre sadomasoquismo e a violência no resto da cultura. Já não é mais possível discontar os efeitos causais da pornografia na violência contra mulher. Diana Russell recentemente publicou um sumário de pesquisa sobre as formas em que pornografia foi mostrada pra causar prejuízo à mulheres. (Russell, 1993) Eu acredito que seu argumento pode ser aplicado a pornografia lésbica exatamente da mesma forma: pornografia, seja hetero ou lésbica, promove desigualdade e erotiza os relacionamentos desiguais. Atualmente, assim como nossos hábitos de comer, sexualidade é completamente condicionável. Quando nós ensaiamos abuso sadista na fantasia, pornografia, e jogos sexuais, nós legitimamos sua autoridade em nossas mentes, e podemos acabar ajudando outras autoridades nas nossas vidas a manter-nos em sujeição de outras formas. Sadomasoquismo está por toda parte nessa cultura - só dê uma boa olhada ao seu lugar de trabalho, sua família, sua igreja.


Mentira #7: Lesbica “no sadomasoquismo” são feministas, devotadas a mulheres, e uma comunidade só-mulheres. Pornografia lésbica é “por mulheres e para mulheres”.

Pat Califía disse que preferia estar fixada numa ilha deserta com um garoto masoquista do que com uma lésbica baunilha.

Bottoms são vistos como “genericos, trocáveis, e substituíveis.” (Califia, 1992) Califia está comprometida com a regra do sadista, não com qualquer preferência sexual particular.” Sexo definido como uma commodity/mercadoria [sadomasoquismo] leva ao mercado onde o gênero de uma prostituta e cliente é irrelevante comparado ao tipo e custos dos serviços providos.” (Clarke, 1993) Enquanto lésbicas que estão “no sadomasoquismo”definem a si mesmas como lésbicas, suas práticas sadomasoquistas são bisexuais. Eu não tenho nenhuma crítica política à bissexualidade - o que eu estou criticando é a postura sadomasoquista como sendo a de lésbicas devotadas da comunidade de mulheres. Pornografia pseudolésbica, isso é, fotos de mulheres que estão imitando comportamentos ´lesbians’, tem sindo um elemento favirecido na pornografia masculina heterosexual desde que esta foi primeiramente publicada. Ela vende. Apesar do fato de que esta é muitas vezes promovida como sendo autorada e distribuida por e para mulheres, pornografia “lésbica” vende vorazmente à homens heteros.


Mentira #8: Uma vez que lésbicas são superiores a homens, nós podemos “performar” com sadomasoquismo numa forma libertária que heterosexuais estão impedidos.

Eu não penso que mulheres são biologicamente superiores a homens. De fato, eu vejo essa noção como perigosa e reacionária: “Anatomia é destino” não é exatamente uma idéia feminista. Atitudes e comportamentos sadistas e masoquistas entre lésbicas, de fato, são bom exemplo de como nós internalizamos idéias abusivas assim como todo mundo faz. Nós estamos seduzidas pela dominação masculina - porque nós vemos que é ali que poder reside. A gente ainda se ilude se pensarmos que é possível “encenar” o estuprador sem se tornar o estuprador.


Mentira #9: Reatuar o abuso o cura. Sadomasoquismo restaura injúrias emocionais em assalto sexual da infância.

Isso é uma mentira e realmente me perturba. Uma grande porcentagem de mulheres “no sadomasoquismo” tem histórias de assalto sexual na infância, do que aquelas que não são participantes em sadomasoquismo. Mesmo assim, sadomasoquismo obscurece a verdadeira dor e abuso de mulheres.Como pode você dizer que a diferença entre “real” e “fingido” quando alguém tem flashbacks e se torna a criança denovo no meio da tortura sexual “consensual”? Algumas sentem um desejo intenso, até mesmo compulsivo em torno de aniquilação sexual que é expressa em atividade sadomasoquista que espelha o abuso sofrido quando crianças. A noção de que atuar o abuso é terapêutico e o elimina vem da teoria da catarse: faça isso uma vez, traga isso pra fora seu sistema, então você vai sair dele. Não há evidência de que a catarse trabalhe como uma solução para conflito social ou psicológico, ainda assim essa teoria é usada pra racionalizar a disseminação de pornografia. Pornografia não parece ter servido como uma panela de pressão libertária para homens, fazendo assim com que mulheres se libertem do estupro. Ao contrário, pornografia parece ter funcionado como uma propaganda pro-estupro. Catarse sadomasoquista não parece recuperar o abuso de qualquer forma: uma mulher escreveu “depois de dezesete anos de[abuso sexual infantil], as lésbicas que conheci apenas queriam que eu fizesse mais do mesmo. Eu tive pesadelos e prejuízo de ambos.” (Anonima, 1990) Sadomasoquismo é a repetição, não a terapia, de abuso sexual infantil. Alguns sugeriram que sadomasoquismo pode atualmente ser psicologicamente viciante. Eu ouvi de mulheres descrevendo a si mesmas como estando “em recuperação do sadomasoquismo,” da mesma forma que elas falam de adicção alcóolica. Talvez a adicção física a certos tipos de traumas começa com complexas reações físicas para prolongar o abuso na infância que é então revivido nos relacionamentos sadomasoquistas adultos.


