terça-feira, novembro 20, 2007

Prescrutando as fundações do Patriarcado na obra de Marques de Sade


Os textos de Sade exploraram os limites mais extremos da sexualidade, que certamente constitui uma das dimensões mais importantes da vida privada, e ainda hoje essas explorações definem os limites da consciência moderna por vários aspectos. Será uma coincidência que as principais obras de Sade tenham sido compostas entre 1785 e 1800 (com algumas outras datando dos anos que antecedem sua morte em 1814)? [*período concomitante à Revolução Francesa].



Nos primeiros anos de Donatien Alphonse François de Sade, nada nos permite antever o futuro autor de Justine, de La Philosophie dans le boundoir [A filosofia na alcova] e das Cent vingt jounées de Sodome [Cento e vinte dias de Sodoma]. O jovem Sade estudou em Louis-le-Grand, antes de ingressar no Exército real, à semelhança de muitos jovens nobres e futuros herdeiros de títulos de nobreza. Casou-se aos 23 ans e, nos meses seguintes, ficou preso em Vincennes por ordem régia, devido a "devassidão excessiva",início de uma longa carreira de libertinagem pontuada por encarceramentos. Entre 1778 e 1790, ele passou onze anos em Vincennes e na Bastilha, e depois de 1801 não tornaria a sair da prisão (entre 1803 e 1814 ficaria em Charenton).


Apesar das suas origens nobres, Sade sobreviveu à Revolução de Paris, escrevendo peças e até trabalhando como funcionário (secretário da seção de Piques), antes de permanecer vários meses recluso, em 1794, na mesma prisão em que se encontrava Laclos.


Antes de 1789, Sade era um libertino notório, mas, sob a Revolução, se tornou ainda mais audacioso em seus textos: Justine teve seis edições no decênio que se seguiu a sua publicação em 1791. O romance original de trezentas páginas se converteu em 1797 em La nouvelle Justine [A nova Justine], com 810 páginas; Juliette, publicado no mesmo ano, tinha mais de mil páginas. Aline et Valcour e La philosophie dans le boudoir foram publicados em 1795. Os jornais denunciavam Sade principalmente enquanto autor de Justine; La nouvelle Justine e Juliette. os outros dois títulos do ciclo de Justine, acarretariam sua última condenação ao cárcere, de onde nunca mais sairia em vida. A quantidade de edições e a notoriedade duradoura de Justine provam claramente que Sade não era de todo conhecido durante a Revolução. Lolotte et Fanfan (1788), o romance mais conhecido de Ducray-Duminil, o extravagante autor sentimental que pode ser comparado à romancista inglesa Ann Radcliffe, teve não menos de dez edições, mas Ducray-Duminil era o autor mais popular nesse período. Numa época em que os novos gabinetes de leitura, que começaram a se multiplicar em Paris a partir de 1795, estimulavam uma produção literárea constante (de 4 a 5 mil títulos entre 1790 e 1814, segundo estimativas) e um gosto crescente pelo romance, a obra de Sade contava com um público significativo.


A DECLARAÇÃO DOS DIREITOS DE EROS (do Homem e Cidadão*)


Jean-Jacques Lequeu (1757 - 1825), o mais inspirado dentre os arquitetos visionários de uma época que conheceu muitos deles... Lequeu teve uma intensa produção durante a Revolução, embora sempre mantendo uma posição contestadora. Perturbadora beleza do corpo feminino neste desenho, aliás bastante misterioso (Paris, Biblioteca Nacional)


