terça-feira, fevereiro 24, 2009

Sobre a importância, para todas as mulheres, da experiência do amor lésbico



"Todas as relações heterosexuais são corrompidas pelo desequilíbrio de poder entre o homem e a mulher. Para manter a superioridade os machos precisam alimentar a ansiedade emocional e a submissão econômica da mulher. Para sobreviver numa ordem social de supremacia masculina, a mulher se enfraquece de modo a construir o ego masculino. A mulher não pode se desenvolver plenamente num contexto heterosexual devido ao efeito sufocante dessa cultura e aos papéis prejudiciais que ela é forçada a desempenhar.É mais provável que as relações entre mulheres estejam livres das forças destrutivas que tornam tais defesas necessárias. As normas institucionais e as limitações de uma cultura orientada para o poder, claro, também influenciaram as mulheres; entretanto, os níveis dominação-subordinação que as mulheres às vezes trazem para as relações lésbicas não podem obscurescer a igualdade essencial das pessoas envolvidas. Além disso, muitas das reações cultivadas nas mulheres são extremamente propícias a uma interação não-exploradora. Sensibilidade aos sentimentos e inclinações dos outros, cuidado, delicadeza, estão entre as qualidades que são mais cultivadas nas mulheres do que nos homens...Como os homens ocupam uma posição social superior e são ensinados a disputar o poder de modo a manter essa posição, dificilmente aceitam os outros como iguais, especialmente as mulheres. Os contatos humanos têm de ser dispostos hierarquicamente, e as mulheres têm que estar no nível mais baixo.




Quando uma mulher recusa-se a aceitar essa posição precisa ser 'posta em seu devido lugar' e a tensão é inevitável. Contrariamente a isso, as mulheres estão aptas a começar numa base de igualdade e dedicar suas energias à criatividade e ao desenvolvimento em vez de lutar para manter a identidade contra a destrutividade do tradicional papel feminino."




- Janis Kelly em Sisters in Love: An exploitation of the need for homossexual experience

8 comentários:

laila disse...

uma perguntinha: de quem é a pintura das duas moças?

um abraço,
laila

Deborah disse...

Oi Jana.

É a Deborah ^^

O hétero como única forma de realização plena da sexualidade é uó. O lesbianismo é um ato de amor e é lindo por isso ^^

Mas discordo que uma mulher não é plena até se portar de "X" forma.

Patriarkill ♀ disse...

é da marie de laurencin ^^


veggie

Ale Guerra disse...

olha eu aqui também, rs.
Estou "te estudando", rs.
Então...adorei seu texto, mas vc acha mesmo que "cuidado, delicadeza, estão entre as qualidades que são mais cultivadas nas mulheres do que nos homens"?
isso não seria reforçar a questão biológica? tipo.. mulheres são assim e homens assado?
vc não acha que as atitudes femininas ou masculinas são construções sociais dos papeis pre estabelecidos para os gêneros?

Anónimo disse...

eu concordo com vc, mas são basicamente duas linhas... acho que as radicais são meio românticas, elas valorizam uma coisa humanizante nas relaçoes físicas, de carinho, compreensão, reciprocidade, acolhimento.. ..

eu já acho um pouco cristianizado... não acho que todas relações sexuais precisem ser algo do tipo dependente de confiança no outro, etc etc, mas as pessoas sentem medo nesse mundo das relações sexuais, ainda mais meninas com sensibilidade feminista... pessoas que se sentem agredidas pela objetificação... as feministas latinoamericanas são mais libertárias na questão da sexualidade, elas acham que devemos rejeitar traços de feminilidade como coisa do colonizador, a coisa da dependencia, da proteção, são vestigios do patriarcado, aí as lésbicas são todas monogâmicas e etc, péssimo. Eu tb acho que daí vem características de violência relacional, pode evoluir prum quadro mais grave. Acho a liberdade de transitar entre diversos relacionamentos, amor livre feminista lésbico, celebração da sexualidade, experimentação, não necessariamente cai num modelo patriarcal, acho formas de exercitar amadurecimento emocional e auto estima, socialização, um impulso pra fora ao invés de pra dentro que patriarcado torna apta às mulheres, daí as lésbicas serem meio sonhadoras, líricas...

mas entendo os dois modelos.


Sim, acho que feminilidade e masculinidade são péssimos. Essa é minha crítica e meu problema com mundo lésbico, a dependencia desses padrões. Mas digamos assim Alessandra, o que nos une, a mulheres? Senão nossas vivencias similares, um partilhamento? A idéia do feminismo cultural é mais ou menos que dentro da feminilidade, criamos formas de resistencia e significação dentro do espaço dos signos culturais impostos. É o caso por exemplo, de como muitas meninas iniciam em feminismo, que é por meio de busca de si nos mitos, na bruxaria, no ecofeminismo, ...aquela coisa de buscar valorização do 'feminino'.