Mentira #10. Sadomasoquismo é dissidência politica. É progressivo e até “transgressivo” naquilo que quebra as regras da ideologia sexual dominante.

A postura de sadistas e masoquistas como “transgressiva” pode estar confundindo aqueles que não são familiar a teoria feminista. Por definição, o objetivo último do feminismo é acabar com sadomasoquismo. Nosso sistema é sadomasoquista ao seu extremo, como celebrar isso pode ser qualquer forma de rebelião verdadeira? (Fritz, 1983). Os valores políticos do sadismo são ofensivamente antifeministas, totalitários e direitistas. Sadomasoquismo é negócio como sempre; relações de poder como sempre; raça, gênero e classe como sempre. Sadomasoquismo é uma versão ritual de dominância e submissão. Sadomasoquismo não é um desvio criativo da norma comportamental heterosexual. É a exata definição qualitativa das relações entre homens e mulheres. Sadismo é a extenção lógica do comportamento que surge do poder masculino. ( Wagner, 1982 ) Nós vivemos num mundo misoginista, e mulheres tem tão pouco poder político, que é fácil fantasiar sobre absoluto poder pessoal do que com organização política por mudança. (Clarke, 1993). Muitas jovens lésbicas recentemente disseram pra mim que suas fantasias com sadomasoquismo eram sua “salvação” num mundo onde elas não vêem qualquer possibilidade de obter poder real. Dykes sadomasoquistas jogam-atuam poder e prestígio num mundo que destrói qualquer esforço de organizar por poder real. O jogo-performance ajuda-nos a esquecer o quanto a gente é odiada e prejudicada. E esquecer é que é o real perigo.

(para contatar a autora escreva: mfarley@prostitutionresearch.com)

Referencias:
Anonymous, letter to Lesbian Connection, January-February 1990, Vol. 12, Issue 4, page 11.
Atkinson, Ti-Grace. Amazon Odyssey, 1974.
Brown, Jan. “Sex, Lies, and Penetration, a Butch Finally ‘Fesses Up,” Outlook, 1990.
Califia,Pat. “The Limits of the S/M Relationship,” in Outlook, Winter, 1992, pages 16-21.
Clarke, De. “Consuming Passions: some thoughts on history, sex, and free enterprise,”
in Unleashing Feminism: critiquing Lesbian Sadomasochism in the Gay Nineties,” (Irene Reti, ed.), 1993, HerBooks, Santa Cruz, CA.
Cole, Susan. Pornography and the Sex Crisis, 1989.
Dworkin, Andrea. Pornography: Men Possessing Women, New York, Putnam’s, 1979.
Dworkin, Andrea. Woman Hating, New York, E.P. Dutton, 1974.
Fritz, Leah. “Is there Sex after Sadomasochism?” Village Voice, Nov. 1, 1983, pages 24-25.
Linden, Robin R.; Pagano, Darlene R.; Russell, Diana E.H.; Star, Susan
Leigh (eds.) Against Sadomasochism, a Radical Feminist Analysis, 1982.
Millett, Kate. Sexual Politics, New York, Doubleday, 1970.
Morgan, Robin, Editorial, Ms., May-June, 1993, Vol. III, Number 6
Morgan, Robin. The Demon Lover: on the Sexuality of Terrorism, 1989
Reti, Irene. “Remember the Fire: Lesbian Sadomasochism in a post-Nazi
Holocaust World”, in Unleashing Feminism: critiquing Lesbian
Sadomasochism in the gay nineties, (Irene Reti, ed.), HerBooks,
Santa Cruz, CA.
Russell, Diana E. H. Against Pornography: the Evidence of Harm, Russell
Publications, 2018 Shattuck Ave., Berkeley, CA, 94704, 1993.
Wagner, Sally Roesch, in Linden, et al, Against Sadomasochism, 1982.






(tradução por Janaína/Patriarkill/Veggie)

QUESTIONÁRIO DE UM BDSMer


1) É o meu fetiche um reflexo ou alimentado por atitudes opressivas (sexismo, racismo, homofobia, ableism, etc) que eu carrego?

2) Estou eu usando meu fetiche para ganhar acesso a dinâminas de poder que eu normalmente não tocaria porque são agressivas? Se sim, estou eu usando meu fetiche para subverter estas formas de poder?

3) Mais importante, que efeito meu fetiche tem no mundo? BDSM é (entre outras coisas) um set de ferramentas para lidar com poder. Estou eu usando estas ferramentas em uma maneira que resiste formas de opressão, ou estou usando as usando para oprimir?

sábado, novembro 03, 2007





Algumas Reflexões sobre o Separatismo e o Poder- Marilyn Frye (1977)