Os Contes philosophiques [Contos filosóficos] de Sade minavam o ideal revolucionário, não por rejeitá-lo, mas por levar sua lógica ao extremo, chegando ao resultado repulsivo. Segundo Maurice Blanchot, "ele formula uma espécie de Declaração dos Direitos do Erotismo", onde a natureza e a razão servem aos direitos de um egoísmo absoluto. Ao longo de toda a sua obra, Sade inverte o habitual triunfo da virtude sobre o vício. Ele proclama "Sou em suas mãos apenas uma máquina que ela [a natureza] move a seu bel-prazer". Num mundo novo, de igualdade absoluta, a única coisa que importa é o poder(/*phoder), amíude brutal e cruel. O nascimento, os privilégios, as distinções de toda e qualquer espécie desapareciam frente a esse regime revolucionário e sem lei (no sentido usual do termo). A obra de Sade glorificava e ao mesmo tempo desencaminhava a liberdade, a igualdade e até mesmo a fraternidade. A liberdade consistia no direito de buscar o prazer sem consideração pela lei, pelas convenções, pelos desejos dos outros (e esta liberdade, ilimitada para alguns, significava em geral a escravidão das mulheres escolhidas). Buscava-se os prazeres na igualdade, e ninguém tinha direito a eles por nascimento; venciam apenas os mais impiedosos e os mais egoístas (quase sempre homens). Haverá exemplo mais claro de fraternidade do que os quatro amigos das Cent vingt jounées ou da "Sociedade dos Amigos do Crime" em Juliette, cujos regulamentos e rituais parodiam a maçonaria e os milhares de Sociedades de Amigos da Constituição (mais conhecidos como jacobinos) da década revolucionária?



O privado ocupa um lugar muito especial nos romances de Sade. Ele é necessário para os jogos mais extremos e mais cruéis, apresentando-se quase sempre sob a forma de uma prisão (*logo, não parece estranho que a mesma palavra que define privacidade também define privação...).


Como observa Roland Barthes, "o segredo sadiano não é senão a forma teatral da solidão". Cavernas, criptas, passagens subterrâneas, grutas figuram entre os locais prediletos do herói sadiano. O lugar supremo dos segredos e da solidão consiste naqueles castelos especialmente escolhidos por estarem apartados do mundo exterior (a sociedade). O castelo de Silling, na Floresta Negra, é a locação principal de Cent vingt jounées de Sodome; em Justine, é o castelo de Saintre-Marie-des-Bois. Há pouquíssimos detalhes sobre o extrerior desses castelos. O interior é sempre descrito em termos ligados ao encarceramento: insiste-se sobre a reclusão, mas também sobre a ordem repetitiva. Em Silling, "era preciso mandar emparedar todas as portas que davam entrada ao interior e se encerrar totalmente no local como numa cidadela sitiada[...]. O conselho foi executado, montou-se uma tal barricada que já nem se poderia reconhecer onde haviam estado as portas, e as pessoas se instalaram no interior". Uma vez dentro desse mundo isolado do exterior, esse mundo exclusivamente privado, a insistência recai sobretudo na rigidez da ordem(ou *!ordem!). A perversão não é sinônimo de anarquia: é a inversão sistemática de todos os tabus, o enfrentamento regrado e repetitivo de todos os limites, até o ponto em que o prazer exige o crime.


Nesse espaço hiperprivado, os objetos do prazer e da ordem em geral são mulheres: "Tremam, adivinhem, obedeçam, previnam e [...] talvez vocês não sejam inteiramente infelizes" (Cent Vint Jounées). Com poucas exceções, as mulheres de Sade não são livres e raramente sentem prazer de plena vontade. "Todo gozo partilhado diminui." O amor usual e heterossexual constitui uma única exceção: dá-se preferência a outros orifícios em vez da vagina. As mulheres são objeto de agressões masculinas e não têm qualquer identidade física. Juliette parece a exceção à regra, mas, para sobreviver, precisa roubar e matar incessantemente. Por uma espécie de torção tocquevilliana, a igualdade e a fraternidade entre os homens servem apenas para o despotismo total deles sobre as mulheres. Inúmeras vítimas são aristocratas, mas o homem do novo mundo sadiano restaura uma espécie de poder(*/phoder) feudal no isolamento do castelo, como uma cela.