Não acredito num feminino transcendente, e acho péssimo buscar algo de bom no feminino que vivenciamos no patriarcado e que nos fez, mas há vezes que tomamos alguma coisa como resistencia. Não sei se entende... foi uma das críticas a ecofeministas e algumas lésbicas culturais, que eram 'essencialistas', mas na verdade acabamos por tomar certos aspectos que nos pôem em contrário a ética patriarcal - sensibilidade, intuição, altruísmo, empatia - que primeiramente podem ter sido nutridos em nós para propositos de dominação, como valores que nos distinguem e nos afastam dos valores masculinos. Acho errado, mas se de certa forma fizeram essa divisão de riquezas inicial, tomaram pra si toda educação pra guerra, não sei se isso deveria nos interessar. Mulheres também me atraem não porque algo de essencialista as torna mais haver com meus valores, mas porque ao repudiar essa sociedade, entendo nelas uma formação que se torna mais próxima a que eu sofri, que nos poem numa similar busca por autenticidade...

tava pensando sabe (na minha banheira, rs), acho que rola uma natural atração entre mulheres tb dada a identificação com a outra, no campo das experiencias, quando ocorre que nos identificamos nelas. Andei pensando como feminilidade me talvez dispôs apta a alguns traços de personalidade que quis repudiar outrora, mas agora aceito como humanos, como subjetividade. Tenho uma inclinação às humanidades, à arte, e embora goste de estudos, uma rejeição aos racionalismos rudes, à esterelidade das coisas positivistas e rígidas, não sei se isso é bom. Mas me atrai nas meninas é essa coisa que transformaram em algo seu apesar de tudo, são todas garotas tentando lidar com sua história, suas memórias de moças bem comportadas. Há rebeldia e indignação sim, mas sob aspecto de uma sensibilidade ao mundo. É isso que gosto das meninas, que as fazem encantadoras e apaixonantes pra mim... Eu me sinto bem em meio a elas, não gosto das pressões pra agressividade, competitividade, ambição desumana,acho masculino.

mas foi construido como masculino sabe, não 'é' masculino, e se foi assim construido, foi exatamente contra nós, tendo em conta um ataque a nossos corpos e vidas... (eu exagero né rs)

sei lá, acho que uma das coisas mais fodas da lesbianidade é promover um reconhecimento de si mesma nas outras. Mulheres heteros nunca vão fazer isso, valorizar as meninas pelo que são, as experiencias que têm e tiveram, sua forma de ver o mundo, significarem pra gente, serem valorizadas. Nesse mesmo passo valorizamos a nós mesmas, coisa que patriarcado nunca vai fazer.

Aí penso que, embora uma impetuosidade sexual indique uma descolonização da feminilidade, ao mesmo tempo recupera um vetor de relação coisificante (impetuosidade sexual sobre mulheres, eu-isso não eu-tu), não sei se me sinto realmente bem mas acho importante vivenciarmos sexualidade, com todas ambiguidades que geralmente traz. Mas não sei se descoloniza realmente ou somente mantêm colonização, uma vez que htsexualidade compulsória não depende tao somente do tradicional par homem-mulher mas sim de suas lógicas verticalizantes.


V.G.

Sheryda Lopes disse...

Acho que vc fez bem em dizer que há características mais CULTIVADAS nas mulheres que nos homens. Quer dizer, não é que seja natural, e sim que é estimulado pela sociedade e algumas mulheres resistem(ainda bem) a tais papéis impostos.
Conheço um casal homossexual que vivencia uma relação violenta. Os dois já trocaram murros várias vezes e diversas discussões sempre caminham para a violência física. Quando soube, fiquei sem chão. Porque se fosse um homem batendo numa mulher, eu com certeza ja saberia melhor o que fazer, talvez nunca mais nem falasse com o cara, denunciasse, e tal. Mas dois homens que namoram se esmurrando, sinceramente me deixou sem reação.

Pedalada das Meninas disse...