Tenho estado a tentar escrever algo sobre o separatismo quase desde o principiar da minha consciência feminista; contudo tal sempre foi para mim de alguma forma um assunto difícil, o qual, logo que o tentava agarrar, suavemente se esvaía tomando a forma de outros assuntos tais como a sexualidade, o ódio-aos-homens, a chamada discriminação inversa, o utopismo apocalíptico, etc.
Na minha vida e dentro do feminismo tal como o compreendo, o separatismo não é uma teoria ou uma doutrina, nem uma exigência de certos comportamentos específicos por parte das feministas, embora esteja inegavelmente ligado ao lesbianismo. O feminismo parece-me ser caleidoscópico -- algo cujas formas, estruturas e padrões se alteram com cada movimento da criatividade feminista; e um elemento que se encontra presente através de todas as mudanças é um elemento de separação. Este elemento tem diferentes papéis e relações em diferentes movimentos do espelho -- esse elemento assume sentidos diferentes, torna-se diferentemente conspícuo, diferentemente determinado ou determinante, dependendo de como os pedaços caem e quem está a observar. O tema da separação, nas suas variações múltiplas, está presente em tudo desde o divórcio às comunidades exclusivas de separatistas lésbicas, desde os abrigos para mulheres espancadas a círculos de bruxas, desde os programas de Estudos sobre as Mulheres aos bares de mulheres, desde a expansão de centros de cuidados à infância ao aborto livre e dependente da vontade das mulheres. A presença deste tema é vigorosamente obscurecida, trivializada, mistificada e totalmente negada por muitas apologistas feministas, que parecem achá-lo tema embaraçoso, enquanto que é aceite, explorado, expandido e ramificado pela maioria das teóricas e activistas mais inspiradoras. O tema da separação está visivelmente ausente ou severamente limitado da maioria das coisas que eu entendo como sendo soluções pessoais e projectos penso-rápido, tal como a legalização da prostituição, contratos de casamento liberais, a melhoria do tratamento de vítimas de violação e acção afirmativa. A natureza antagónica da assimilação e do separatismo parece-me ser uma das principais coisas que guia ou determina a avaliação de várias teorias, acções e práticas como sendo reformistas ou radicais, como indo à raiz da questão ou sendo relativamente superficial. Assim a minha questão é esta: O que contém a separação, em qualquer ou todas as suas muitas formas e graus, que a torna tão basilar e tão sinistra, tão excitante e tão repelente?
A separação feminista é, como se sabe, uma separação de vários graus os modos dos homens e das instituições, relacionamentos, papéis e actividades que são definidas-pelos-homens, dominadas-pelos-homens e que operam para o benefício dos machos e a manutenção do privilégio macho -- sendo que esta separação é iniciada ou mantida, de acordo com a sua vontade, por mulheres (O separatismo masculinista é a segregação parcial das mulheres dos homens e dos domínios machos pela vontade dos homens. Esta diferença é crucial.).
A separação feminista pode assumir várias formas. O terminar ou evitar relações íntimas ou de trabalho, proibir alguém de entrar na sua casa; excluindo alguém da sua companhia, ou da sua reunião; retirar-se da participação nalguma actividade ou instituição, ou evitar essa participação; evitar a comunicação e a influência vindas de certos quadrantes (não ouvir músicas com letras sexistas, não ver televisão); recusar empenho ou apoio; rejeitar ou ser malcriada para com indivíduos ofensivos. Algumas separações são subtis realinhamentos de identificação, prioridades e empenhos, ou o trabalho com agendas/programas que apenas por acaso coincidem com as agendas/programas da instituição para a qual se trabalha. A cessação da lealdade para com algo ou alguém é uma separação; e a cessação do amor. As separações da feminista são rarissimamente procuradas ou mantidas directamente como finalidades últimas, pessoais ou políticas. O que de tal mais se aproxima, penso, é a separação que representa a repulsa instintiva e auto-perservante da misoginia sistemática que nos rodeia. Geralmente as separações ocorrem e são mantidas com vista a alguma outra coisa tal como a independência, a liberdade, o crescimento, a invenção, a sororidade, a segurança, a saúde, ou a prática de costumes novos ou hereges. Frequentemente as separações em questão evoluem, sem premeditação, à medida que seguimos o nosso caminho e achamos que várias pessoas, instituições, ou relacionamentos são inúteis, obstrucionistas ou incomodativos, e os pomos de lado ou os deixamos para trás. Por vezes, as separações são planeadas conscientemente e cultivadas enquanto pre‑requisitos ou condições necessários para dar continuidade aos nossos assuntos. Por vezes, as separações são conseguidas ou mantidas facilmente, ou com um sentimento de alívio, ou mesmo de alegria; por vezes, são conseguidas ou mantidas com dificuldade, à custa de vigilância constante ou com ansiedade, dor ou desgosto.
A maioria das feministas, provavelmente todas, praticam alguma separação dos machos e das instituições por eles dominadas. Uma separatista pratica a separação conscientemente, sistematicamente, e provavelmente de uma maneira mais geral do que as outras, e advoga a completa separação como parte da estratégia consciente da libertação. E, contrariamente à imagem da separatista como covarde escapista, a vida desta é a vida e o programa que inspira a maior hostilidade, depreciação, insulto e confrontação, e geralmente ela é aquela contra quem as sanções económicas operam mais concludentemente. A penalização pela recusa de trabalhar com ou para os homens costuma ser a fome (ou no mínimo, viver sem assistência médica); e se a nossa política de não-cooperação é mais subtil, o nosso meio de subsistência está constantemente ameaçado, uma vez que não somos uma leal partidária, um membro adequado da equipa, ou seja o que for. As penalidades reservadas à lésbica são o ostracismo, o assédio, e a insegurança de emprego ou o desemprego. A penalização reservada à rejeição dos avanços sexuais dos homens é frequentemente a violação, e talvez ainda mais frequentemente, a perda de coisas tais como oportunidades profissionais ou no emprego. E a separatista vive com o peso adicional de ser tomada por muitos como uma preconceituosa moralmente depravada que odeia homens. Mas aqui encontramos uma pista: se estamos a fazer algo tão rigorosamente proibido pelos patriarcas, devemos estar a fazer algo de certo.
Há uma ideia a flutuar, quer na literatura feminista, quer na anti-feminista, segundo a qual as mulheres e os homens vivem numa relação de parasitismo, um parasitismo do homem sobre a mulher...que é, regra geral, a força, energia, inspiração e apoio psíquico das mulheres que mantém os homens em actividade, e não a força, agressão, espiritualidade e caça dos homens que mantêm as mulheres em actividade.