Não podemos tomar Sade como o verdadeiro repesentante das atitudes em relação às mulheres durante a Revolução; sua obra, porém, chama a atenção para o papel desempenhado por elas enquanto figuras privadas. Nos romances de Sade, o privado é o lugar onde as mulheres (às vezes crianças, inclusive garotos) são encarceradas e torturadas para o gozo sexual dos homens. Não se tratará apenas de uma redução ao absurdo, tipicamente sadiana, da concepção dos sans-culottes e dos jacobinos sobre o lugar da mulher mantida no espaço (*ou cárcere) privado? Os revolucionários limitaram o papel das mulheres ao de mãe e irmã - dependendo, para suas identidades, dos maridos e dos irmãos; Sade as converteu em prostitutas profissionais ou em mulheres cujo papel principal é sua disposição em se deixarem acorrentar pelos homens, tendo como única identidade a de objetos sexuais. Nessas duas representações do privado, as mulheres não possuem qualquer identidade própria - pelo menos é o que desejam os personagens masculinos, pois na verdade, elas são representadas como destruidoras em potencial, como se fosse mais do que evidente que jamais aceitariam voluntariamente os papéis que lhe são designados. Se não fosse este o caso, por que os jacobinos, quando as mulheres reivindicaram o direito de desempenhar um papel público, responderam que seria o caos (*KAOS), reagindo com tanto mau humor e, ousamos dizer, tanta histeria? E por que, então, Sade teria uma tal obsessão pelo castelo fechado?


"Para impedir os ataques exteriores não muito temidos e as invasões interiores bem mais temidas" (Cent Vingt Journées).


trecho retirado do livro A História da Vida Privada vol. 3
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wikipedia em Marquis de Sade:


"Numerosos escritores e artistas, especialmente aqueles preocupados com sexualidade, tiveram ambos rebelidos e fascinados com de Sade.


Simone de Beauvoir (em seu ensaio Devemos queimar Sade?, publicado em Les Temps modernes, Dezembro 1951 e Janeiro 1952) e outros escritores tentaram localizar traços de uma filosofia de liberdade radical nos escritos de Sade, precedendo aquela do existentialismo há alguns 150 anos. Ele também foi visto como precursor da psicanalise de Sigmund Freud em seu foco em sexualidade como uma força motivo. Os surralistas admiraram ele como uns de seus predecessores, e Guillaume Apollinaire famosamente o chamou de "o espírito mais livre que já existiu".

Pierre Klossowski, em seu livro de1947 Sade Mon Prochain ("Sade meu Vizinho"), analisa a filosofia de Sade como precurssora do niilismo de Nietzsche, negando ambos os valores Cristãos e o materialismo do Iluminismo.

Um dos ensaios de Max Horkheimer e na de Theodor Adorno Dialetica do Iluminismo (1947) é entitulado "Juliette ou Iluminismo e Moralidade" e interpreta o comportamento calculista e impio de Juliette como o encorporamento da filosofia do iluminismo. Similarmente, psicanalista Jacques Lacan postulou em seu ensaio de 1966 "Kant avec Sade" que a ética de Sadeera a compleição complementar do imperativo categorico originalmente formulado por Immanuel Kant.


Em as Mulheres de Sade: Uma ideologia da Pornografia (1979), Angela Carter providenciou uma leitura feminista de Sade, vendo ele como um "pornografo moral" que criou espaços para mulheres. Similarmente, Susan Sontag defendeu ambos Sade e Georges Bataille que escreveu Histoire de l'oeil (História de um Olho) em seu ensaio, "A Imaginação Pornográfica" (1967) que como base seus trabalhos eram textos transgressivos, e argumentou que nenhum deles devia ser censurado.


Em contraste, Andrea Dworkin viu Sade como um exemplar pornógrafo odiador de mulher, suportando sua teoria que pornografia inevitavelmente leva à violência contra mulher. Um capítulo de seu livro: Men Possessing Women (Homens Possuindo Mulheres)(1979) é devotado para uma análise de Sade. Susie Bright clama que a primeira novela de Dworkin Ice and Fire(Gelo e Fogo), que é prevalente de violência e abuso, pode ser visto como um moderno re-conto de Juliette de Sade."

8 comentários:

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