Janaína, eu acho no minimo desonesto o tipo de ativismo que voce diz fazer e fica pleiteando por ai, voce sabe muito bem que maioria das coisas que vc tenta impor na cabeça oca de pessoas que estão em fase de transição ou com crise de afeto, são coisas meramente academicas e que pouco tem ligação com o real.
Tu faz recortes de coisas absurdas pra justificar e legitimar algo que nao passa de um fascismo descarado e da continuação dos sentimentos mais socializados no mundo: Estupidez e Ignorancia.
Ja vivemos em um continente que praticamente nenhum tipo de direito humano é respeitado, a ainda vem mais um empurrão de pseudolibertarios academicistas como vc para continuar a onda de intolerancia.
É claro que não ha como negar a questão em relação ao genero, mas pouco resolve sair apontando o dedo para todos os homens, ops detalhe não só HOMENS mas tambem MULHERES HETEROS muito bem resolvidas, como afirmar que os seres humanos não podem amar-se mutuamente, como julgar que o amor so eh verdadeiro quando lesbiano.
Isso é des humano
E pra que falar de femismo se se respeitamos nem como human@s que somos tod@s?
Se não ha respeito nem em relação a realidade social que as pessoas vivem, se nao existe compreenssão por parte da elite intelectual, sobre o que é ser pobre neste mundo

Pra mim todo esse falatorio nao passa mesmo de conteudo praticamente lixo intelectual, que pouco vai nos ajudar a avançar em questão de humanidade e dignidade.

jan disse...

ok Nathalia, mas depois de chamar alguém (nao sei com que autoridade) de facista, pseudonseique, dizer que o esforço de alguém pra estudar e nao fazer uma revolução sem método é academismo, que resgatar memória de mulheres é ditadura, que vontade de organização é autoritarismo, que recorte de lesbianidade é egoísmo ...cadê sua proposta? Desmotivar e destruir é BEM cômodo. Reprimir idéias tb é bem clichê. A lesbianidade não tem nenhuma visibilidade social, afora as representações patriarcais. Os índices entre lésbicas de tabagismo, uso de drogas, alcoolismo, obesidade mórbida e o silêncio sobre as práticas sexuais e as dsts são um impacto verdadeiro da suposição da heterosexualidade universal (autoras chamam de heterosexualidade compulsória). Falar que se lésbicas começam a fazer uma narrativa, super minoritária por sinal e de pouco consenso entre as próprias militantes lésbicas (muitas delas em organizações mistas e em que mal tem voz) ou entre a população lésbica em geral (pouco engajada politicamente dada a invisibilidade e a cultura de passividade que há entre mulheres e lésbicas) em que fala em prol de um resgate, que seja erótico ou cultural, da valorização entre mulheres, e que ousa dizer que (codições materiais, não é abstratismo) as relações entre gêneros são desiguais, estão 'impondo'... que força temos pra impôr? No Brasil pelo menos as organizações lésbicas temem se associar a feminismo por isso, porque feminismo é perseguido na cultura patriarcal (há séculos). Não obstante, é o feminismo que vem dando perspectiva à essas organizações mesmo no Brasil e principalmente na América Latina, que está trazendo um caráter revolucionário

A questão não é necessariamente prática pras feministas lésbicas, mas ética. As feministas lésbicas, não satisfeitas em compreender a sua 'condição' como uma mera situação populacional minoritária, congênita, específica, ou como uma 'prática sexual', ampliaram pra incluir todo tipo de experiência entre mulheres ligada a solidariedade e apoio mutuo e reconhecimento que rompesse com a socialização androcêntrica que recebemos. (Por que a eleição de uma mãe em apoiar seu filho homem e restringir e observar sua filha mulher não seria uma eleição erótica que apredemos desde cedo também?)

E sim, questionou a naturalidade das relações entre homens e mulheres, o amor cortês, o masoquismo, perguntou até onde faziam bem, ao menos como estão postas, e se não poderiam construir juntas algo novo. Nem que seja como projeto político. Feminismo e qualquer luta política tem uma dimensão de solidariedade vital. É preciso recuperar essa experiência de amor entre mulheres sim, em todos laços em que se manifestam e que são alvo da política sexista tensionar ou prevenir. É isso que feminismo-lésbico quis tentar transmitir, além de despertar pra abrangência da vivência lésbica, da vida das mulheres, dos laços entre elas. E isso não é um embate intelectual.

Tem um texto que pode interessar http://dialogoj.wordpress.com/2009/09/03/heterolesbo-feministas-lesboheterofeministas-la-cuestion-es-%c2%bfque-podemos-hacer-juntas/

Heterolesbo feministas lesboheterofeministas, la cuestión es ¿qué podemos hacer juntas?


Agora se a proposta é que retornemos às organizações LGBT/queer e fiquemos quietinhas no canto, satisfeitas com 'nossa' orientação sem questionar a naturalidade com que são postas as relações entre os sexos, como se simplesmente tivessem um carater erótico e afetivo e nenhuma política por trás, eu questiono se esse feminismo não se mostra temeroso demais de avançar nas suas conclusões.