Por vezes diz-se que o parasitismo é contrário, que a mulher é a parasita. Mas só se consegue imaginar a aparência da mulher como parasita se se tiver uma visão muito estreita da vivência humana -- historicamente provinciana, estreita em relação à classe e à raça, e limitada na concepção daquilo que são os bens necessários. Geralmente, o contributo da mulher para o seu bem estar material é e sempre foi substancial; em muitas épocas e lugares tem sido independentemente suficiente. Podemos e devemos distinguir entre uma dependência material parcial e contingente criada por uma certa economia de dinheiro e estrutura de classe, e a quase ubíqua dependência espiritual, emocional e material dos homens face às mulheres. Presentemente, os homens providenciam, umas vezes sim outras vezes não, uma parcela do apoio material das mulheres, em circunstâncias aparentemente feitas para tornar difícil às mulheres o providenciar por si próprias. Mas as mulheres providenciam e geralmente têm providenciado aos homens a energia e o espírito necessários à vida; os homens são apoiados psiquicamente pelas mulheres. E isto é algo que os homens, ao que parece, não podem fazer por si próprios, nem parcialmente.
O parasitismo dos homens face às mulheres é demonstrado pelo pânico, raiva e histeria gerados em tantos deles só de pensarem que vão ser abandonados pelas mulheres. (...)
Se é verdade que um aspecto fundamental das relações entre os sexos é o parasitismo masculino, tal poderá ajudar a explicar por que é que certas questões são particularmente excitantes para os supremacistas patriarcais. Por exemplo, dadas as óbvias vantagens do aborto facilitado para o controlo populacional e diminuição dos custos da segurança social, e para assegurar o acesso sexual dos homens às mulheres, é um pouco surpreendente que os supremacistas se lhe oponham tão inabalavelmente. Mas vejamos...
O feto vive parasiticamente. É um animal distinto que vive da vida (o sangue) de outra criatura animal. É incapaz de sobreviver por si próprio, de nutrição independente; é incapaz mesmo de simbiose. Se é verdade que os homens vivem parasiticamente das mulheres, parece razoável supor que muitos deles e daquelas que lhes são leais são de alguma forma sensíveis ao paralelo entre a sua situação e a do feto. Poderiam facilmente identificar-se com o feto. A mulher que se sente livre para ver o feto como um parasita poder-se-á sentir livre para ver o homem como parasita. A vontade da mulher em cortar a linha-de-vida a um parasita sugere uma vontade de cortar a linha-de-vida a outro parasita. A mulher que é capaz (legal, psicológica e fisicamente) de rejeitar um dos parasitas decisivamente, no seu próprio interesse, independentemente, é capaz de rejeitar, com a mesma decisão e independência, o fardo semelhante do outro parasita. Os olhos do outro parasita, a imagem do aborto inteiramente decidido pela mulher, sem sequer uma submissão ritual ao poder masculino do veto, é a imagem especular da morte.(...)
Há outros motivos que levam os supremacistas patriarcais a sentirem-se perturbados pelo aborto segundo a decisão da mulher, sendo um dos principais que tal se tornaria um modo significativo de controlo das mulheres sobre a reprodução, e pelo menos visto de certos ângulos, parece que o progresso do patriarcado é o progresso em direcção ao controlo masculino da reprodução, começando com a propriedade de mulheres e continuando através da invenção da obstetrícia e a tecnologia de gestação extra-uterina. Desistir desse controlo seria desistir do patriarcado. A histeria em torno do aborto explica-se em termos de um pressentimento muito imediato e pessoal de rejeição do útero-mulher.
Estou a discutir o aborto porque me parece ser o campo mais publicamente emocional e mais fisicamente dramático onde actualmente se joga o tema da separação e do parasitismo masculino. Mas há outros campos. Por exemplo, as mulheres que recentemente assumiram uma nova visão da sua realidade tendem a deixar casamentos e famílias, quer completamente através do divórcio, quer parcialmente, negando os seus serviços domésticos e sexuais. Muitas mulheres que estão a acordar tornam-se celibatárias ou lésbicas, e as outras tornam-se muito mais exigentes na escolha de quando, onde e em que relacionamentos terão sexo com homens. E os homens afectados por estas separações geralmente reagem com hostilidade defensiva, ansiedade, e culpabilização da mulher, para não falar quando descem ao nível de argumentos ilógicos que equivalem e excedem as suas próprias imagens fantasiosas da irracionalidade das mulheres. O meu argumento é que eles têm muito medo porque dependem em demasia dos bens que recebem das mulheres, e estas separações negam-lhes acesso a esses bens.
O parasitismo masculino significa que os homens têm de ter acesso às mulheres; é o Imperativo Patriarcal. Mas o dizer-não feminista é mais do que uma remoção (re-direcção, re-colocação) substancial de bens e serviços porque o Acesso é uma das faces do Poder. A negação das mulheres ao acesso masculino às mulheres corta substancialmente uma série de benefícios, mas tem também a forma e o pleno portento do assumir do poder.
As diferenças de poder manifestam-se sempre em acesso assimétrico. O presidente da república tem acesso a quase todos para qualquer coisa que possa querer deles, e quase ninguém tem acesso a ele. Os super-ricos têm acesso a quase todos; quase ninguém tem acesso a eles. Os recursos do empregado estão à disposição do patrão de uma forma que os recursos do patrão não são acessíveis ao empregado. O pai e a mãe têm incondicional acesso ao quarto da criança; a criança não tem esse acesso ao quarto dos pais. A criança não tem licença para mentir; o pai e a mãe têm a liberdade de excluir a criança com as mentiras que lhes apetecer. O escravo é incondicionalmente acessíveis ao senhor. O poder total é o acesso incondicional; a impotência total é ser incondicionalmente acessível. A criação e manipulação do poder constitui-se pela manipulação e controlo do acesso.
Os grupos, encontros, projectos exclusivamente de mulheres parecem feitos para causar controvérsia e confrontos. Muitas mulheres ofendem-se com eles; muitas têm medo de ser aquela que anuncia a exclusão dos homens; é visto com um instrumento cuja utilização carece de muita justificação complicada. Penso que isto é porque a exclusão consciente e deliberada dos homens pelas mulheres, seja do que for, é insubordinação aberta, e gera nas mulheres um medo do castigo e da represália (medo frequentemente justificado). A nossa própria timidez e desejo de evitar confrontos geralmente impede-nos de ter muito a ver com grupo e encontros exclusivamente para mulheres. (...) O encontro para mulheres exclusivamente é um desafio fundamental à estrutura do poder. É sempre privilégio do senhor entrar na cabana do escravo. O escravo que resolve excluir o senhor da sua cabana está a declarar-se não-escravo. A exclusão dos homens do encontro de mulheres não só lhes retira certos benefícios (sem os quais poderiam sobreviver); é um controlo pelo acesso, daí um assumir de poder. Não é apenas mesquinho, é arrogante.
Torna-se agora claro porque há sempre uma aura de negatividade em torno do separatismo - uma aura que ofende a Pollyanna em cada uma de nós e que soa a uma atitude puramente defensiva àquilo que há de teórica política que há em nós. É o seguinte: Primeiro: quando aqueles que controlam o acesso nos tornaram totalmente acessíveis, o nosso primeiro acto de tomada de controlo tem de ser a negação do acesso, ou tem de ter como um dos seus aspectos a negação do acesso. Isto não se dá porque estamos carregadas de negatividade (não-feminina ou politicamente incorrecta); trata-se da lógica da situação. Quando começamos de uma posição de total acessibilidade tem de haver um aspecto de dizer-não, que é o princípio do controlo, em cada acto ou estratégia efectiva, sendo os actos e as estratégias efectivos precisamente aqueles que deslocam o poder , isto é, actos e estratégias que envolvem a manipulação e o controlo do acesso. Segundo: quer digamos "não" ou não, ou negamos ou rejeitamos, nesta ou noutra ocasião, a capacidade de dizer "não" (efectivamente) é logicamente necessária ao controlo. Quando estamos em controlo do acesso a nós próprias haverá algum dizer-não, e quando estivermos mais acostumadas, quando for mais comum, uma parte vulgar da vida, não parecerá tão óbvio ou esforçado...não pareceremos a nós próprias ou aos outros como sendo particularmente negativas. Neste aspecto de nós próprias e das nossas vidas, parecermos aos nossos próprios olhos agradavelmente, como seres activos com movimento próprio, com suficiente forma e estrutura, com suficiente integridade para gerar fricção. A nossa experiência de dizer-não será um aspecto da nossa experiência, da nossa definição.
Quando os nossos actos ou práticas feministas têm um aspecto de separação estamos a adquirir poder por meio do controlo do acesso, e simultaneamente por meio da aquisição da definição. A escrava que exclui o senhor da sua cabana está por esse meio a declarar-se não-escrava. E a definição é uma outra face do poder.
Os poderosos costumam determinar aquilo que é dito e dizível. Quando os poderosos rotulam ou baptizam algo, esse algo torna-se o que os poderosos lhe chamaram. Por exemplo, quando o Ministro da Defesa chama a algo uma negociação de paz, então seja o que for que ele chamou uma negociação de paz é uma situação de negociação de paz. Se a actividade em questão incidia sobre os termos da troca de reactores nucleares e redistribuições territoriais, incluindo acordos para os resultantes refugiados, isso é negociar a paz. As pessoas aplaudem, e aos negociadores é dado o Nobel da Paz. Por outro lado, quando eu chamo a determinado acto da fala uma violação, o meu "chamá-lo" não o torna violação. Na melhor das hipóteses, tenho de explicar e justificar e tornar claro exactamente o que é que neste acto da fala é agressão e exactamente de que maneira, e então os outros concordam em dizer que o acto foi como uma violação ou poderia em sentido figurado chamar-se uma violação. O meu contra-ataque não será aceite como simples acto de auto defesa. E aquilo a que eu chamei rejeição do parasitismo, eles chamam a perda das virtudes mulheris da compaixão e do "amor". E geralmente quando as mulheres rebeldes chamam algo a uma coisa e os supremacistas patriarcais chamam-lhe outra coisa, os supremacistas ganham.
Regra geral as mulheres não são as pessoas que definem, e, a partir do nosso isolamento e impotência, não podemos simplesmente começar a dizer coisas diferentes das que os outros dizem e fazer com que os nossos nomes prevaleçam. Mas, se reformularmos o acesso, podemos definirmo-nos. Ao assumir o controlo do acesso, desenhamos novas fronteiras e criamos novos papéis e relacionamentos. Isto, embora cause tensão, estranheza e hostilidade, está em larga medida dentro das possibilidades de indivíduos e pequenos grupos, contrariamente à redefinição verbal declarada.
Podemos ver o acesso como sendo de 2 tipos, "natural" e humanamente organizado. Um urso num parque tem aquilo a que se pode chamar acesso natural ao cesto da merenda do humano desarmado. O acesso do patrão aos serviços pessoais da secretária é um acesso humanamente organizado; o patrão exerce um poder institucional. Olhadas de determinado ângulo parece-me que as instituições são padrões de acesso humanamente organizadas -- acesso às pessoas e aos seus serviços. Mas as instituições são artefactos de definição. No caso de instituições intencional e formalmente organizadas, isso torna-se muito claro, pois as definições relevantes encontram-se explicitadas em constituições, regulamentos e regras. Quando se define o termo "presidente", está-se a definir presidentes nos termos daquilo que podem fazer e daquilo que lhes é devido por outras instituições, e "aquilo que eles podem fazer" é uma questão do acesso que têm aos serviços dos outros. De modo semelhante, as definições de reitor, estudante, juiz, e polícia classificam padrões de acesso, e as definições de escritor, criança, proprietário e, naturalmente, marido, esposa, e homem e rapariga. Quando mudamos o padrão de acesso, impomos novas utilizações de palavras àqueles/as afectados/as pelas mesmas. O termo "homem" tem de ter uma deslocação de significado quando a violação já não é possível. Quando tomamos controlo do acesso sexual a nós próprias, do acesso ao nosso apoio psíquico e à nossa função reprodutiva, acesso ao ser-mãe e ao ser-irmã, redefinimos a palavra "mulher". A deslocação da utilização da palavra é imposta aos outros por uma mudança na realidade social; não aguarda o seu reconhecimento da nossa autoridade de definir. Quando as mulheres separam (se retiram, se reagrupam, transcendem, empurram para o lado, migram, dizem não), estamos simultaneamente a controlar o acesso e a definir. Somos duplamente insubordinadas, uma vez que nem uma nem outra destas coisas é permitida. E o acesso e a definição são ingredientes fundamentais na alquimia do poder, portanto somos duplamente, e radicalmente insubordinadas.
Assim, se estas são algumas das maneiras em que a separação se encontra no cerne da nossa luta, isso ajuda-nos a explicar porque é que a separação é um tópico tão quente. Se há algo que as mulheres temem é a tomada de poder. Desde que nos fiquemos aquém desse ponto, os patriarcas terão, na maioria dos casos uma atitude indulgente. Temos medo daquilo que nos acontecerá quando realmente os assustarmos. Este não é um medo irracional. É nossa experiência no movimento de mulheres que o elemento defensivo, violento, hostil e irracional da reacção ao feminismo tende a corresponder com o grau de ostentação do elemento de separação na estratégia ou projecto que despoleta a reacção. As separações que advêm quando as mulheres deixam casa, casamentos e namorados, separações de fetos, e a separação do lesbianismo são todas bastante dramáticas. Isto é, são dramáticas e ostensivas quando percebidas de dentro da estrutura erigida pela mundivisão patriarcal e pelo parasitismo masculino. Os assuntos ligados ao casamento e ao divórcio, ao lesbianismo, e ao aborto tocam homens individuais (e suas simpatizantes) porque eles sentem a relevância em relação a si próprios desses assuntos -- eles sentem a ameaça de que poderão ser os próximos.

Assim, a heterossexualidade, o, casamento, e a maternidade, que são as instituições que mais obvia e individualmente mantêm a acessibilidade das mulheres pelos homens formam a tríade central da ideologia anti-feminista, e os espaços, organizações, encontros, aulas exclusivamente para mulheres são ilegalizadas, suprimidas, assediadas, ridicularizadas e punidas, em nome dessa outra bela e duradoura instituição patriarcal, a Igualdade Sexual.
Para algumas de nós estas questões poderão parecer quase alheias... questões estranhas para estarem no centro das atenções. Nós estamos empenhadamente ocupadas naquilo que nos parece as nossas insubordinações ostensivas: vivendo as nossas próprias vidas, tomando conta de nós próprias e de cada uma, fazendo o nosso trabalho, e em particular, dizendo a verdade que vemos. Todavia, o pecado original é a separação que essas actividades pressupõem, e será por elas, não pela nossa arte ou filosofia, não pelos nossos discursos, não pelos nossos "actos sexuais" (ou abstinências), que seremos perseguidas, quando o pior der no pior.

Tradução de Maria Josefina Silva in Lilás nº10, do texto de Marilyn Frye “Some Reflections on Separatism and Power” retirado de Sarah Lucia Hoagland e Julia Penelope (ed.) (1988) For Lesbians Only -- A separatist anthology (Para lésbicas apenas -- uma antologia separatista), Londres: Onlywomen Press


Furies Coletive, separatistas.

Pensando o *lesbianismo (ismo de prática) feminista

- Entrevista com Ochy Curiel

"O lesbianismo não se entende somente como uma prática sexual, mas também, sobretudo, como uma atitude de vida, uma ética emoldurada em uma proposta política."

A afirmação é da ativista feminista Ochy Curiel. Em junho deste ano, o site do Projeto de Desobediência Informativa publicou um interessante artigo da ativista feminista intitulado “El lesbianismo feminista: uma propuesta política transformadora”. No documento, Ochy defende o lesbianismo não como uma identidade, uma orientação ou uma opção sexual, mas como uma posição política. Na entrevista a seguir, Ochy fala de como interpreta o movimento lesbofeminista como uma posição política, da representatividade que o movimento possui, dos grupos como o GLBT e das suas aspirações para o lesbianismo feminista. “As lésbicas, as mulheres e a humanidade devem ter uma visão integral da realidade, pois o movimento deve afetar as políticas neoliberais, a guerra, o militarismo, o racismo, os fundamentalismos na vida das mulheres, isto é, como se manifesta realmente o patriarcado em todas as suas formas atuais”, acredita ela.

Rosa Inés Curiel Pichardo (Ochy) nasceu na República Dominicana. É cantora e uma importante ativista do movimento lésbico-feminista. Desde a década de 1980, trabalha pelos movimentos polulares através do Centro Dominicano de Estudos da Educação, em Santo Domingo. Ajudou a fundar do Ce-mujer, uma organização não-governamental de mulheres trabalhando no departamento de assessoria comunitária. Mais tarde, na década de 1990, Ochy passa a fazer parte da diretoria da Casa pela Identidade das Mulheres Afro, uma organização feminista na luta contra o racismo e o sexismo. Ochy também fez parte da Rede de Mulheres Afrolatinoamericanas e Afrocaribenhas. Tem sido organizadora de dois importantes encontros continentais: o Encontro de Mulheres Negras e o Encontro Feminista da América Latina e Caribe.

IHU On-Line – Como o lesbianismo feminista pode ser interpretado como uma posição política?Ochy Curiel – O lesbianismo feminista parte de um conceito-chave: a heterossexualidade como norma obrigatória e como uma instituição política que diminui a autonomia das mulheres. Isso supõe entender a heterossexualidade não como prática sexual, mas como um sistema político que implica na exploração das mulheres nos planos sexual, emocional, material e simbólico. Essa exploração tem sido respaldada pelas leis, pela religião, pelas imagens midiáticas, enfim, por tudo. A heterossexualidade tem feito com que a independência e a autonomia das mulheres fiquem apagadas da história, propondo a idéia de que elas pertencem aos homens, seja como mãe, seja como esposa. A heterossexualidade obrigatória é usada para justificar o fato de que os homens pensam que o corpo das mulheres lhes pertença e, assim, seja apenas um objeto de exploração para cometer as violências sexuais, os femicídios, a exploração do trabalho etc. O lesbianismo feminista explica que a mulher não depende econômica, emocional e materialmente dos homens. Esse já é um ato subversivo frente ao patriarcado e frente a todas essas formas de exploração e subordinação. Não necessitamos dos homens para viver, pois criamos redes solidárias entre mulheres, sejam elas lésbicas, ou não. Essas redes têm gerado outras formas de relação, de sexualidade e prazer, nem falocêntricas nem opressoras. São outras relações sociais não hierárquicas. A partir dessa posição, o lesbianismo, então, não se entende somente como uma prática sexual, mas também, sobretudo, como uma atitude de vida, uma ética emoldurada em uma proposta política.

IHU On-Line – Qual é a representatividade do lesbianismo feminista hoje na América Latina? Qual é sua força política?

Ochy Curiel – Acho que não podemos falar em representatividade, porque no movimento lésbico-feminista nenhuma organização representa o resto das organizações, muito menos na América Latina. Acredito que, a partir dos anos 1990, atingimos o auge dos espaços lésbicos-feministas, graças ao impacto do feminismo que buscava, entre outras coisas, maior autonomia nas mulheres, fora dos partidos e sindicatos. Desde então, o corpo e a sexualidade passaram a ser centrais para a política e ele permitiu, além de questionar o caráter heterocentrado do feminismo, abrir novas brechas para o feminismo tanto como teoria social, quanto como prática política. O auge desta época se evidenciou em muitos grupos, redes, articulações, encontros internacionais, enfim, um sem-número de expressões políticas e culturais do lesbianismo feminista latino-americano que chegam até hoje em dia. Sua força política é evidenciar a heterossexualidade como sistema político, opressora em relação às mulheres e à potencialidade do lesbianismo para nossa liberdade e autonomia.

IHU On-Line – Que avanços você percebe no movimento lésbico-feminista desde seu surgimento?

Ochy Curiel – O avanço fundamental é que muitas lésbicas entenderam a importância de dar ao lesbianismo um caráter político, respaldadas pela proposta feminista. O lesbianismo feminista latino-americano é uma das correntes que se mantém mais radical nos postulados feministas, ainda que reconheçamos a existência de muitas lésbicas feministas metidas na institucionalidade, burocratizadas, dentro do movimento “Light”, como o GLBT. Mesmo assim, acredito que este é um movimento com muita criatividade, apresentando cinema, textos teóricos, músicas etc. Acredito, igualmente, que ele tem criado impacto no feminismo e nos movimentos sócio-sexuais, ainda que estes não sejam reconhecidos.

IHU On-Line – O movimento ainda é mal interpretado pela sociedade civil?
Ochy Curiel – A sociedade civil é um conceito muito amplo e muito complicado, porque a constituem desde os movimentos sociais até o empresariado, desde os setores da esquerda até os setores de direita. No geral, é claro que ainda não é um movimento muito bem visto por muitos setores, porque é um dos movimentos mais radicais. A autonomia e a radicalidade das mulheres nunca são bem vistas pelos setores conservadores, sejam de esquerda ou de direita. A lesbofobia é um fenômeno muito intenso em nossos países. Além disso, acredito que ainda não temos força política para dentro da nossa sociedade conservadora, e isso se deve ao fato de que ser uma lésbica pública significa correr muitos riscos, lamentavelmente.

IHU On-Line – No artigo “El lesbianismo feminista: uma propuesta política transformadora”, você fala que o movimento lésbico-feminista passou por um retrocesso na década de 1990. Este retrocesso ainda existe?
Ochy Curiel – Sim, acredito que ainda existe. Creio que um dos fenômenos foi a institucionalização que tocou a todos os movimentos sociais. Já o trabalho político mais horizontal de construção coletiva depende do Estado, dos financiamentos internacionais, que já quase não existem, pelo menos não como antes. O que existem são ONG’s burocratizadas, tecnificadas, de serviços, que têm muito poucos coletivos autônomos. Somado a estes problemas, está a crise econômica pela qual nossas países têm passado, devido à globalização e ao neoliberalismo, que fazem com que cada vez mais os espaços de trabalho se reduzam. Então, se para as mulheres isto é difícil, para as lésbicas é ainda mais, pois o tempo que poderiam dedicar às ações políticas se reduz drasticamente. Outro fenômeno que acredito que tem a ver com esse retrocesso foi a entrada do gênero como perspectiva política, pois isso fez perder a radicalidade feminista e, unida a este tema, a inviabialização das lésbicas que se reconhecem como parte do movimento GLBT, um movimento de discurso tolerante, mas sem projetos políticos. Algumas alianças estão vazias de conteúdo, como o GLBT, que, para mim, é um movimento misógino e antifeminista.

IHU On-Line – Qual é seu principal objetivo quando diz que o movimento "tem uma responsabilidade histórica de afetar este mundo”?
Ochy Curiel – Eu falo por mim, e não pelo movimento. Acredito que o lesbianismo feminista é uma proposta transformadora e revolucionária das relações de opressão e subordinação que se exerce sobre todas as mulheres. Acredito que as lésbicas feministas, como toda aquela pessoa que pensa que é possível transformar este mundo para o bem, devem trabalhar mais politicamente nos bairros, nas universidades, no movimento artístico, entre os acadêmicos, escrevendo com propostas críticas e, ao mesmo tempo, positivas. Acho que o lesbianismo feminista não somente deve centrar-se na sexualidade, como também deve considerar como afeta as raças, as classes etc. As lésbicas, as mulheres e a humanidade devem ter uma visão integral da realidade, pois o movimento deve afetar as políticas neoliberais, a guerra, o militarismo, o racismo, os fundamentalismos na vida das mulheres, isto é, atingir tudo aquilo que manifesta realmente o patriarcado em todas as suas formas atuais. Nossas propostas políticas não se diluem em temas como a identidade, pois consideram tanto nossas vidas privadas como públicas, além de nossas subjetividades macroestruturais. É uma proposta que precisa transformar-se em um projeto que transpassa fronteiras, descolonizador de nossas vidas. Essa, para mim, é a proposta do lesbianismo feminista.(www.unisinos.br/ihu)